quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Um mar de histórias



Memórias de Celsa Gomes. Ela mora no meio da rua dos Tabajaras, herdada do jangadeiro Tatá, seu primeiro marido. Aos 83 anos, muito bem conservados, Celsa é uma sábia contadora de histórias

Quando Jacaré, Manuel Preto, Tatá e Mestre Jerônimo se aventuraram, em 1941, da praia do Peixe ao Rio de Janeiro, a bordo da jangada São Pedro, sem bússola, para reivindicar a situação dos pescadores junto a Getúlio Vargas, ela tinha apenas 16 anos. Somente 10 anos depois, viria conhecer e casar-se com Raimundo Correia Lima, o conhecido Tatá. Ela é Celsa Gomes Soares. "Eu era Lima, do Tatá, mas agora é só Gomes Soares". Aos 83 anos, mora na Praia de Iracema, na mesma casa herdada do finado Tatá, falecido em 1971, atropelado. "Quando a gente se casou, eu tinha 26 anos e ele 64. Ele tinha idade de ser meu avô. Ele me pediu para depois que morresse eu não vender a casa." E assim ela fez.

No meio da rua dos Tabajaras, a casa se destaca entre lojas de artesanato, restaurantes e algumas poucas residências que ainda restam. Cheia de plantas, decorada com quadros antigos e fotografias na parede, a casa é um grande corredor. Hoje, a história se inverteu, vive com o segundo esposo bem mais jovem que ela, José Brasiliano Soares, desde 1975.

Celsa fala com a boca, as mãos e os olhos. Sorri e se emociona. Sua história de vida desenha um retrato vivo da Praia de Iracema, embora tenha nascido no sertão, em Salva Vidas. "Fica a três léguas de Quixeramobim", mapeia. Veio para Fortaleza em 1946, durante a seca, trabalhar na casa da família Gentil. Foi ser cozinheira. A mansão estava localizada à beira da praia. Hoje, a casa é o sindicato dos engenheiros particulares e fica logo no final do beco, em frente onde Celsa mora atualmente.

No dedo anelar da mão esquerda, a aliança de ouro ainda marca as lembranças vividas naquele bairro. As histórias na memória relembram o primeiro encontro com o jangadeiro. "Toda noitinha, ele passava para a praia aqui pelo beco. Tinha muita gente que trabalhava lá comigo. Ele passou uma vez e puxou assunto. Perguntou se a gente gostava de ir à praia. Logo se engraçou comigo. Eu já era noiva quando conheci o Tatá. Me apaixonei, desfiz o noivado e casei. Ele era mais velho e tinha mais juízo.(risos). Eu fui a 4º esposa dele".

O batom vermelho nos lábios se destacava sobre a pele negra e combinava com o vestido longo que usava. "Paulinha que mandou pra mim da França. Ela manda é muito, tenho um vestido de seda chinesa. Às vezes, manda as fazendas bonitas também. Esse aqui tem mais de 10 anos."

Paulinha e Sadi foram os filhos que ainda teve com Tatá, já passando das seis décadas de vida. O caçula, que tem o nome do pai, Raimundo Correia Lima Júnior, na boca da mãe, ganha o apelido de Sadi. Com menos de um ano de diferença, Paula Maria Lima Martin é, carinhosamente, Paulinha. "Minha filha conheceu o francês tomando banho de mar. Aqui, na Praia do Lido (atualmente praia em frente ao restaurante Tia Nair). Eu não queria que ela se casasse. Ela tinha 18 anos e ele era 20 anos mais velho. Casaram. Foi lindo o casório, lá na Catedral. Mora lá, com ele, até hoje. Paul Pierre." E a história se repetiu.

Sadi também foi embora, com 21 anos. Encontrou uma australiana, lá em Belém do Pará. "Tão linda ela. Os olhos verdes da cor do mar. Lá na Austrália já teve cinco filhos. Cada um com uma mulher diferente". Atualmente, vive com a chilena Cinthya. "E tá esperando mais uma menina, agora pra dezembro". Sadi é músico e não seguiu o desejo da mãe de ser marinheiro, mas atendeu aos anseios do pai, ficando longe do mar. Ele não queria que o filho seguisse a sina de pescador.

Já foi à França três vezes visitar a filha, mas a última foi em 1983. "Hoje em dia eu não vou mais, não. Esses aviões tudo doido, caindo". Prefere ficar por ali, nas imediações da sua Praia de Iracema. Antigamente, adorava caminhar no calçadão da Beira Mar. Ia até o Ideal, cedinho. Agora, se aproxima do mar somente quando José a leva. "A gente senta, come uma pipoca, toma uma água de coco. Antigamente, tinham as piscininhas aqui na frente. A gente tomava banho. Era bom. Agora tá tudo poluído, tudo sujo." Passear na Beira Mar, tem que ir de carro. O joelho não permite mais a caminhada e o esforço físico.

Aos olhos de Celsa, o tempo andou mexendo na arquitetura do bairro e na sua rua. "Com o tempo, está tudo diferente. Nem dá mais pra ver o mar daqui. Os engenheiros fizeram uma puxada ali em cima. Tampou a minha visão", reclama. A reforma do calçadão da Praia de Iracema tem causado alguns incômodos. Antes, os atletas usavam o espaço para o esporte, "agora, eles vêm fazer cooper aqui, no calçamento. Passam em frente de casa, em vez de ser lá pela praia, pelo calçadão", conta incomodada Celsa.

Ainda com um pé no sertão, passa as manhãs escutando o Reouvindo o Nordeste, programa da Rádio Universitária. Luiz Gonzaga é a trilha sonora predileta para cozinhar seu peixe frito com leite de coco. "Na casa onde eu trabalhava a gente só comia comida boa. Aí eu me acostumei... (risos). Garoupa, Pargo. Adoro!"

Ela reclama do barulho noturno da Praia de Iracema, da sua vista do mar que se foi, mas também sonha em reformar a casa. Na televisão, assiste de tudo. "Só não gosto muito de novela imoral. Eu tenho vontade de escrever uma carta para o (Luciano) Huck. Ele ajeita casa, né!?" Extremamente ativa no lar, agua as plantas, varre a casa, e lava o terraço. Disposição não falta para as atividades domésticas. "Só não lavo roupa".

Na rua, todo mundo conhece Celsa. Na comemoração dos 80 anos, ganhou uma grande festa. A casa de forró mais conhecida da cidade fica na mesma rua de sua residência. "Paulinha tava aqui para organizar a festa. Eu lembro que fiquei cansada de tanto ir buscar gente no aeroporto. Teve a ajuda da cônsul francesa. A Fernanda, amiga da minha filha. Elas se juntaram e fizeram as batucadas lá no Pirata. A gente é muito amiga do Júlio. Paulinha, quando vem da França com as amigas, ninguém paga nada", conta orgulhosa.

Sobre o bairro, fala afetuosa. Nem ela, nem José querem deixar a Praia de Iracema. Ir para a França? Nem pensar. Aqui ela tem José, "lá, tenho medo de me botarem na casa dos velhos". O companheiro é técnico fiscal de obra da prefeitura, passa o dia trabalhando fora. Católica, Celsa diz ter medo de morrer sozinha em casa. "Uma vez eu caí e não conseguia me levantar. Eu tava sozinha. Tentei me levantar na cadeira e ela virava pra cima de mim. Até que eu tive a idéia de ir até a cama e consegui me levantar. Eu peço é muito pra nossa senhora não deixar eu morrer só aqui em casa".

Os planos para o futuro dependem da vontade de Deus. Somente por um motivo, sairia do bairro. Nem só o dedo do homem é capaz de provocar mudanças na Praia de Iracema. "Eu peço a Deus que essa onda não venha. Vai acabar com tudo, com as casas da gente. E se não sair, morre todo mundo também". Conta Celsa que a onda terá mais de 50 metros e que ela virá até 2013. "Os pastores é tudo rezando na beira da praia. O governo tem que saber e avisar a gente. Eu sei que já tá despregando uns gelos por acolá. Eu até já sonhei, todo mundo correndo. Vai ficar só as cabeças dos morros".

Fonte: Jornal O Povo

terça-feira, 30 de setembro de 2008

O livreiro de Stalin

A história de Manoel Raposo Coelho. Livreiro, militante comunista, editor, poeta, compositor, intelectual, escritor e boêmio, Manoel Raposo é um dos últimos símbolos de uma Fortaleza vermelha


Jáder de Carvalho durante noite de autógrafos na Praça do Ferreira: 850 livros vendidos. Ao lado Manoel Raposo em sua casa (Foto: Fco Fontenele)

A noite corria mansa quando Manoel Coelho Raposo pisou na Praça do Ferreira na segunda-feira, 22. Penteou, com os dedos, os cabelos brancos desfeitos pelo vento que passeava sem rumo em volta dele. Metido numa calça cinza, uma camisa esverdeada e um cinto que juntava as peças, atando-as ao corpo franzino e sumido, rodeava o lugar com os olhos.

- A guarita ficava bem aqui, disse encaminhando-se para o lado esquerdo da praça, com passos rápidos e miúdos. - Não havia este calçadão. A (rua) Guilherme Rocha atravessava a praça e do outro lado da rua ficava o Abrigo Central. As mãos indicam o lugar grudado na lembrança.

A guarita era uma livraria ambulante que Manoel Raposo arrastava pelas ruas do Centro vendendo livros, pelo meio da década de 50. Dessa guarita, com energia improvisada de uma bateria de carro, Manoel Raposo foi o responsável pelas noites de autógrafos mais ruidosas que a cidade viu naquela época. E não viu mais. O jornalista Jáder de Carvalho protagonizou uma dessas noitadas. Vendeu 850 livros no dia do lançamento do Sua Magestade, o juiz. A guarita cresceu. Manoel Coelho Raposo se tornou um dos maiores livreiros do Ceará, numa época em que não havia esse negócio de franquias e redes. As nove livrarias Feira do Livro - no Ceará e Rio Grande do Norte - fizeram dele um respeitado distribuidor da literatura marxista e nacionalista do País. Era do balcão da Feira que saíam os livros da histórica editora Vitória, do Partido Comunista do Brasil (PCB); da Fulgor e Obelisco; da Editora Civilização Brasileira, do Ênio da Silveira; da Brasiliense, do Caio Prado Júnior; da Zahar Editora, responsável por trazer ao Brasil os marxistas norte-americanos.
Essa história começou a ser escrita quando um garoto de uns 17 para 18 anos saiu do Crato, corrido da casa do tio Pedro Felício, que o havia empregado numa loja de vender ferragens. Manoelzinho serrava ferro; contrito, também ajudava na missa - era um cruzadinho - e escrevia versos. Um belo dia, viu uma movimentação de gente que se encaminhava à praça Siqueira Campos em passeata. Foi junto. Descobriu que ali se travava uma luta, na base da palavra, pela Semana Inglesa. Os operários do Crato defendiam folga do trabalho aos sábados. De cima de um caixote que servia de palanque, o garoto não contou as pipocas. Foi lá e fez discurso. Na velocidade com que as conversas correm, Pedro Felício não gostou das idéias comunistas que estavam assolando a cabeça do rapazote. Expulsou-o de casa e o despediu. "Vá pra Rússia, seu subversivo, comunista", ouviu o menino desnorteado. "Aquilo me marcou profundamente", diz. No auge do desespero, entrou numa igreja e rezou. Quando saiu de lá, tinha Fortaleza nos planos. Pouco tempo depois se despedia de Deus.

No banco da praça

A lua estava amarelada naquela segunda-feira em que Manoel Raposo esquadrinhava a Praça do Ferreira. Do lado contrário ao da guarita, mais para a banda da lanchonete Leão do Sul, ficava o banco dos comunistas. - Era aqui onde se encontravam o Pedro Jerônimo, o Josafá Linhares, o lendário Papão, que virou personagem do Graciliano Ramos no livro Memórias do Cárcere, o Aluízio Gurgel e a turma de O Democrata, Maria Pontes, Morais Né, Odalves Lima, enumera um por um. Põe no rosto um sorriso entusiasmado de retorno no tempo. A Praça do Ferreira era o umbigo de uma Fortaleza avermelhada. Nesta cidade, que exalava idéias por todos os lados, com uma juventude que até pelo aumento no preço do ingresso de cinema fazia passeata e ato público, Manoel Raposo se tornou funcionário da empresa J. Lopes e foi estudar no Colégio Fênix Caxeiral.
Por essa época, o militante comunista Pedro Jerônimo entregou-lhe um livro que precisava ser lido sem demora: A Vida de São Luiz. Manoel estranhou um comunista envolvido com vida de santo. No miolo, porém, estava A Vida de Carlos Prestes. Numa outra ocasião, foi recrutado para a União da Juventude Comunista. O convite veio de um jovem alto e bem aparentado. Chamava-se Beni Veras. Deixar de ser empacotador para trabalhar em O Democrata (jornal do partido comunista) foi questão de dias. "Me decidi pelo partido comunista", fala com ar grave. Decisão que vai carregar para sempre.
Quando saiu de O Democrata, pediu 100 mil réis ao pai para começar o próprio negócio. Comprou o livro A vida de Luís Carlos Prestes. Vendeu, comprou dois. Foi assim que a guarita nasceu e, depois, a Feira do Livro. O comunismo sempre junto. Ficou amigo de Luís Carlos Prestes, Oscar Niemeyer. Tornou-se um militante sem precedentes na história da esquerda cearense. Era uma junção de livreiro, escritor, poeta, intelectual, editor, compositor, boêmio e, acima de qualquer intempérie histórica, stalinista. Como editor pôs na rua livros de cearenses como Moreira Campos e Jáder de Carvalho. Editou a revista O Saco, símbolo de uma das mais comentadas revistas de cultura na década de 70, em Fortaleza, com repercussão nacional; mais tarde publicou O Popular. Escreveu 22 livros entre poesia, economia política e teoria marxista. Como comunista pagou um preço elevado. Em 1964, Manoel Coelho Raposo teve todo o estoque de livros considerados "nocivos" à sociedade brasileira e confiscados pelos militares. Foi preso. A rede de livrarias cambaleou, e ele teve de pedir concordata. Dois anos depois, havia honrado todos os compromissos, mas redesenhou a estrutura da empresa, agora de menor porte.
Como stalinista, a situação ganhou ares de loucura, para uns, e de extrema coerência, para outros. O ano de 1956 ficou marcado pelo famoso discurso feito por Kruschev no XX Congresso do Partido Comunista Único Socialista (PCUS), conhecido por trazer a público "os crimes de Stálin". Manoel Raposo nunca aceitou as denúncias que promoveram um processo de desestanilização da esquerda mundial, dividiram os comunistas de uma ponta a outra do ocidente e criaram o revisionismo. "Chorei ao ouvir aquilo. Kruschev foi um traidor. Ele manchou para sempre o nome de um dos maiores gênios da humanidade. O homem que venceu a miséria do Nazismo. Sim, porque não foram os americanos que venceram a guerra contra Hitler, foi Stálin. Daquele dia em diante decidi lutar para defender Stálin."
E disso Manoel Coelho Raposo nunca arredou o pé. Crê fielmente que o futuro da humanidade é o sistema comunista. Com ele, a sociedade veria o fim da luta entre as classes proletária e burguesa e os trabalhadores dominariam os meios de produção. No comando, estaria um partido único, capaz de mostrar o caminho que libertará o homem do seu maior inimigo, a cegueira do capitalismo. Nem o termo stalinismo, usado com toda a carga pejorativa, o fez mudar de idéia. Para contrapor-se ao que chama de "traidores da Revolução", deu para escrever livros que honram o nome de Stálin e todos os meios usados por ele para sustentar a Revolução de 17 de outubro: da limpeza dos dissidentes da cúpula do partido, passando pelo banimento dos contra-revolucionários, à morte dos que resistiram à coletivização da agricultura na Rússia. "Desculpe a expressão, minha filha, mas não se faz revolução com beijinhos e tudo o que Stálin fez era necessário para a construção do comunismo."
O livreiro pôs no comunismo toda a sua vida. Aos 75 anos, completados em abril passado, mora no Centro, nos altos do prédio onde funciona a pequena Forgráfica Editora. Atualmente trava um luta contra o tempo e um enfizema pulmonar, que faz do ato de respirar uma batalha. Na pequena sala da editora, Manoel rumina memórias, rodeado de livros, dele e de outros autores, blocos de recibos empilhados, poeira, três ventiladores e uma bandeira do comandante Che Guevara, que observa tudo.
Do homem apaixonado pela boêmia, Manoel Raposo não fala muito. Cerca-se de uma discrição velada. Aqui, acolá escapa um "fumei muito, bebi como diabo". A história do menino pobre de Crateús, filho do cego Genuíno e de Toinha, sai nesses dias no livro Caminhos Paralelos - Um Homem do Mundo que está pronto para ser lançado logo após passar o período das eleições, no pátio do Theatro José de Alencar. Nele, Manoel Raposo se transforma numa espécie de Homero que recorre às musas e conta sua vida em forma de poesia épica. O livro traz ainda um trecho de Hera, romance autobiográfico interrompido - "por compreender que não é o romance o meu ofício" -, e de outros poemas escritos em várias fases da vida.
- Por hoje chega, né? Sentado num dos bancos da Praça do Ferreira, ele é apenas letra, palavra, poema, memória. Levantou-se firme e antes de ir embora relembra: "Vivi muitas coisas aqui. É tudo passado".
"Por hoje chega"
Fui, primeira vez, à casa de Seu Raposo em junho passado para entrevistá-lo. Ele estava no meio de uma crise, mesmo assim, resolveu me receber. Começamos a conversa com o acordo de que faríamos um pedaço da entrevista naquele dia e terminaríamos logo que ele se sentisse melhor. Mal começamos, ele puxou livros, leu poemas e contou, sôfrego, histórias da infância em Crateús, a chegada ao Crato, a vinda para Fortaleza. Enfileirou os feitos. Nessas idas e vindas da memória, quase sem perceber, estava diante de um homem que defendia Stálin com a fé de um cristão numa arena romana.
O esquema jornalístico de pergunta à espera de uma resposta já tinha ido embora fazia tempo. Antes de encerrar, convidou-me para ver com ele "uma pérola do comunismo, o verdadeiro cinema no tempo do camarada Stálin": o filme era A Balada do Soldado, de Grigori Chukhrai. Combinei de voltar dois dias depois para concluir a conversa. Quando liguei, seu Raposo estava internado. Lá ficou quase um mês. "Entre a vida e a morte", como ele relatou depois. Quando voltou para casa sofreu horrores com a reação alérgica à medicação.
Quase três meses se passaram e voltamos a nos encontrar. Logo após os cumprimentos, ele disse: vou ler para você a poesia que fiz quando saí da crise. Declamou o poema Amor e poesia, impresso, datado e assinado. De novo, a entrevista escorria entre os dedos. O homem que parece saído do romance célebre de Miguel de Cervantes escapole e dita ele os rumos da conversa. Onde paramos naquele dia mesmo? Quando chegamos em 1976, ele disse: "Por hoje chega, vamos marcar outro dia". Foi assim nos outros encontros. Agora, com mais liberdade eu mesma pedia os trechos dos livros para ler. Abria os pacotes para tirar de lá as publicações, batia a poeira.
Os temas que envolviam a vida familiar e a fama de boêmio romântico, estilo Castro Alves, não eram bem vindos. Só muito de leve, cedeu um pouco e declinou o nome de alguns amores. Ouvi algumas composições paridas no meio de profundas crises existenciais e amorosas. Para compreender o universo do Seu Raposo, saí ouvindo vários personagens que conviveram com ele na militância, na poesia, na literatura, na boemia e decidi contar a história dividida em três matérias. A primeira, publicada hoje, um relato sobre ele. Amanhã, o intelectual editor que abriu caminhos para gerações de jornalistas, escritores e boêmios; na quarta-feira, a construção do militante de esquerda e suas práticas políticas. É claro que Seu Raposo é muito maior do que tudo isso, mas a série de matérias é, pelo menos, um começo.

Depoimentos


"O velho Manoel Raposo é o último dos moicanos. Ele foi de uma geração de homens inteligentes que renunciaram à vida burguesa. Raposo se desfez de tudo para se dedicar à vida voltada para a luta do povo. Ele tem um sentimento de responsabilidade com o povo e é o último representante desse sentimento. Dedicou toda a sua vida, com toda a determinação ao que ele acreditava. Ele é um stalinista, fui trotskista, tivemos muitas divergências, mas trabalhamos muito juntos. Eu chamo isso de coerência e ele pagou caro. Foi um empresário bem sucedido, foi um dos maiores empreendedores que o Ceará teve e colocou todas as suas posses a serviço do que ele acreditava. Ele é um dos desses homens que viveram a vida plenamente".
Francisco Auto Filho, secretário da Cultura do Estado do Ceará


"Eu acho que Manoel Raposo é uma das grandes personalidades vivas do Ceará. Pela trajetória marcante na política e na cultura. Ele tem uma importância imensa para toda uma geração de escritores e jornalistas cearenses. Foi ele quem editou a revista O Saco e lançou todo um grupo de jovens autores, artistas plásticos. A vida inteira o Raposo fez isso. Sempre foi guiado pela utopia. Foi a utopia que determinou esse humanista. Pagou um preço altíssimo, mas até hoje guarda consigo essa coerência".
Rosemberg Cariry, cineasta


"O Raposo é um homem do povo. Nunca foi sofisticado. É um intelectual e vai ser isso a vida inteira. Mesmo sendo um empresário, um homem de dinheiro, por conta do seu posicionamento político, sempre foi um homem simples. Ele agrupava as pessoas, não tinha uma liderança agressiva. Conseguiu ter dinheiro, tinha muito dinheiro e usava isso para fazer coisas bacanas na cidade. Já tive umas brigas com ele, mas ele é uma pessoa singular: um intelectual, um comerciante que gostava de ser um produtor cultural, de fazer o que ele acreditava".
Seigbert Franklin, artista plástico

Fonte: Jornal O Povo

domingo, 17 de agosto de 2008

Serra da Ibiapaba



Serra da Ibiapaba
Clara Leda


A Serra da Ibiapaba ou Serra Grande é um conjunto de gigantescas e harmoniosas elevações que parecem eternizar seu contemplamento sob a linha do horizonte.

Ostensivamente bela, sua exuberância é proveniente da rica vegetação que, espaçosamente, derrama-se sobre altos e baixos, esculpindo ondas intermináveis que transformam o relevo numa paisagem sui generes, onde o ar embriagador das montanhas sai a campear. Nos baixios, orquestrando os canaviais, nas encostas, o palmeiral.

Sobre suas planícies nasceram oito cidades, geograficamente irmãs nos atributos naturais. Têm solo fértil, recursos hídricos e climáticos, grande diversidade de flora e fauna.

Em comum também suas origens. Terras, inicialmente, ocupadas por nações túpicas, como os Tabajaras, raça de guerreiros inteligentes e únicos habitantes das ricas terras ibiapabanas. Poucos anos após o descobrimento do Brasil, por lá aportaram os primeiros colonizadores, como os pernambucanos, franceses, portugueses e os padres Jesuítas. O aldeamento foi se organizando. No séc. XVIII surge a primeira vila passando a condição de cidade no século seguinte.


Viçosa do Ceará foi a pioneira e por conseguinte abriu caminho para o desenvolvimento da Serra Grande. Visitá-la é ter a oportunidade de excursionar no seu passado, apreciando o rico patrimônio arquitetônico do período colonial, a citar: a Casa onde nasceu o jurista Clóvis Beviláqua, criador do primeiro código civil brasileiro, transformada em memorial; o Solar da família Pinho Pessoa, com cento e sessenta e cinco portas e janelas e a acolhedora Igrejinha do Céu. Um dos acessos a esse templo é por uma subida de trezentos e sessenta e cinco degraus largos e brancos. Ao longo do percurso estão as estações da Via Sacra. No topo da colina se ergue a igreja que contemplativa, permanece, incansavelmente, a admirar, em baixo, a cidade sobre um extenso tapete verde. Em cima, nas proximidades, o firmamento azul acetinado. Aos arredores estão praças e jardins arborizados, com rosas de espécies e cores variadas, forrados por um gramado, impecavelmente zelado. Há também restaurantes e um centro comercial que oferece produtos da lavra, como artesanato, doces, licores, numa diversidade possível a atender todos os gostos.

Outra atração é o turismo ecológico. Através de caminhadas por trilhas chega-se a Bica do Itarumã, que oferece condições ideais para a prática de rapel, e a Pedra do Itaburuçu tal qual uma laje, a cem metros de altura, forma um abrigo natural.

Tianguá foi agraciada com a cachoeira das sete quedas, de singular beleza. As sucessivas cascatas são alimentadas pelas águas límpidas que descem pela encosta das serras.

No Parque da Floresta está a Cachoeira do Amor. Uma porção d’água sai de uma densa mata e cai lentamente em um lago. O local é aprazível, de peculiar encanto e tem a magia de envolver os visitantes em suas manhas.

Ubajara é o mais importante pólo turístico da Ibiapaba nele está o Parque Nacional de Ubajara, considerado Monumento Natural, abrigando, principalmente, a Gruta de Ubajara, a duzentos e cinqüenta e três metros acima do nível do mar, no Morro da Fada.


Para chegar a gruta se tem duas opções: uma é descer pela trilha de pedra, construída pelos índios. É uma aventura que permite variadas paisagens numa travessia penosa, de aproximadamente duas horas, mas repleta de emoção. A outra é pelo teleférico, igualmente uma aventura proporcionada pela descida íngreme, de curtíssima duração.


Conhecer a gruta é fazer uma viagem por corredores e salas subterrâneas onde o calcário, talhado pela erosão, enfeita cada compartimento com adornos semelhantes a rosas, cortinas, gravuras de animais, índios e retratos de pessoas. Esse compêndio artístico a torna museu.


Pelas trilhas chega-se ao mirante, um observatório arredondado, construído com tábuas de madeira, suspenso na lateral de um precipício. A vista é indescritível!


Cachoeira do Cafundó


Cachoeira do Frade

Prosseguindo, encontramos, por vez, as quedas d’água do Gavião, do Cafundó, da Gameleira e do Veado Quebrado. Na zona de carrasco, a do Frade e o balneário do Boi Morto. Ibiapina fica logo depois de Ubajara. Nove quilômetros é a distância que as separa. Seu turismo ecológico é realizado através de veredas estreitas e sinuosas que vão à Cachoeira do Pajé, à Bica do Monte Belo e a um mirante de onde o olhar vagueia e se perde nas vistas dos vales em descidas e subidas suaves, cobrindo de verde a encosta ibiapabana.

O Buraco do Zeza, no sertão, é uma seqüência de sete cachoeiras volumosas, singidas, por um lado, pela muralha montanhosa e por outro, pela mata virgem. A mais alta delas tem, aproximadamente, trinta metros. A água é lançada através de um monumento de pedras, sobrepostas aleatoriamente. A corredeira larga, continua por mais uns cem metros e novamente cai em outro precipício de menor altura e vai embora, deparando-se, lá mais à frente com outra e mais outras descidas. Desce festiva ecoando um canto bandeirante. São Benedito é a capital cearense das rosas. No distrito de Inhuçum está instalada a Cerosa a mais estruturada floricultura desse Estado.

Trilhas primitivas dão acesso a duas cachoeiras de singular beleza, a de São Cristóvão e a do Buraco da Velha. Ao longo de suas estradas estão as casas de farinha, os engenhos de cana de açúcar e os carros de boi. Em Guaraciaba do Norte está a Cachoeira dos Morrinhos e a Cidade de Pedras, imensas formações rochosas talhadas pelo sopro do vento, das tempestades e pelas chuvas.


Cachoeira de Morrinhos

Carnaubal é banhada pelo Rio Inhuçum cujas margens são decoradas por belas formações rochosas. Esse é seu principal atrativo turístico. Ao mesmo município pertencem as cachoeiras do Sítio do Parque das Águas e o Balneário Cachoeira Park.


Biaca do Ipu

Ipu está encravado no sopé da Serra e liga o Sertão Central à Serra da Ibiapaba. A Bica do Ipu é sua principal atração e um grande cartão postal. Cai de uma altura de cento e trinta metros e é conhecida no Brasil e no exterior por ter sido focada com inspiração no romance Iracema, escrito por José de Alencar.

Assim se compôs a Serra Grande. Seis de suas cidades receberam simpáticas denominações indígenas, como Ubajara, que significa homem da canoa e Ipu, queda d’água. Ambas nasceram nos arredores de uma igreja, possuem o mesmo clima, terras vazadas por olhos d’água que abastecem rios e cachoeiras, farta vegetação e um povo tranqüilo resultado de uma relação bem construída. Quando longe, a saudade corrói o peito e nenhum outro lugar é capaz de fazer esquece-la. As doces lembranças vêm a tona e sua gente descobre maravilhada que a cordilheira hospeda no seu peito o coração do Brasil.

Fonte:Jornal O Povo

VILA UNIÃO - Vila do sossego

Angélica Feitosa
da redação


Na boca dos moradores, o Vila União é descrito como bairro tranqüilo. Muita gente na rua a partir do final da tarde e à noite. Passeio na lagoa, futebol na praça, conversar sobre a vida no banco da igreja

O bairro Vila União existe desde 1940 e reúne quase 15 mil habitantes, cerca de muros, fica na rota dos aviões e comemora a paz que impera no bairro (Foto: ALEX COSTA) Mãos enfiadas nas chinelas japonesas. Palma protegida pela borracha, dedão e indicador de um lado da tira, os três restantes do outro. O menino ajeita o boné para trás enquanto, atento, se agacha e espera o ataque. Olho na bola e nos pé do adversário que se aproxima, ele se prepara. Um garoto chuta forte, o goleiro pula, espalma, pra fora. "Uuuuuu". Grita uma ruma de menino na beira da grade, tudo time de fora. "Béisso, macho, porque tu não passou pra mim?", reclama alguém do outro time, enquanto o goleiro joga pra cima o chinelo.

A pracinha do Vila União junta gente toda noite. A quadra em frente à Igreja Jesus Maria José é disputada. Por isso, tem menino que emenda do final da aula direto pra lá. "Meu pai conta que isso tudo aí era um matagal, até antes de ser um campo", joga da calçada de casa Antônio Augusto, 48, nascido e criado no bairro, em frente à praça. No muro e pintado de azul, o escrito "Zé do Buzo - Informador de ruas" ficou de registro, mesmo depois da morte do pai de um ataque cardíaco à beira da Lagoa do Opaia, em outubro passado. José Maria, o Zé do Buzo, era o maior conhecedor do bairro e a pessoa mais conhecida também. "Podia ser onde fosse, se dentro do Vila União, o pai sabia informar. De fora, dos derredores, também".

"Mas, menina, morar aqui é bom demais", se aproxima Lúcio Castro Júnior, apertando a bicicleta na área da casa de José Augusto. "Tudo que é bairro, você tem medo de andar. Aqui não. Você pode é amanhecer o dia nessa praça que ninguém mexe com você. O pessoal volta do trabalho e passa a noite toda aí, bebe umas canas, mas é tudo tranqüilo. Olha pra lá!", aponta para as crianças andando de bicicleta, rodeando a igreja. De noite, no Vila União, é gente na calçada em quase todas as ruas, compostas em maioria por casas térreas e alguns poucos sobrados. A concentração é maior no pólo de lazer construído à beira da Lagoa do Opaia e na praça que carrega o nome e a estátua de um antigo vereador, Aroldo Jorge Vieira.

No caminho do pólo, um corcel cupê 77 branco enfeita uma pequena lanchonete, numa casa de alpendre. É destacado pela parede azul, lustrado e brilhoso. Fica exposto e ninguém bole. Como esse carro foi parar aí? "É o que todo mundo pergunta", ri seu Francisco Paulo da Silva, 54, mecânico de uma empresa de ônibus, assistindo à televisão da sala de casa dividida com o ponto comercial. O carro virou chama para a lanchonete. "Faltou dinheiro para consertar. Tá aí, parado faz dois anos".

À Beira da Lagoa
O avião decola justamente na hora da notícia que seu José Maria Alves, 63, quer assistir. A melhor parte do noticiário quase sempre é interrompida pelo ronco estrondoso das aeronaves partindo das costas do aeroporto, na pista de decolagem colada com a casa do cambista. "É na hora que vai dizer o nome do cabra de morreu. É só um zuuuum. Tem que correr, pra aumentar o volume, senão perde". Seu Celinho se aprochega e revela mais uma faceta de se morar próximo ao aeroporto. "De madrugada, passa na mesma hora um avião. A gente já sabe que são três horas da manhã".

Os dois costumam ocupar as tardes à beira da Lagoa do Opaia, na margem próxima ao muro da Base Aérea. Nesse lado, o calçadão é irregular, quebrado e sem bancos, bem diferente da outra beirada, onde o fica o pólo de lazer. Uma belezura! Parquinhos espalhados ao longo da margem da lagoa, muita gente fazendo caminhada, adolescentes sentados em banco, churrasquinho e milho verde. "O lazer daqui é assim. Sai pra calçada, fala da vida, caminha, brinca nas quadras, não falta o que fazer não", aponta seu José Maria. "Mas, menina, tu percebeu? Quem vier para cá, não tem saída, tem que voltar", emenda o cambista, referindo-se ao muro da Base que envolve todo o oeste do bairro. Zé Maria antes de montar a banca para quem faz uma fezinha, foi motorista da Vila União, que junto ao Via Expressa/ Lagoa, formam as duas únicas linhas a passar pelo bairro.

"Aqui é seguro em quase todo o canto, até no Carandiru. Só não é pelo lado ali dos ricos, entre a (avenida dos) Expedicionários e a (avenida) Luciano Carneiro", aponta Larícia Julião, 13 anos, da pracinha do Vila. "Lá não tem um pé de pessoa na rua, é esquisito, você fica com medo". O "Carandiru" ao qual a garota se refere é, na verdade, o apelido do Planalto Universo, um condomínio que há quase cinco anos abriga os ex-moradores da área de risco que existia à beira da Lagoa do Opaia e da comunidade Maravilha, antes da reurbanização. São 648 famílias que vivem em blocos uniformes, amarelos ou cor de rosa, de janelas azuis ou amarelas também. A partir da Via Láctea, principal corredor, planetas, estrelas e satélite nomeiam as ruas do conjunto. Marte, Urano, Neturno, Sol e Lua.

"Eu acho que existe preconceito com a gente. Só em chamar de Carandiru, né? Quem é que gosta que sua casa seja comparada a um presídio?", fala Aurilene Tavares, moradora da Saturno, com a filha e o esposo. "Quando vou ao supermercado e perguntam onde moro para a entrega, eles dizem: 'Ah, no Carandiru', eu digo, 'Não, lá é Planalto Universo', tem que cortar!".

Pequenos mercantis em cada uma das ruas do bairro, inclusive na linha do trem. Vizinha a uma mercearia de frente ao trilho, uma senhora senta num banquinho, enquanto a filha de cara amarrada baixa a cabeça, para a mãe alcançar a nuca. Os cabelos arrepiados estão partidos em dois. A mãe aproveita o resto de sol, entrelaça os dedos pelos fios, procura mais um pouco. Achou. Coloca o bicho no cimento. Mata o piolho com a unha. Procura mais um pouco. Puxa forte as lêndeas presas aos fios. "Aiii, mãe", grita a menina. "Vem cá, só mais um, tá já acabando".


PERFIL
Fundação: 23 de agosto de 1940.
Área: 217,50 ha
População: 14.882
IDH: 0,556 (médio)
Área de risco: Comunidade da Infraero

Fonte: Jornal O Povo

Conjunto Esperança - No pagote do geladão

Amanda Queirós
da Redação


Para chegar ao Conjunto Esperança, leva-se pelo menos uma hora de ônibus. A viagem dá o tom de cidade de interior que ainda permeia o lugar

O polo de lazer do lazer do Conjunto Esperança que os moradores chamam de praça é o lugar que quem mora nas casas e nos apartamentos construídos no bairro (Foto: ALEX COSTA) A rua é asfaltada, mas carece de sinalização. A praça também resiste, apesar dos bancos quebrados e da grama estorricada pelo sol. O comércio apinha-se sobre as calçadas desordenadamente e quase transborda para fora delas enquanto a poluição visual bagunça a vista de quem pretende se orientar por ali. Esse ensaio de caos contrasta com o cheiro de interior exalado pelos moradores do Conjunto Esperança. Inaugurado em 1980, o bairro guarda certa herança dos anos em que tinha mais cara de sítio do que de cidade tamanha era a distância para se chegar ao centro de Fortaleza. A qualquer hora, não falta gente na rua e é raro cumprir um trajeto sem parar três ou quatro vezes para cumprimentar conhecidos.

Algumas dificuldades também permanecem. Ainda hoje, somente três linhas de ônibus conectam o bairro com os demais durante o dia. Pelo menos a paisagem do trajeto sofreu interferência o suficiente para entreter a vista de quem é obrigado a esquentar o assento do coletivo nas várias horas gastas para ir ao trabalho e voltar para casa. Há 20 anos, prometeram construir ali uma estação de metrô que deixaria tudo mais perto. Até agora, só se viu areal e a menção de um viaduto para driblar os trilhos.

Apesar das semelhanças com o passado, muita coisa mudou. Não há mais sensação de segurança como antes. Nenhum morador se vê voltando sozinho, a pé, de madrugada, de uma festa. Quem está acostumado com o lugar joga a culpa da violência nos vizinhos do entorno. Outro aspecto diferente é arquitetônico. As casas, antes todas iguais e sem muro algum, ganharam identidade própria ao longo dos anos. O térreo dos apartamentos deu lugar ao comércio e o aperto dessas construções se aprofunda com a profusão de negócios 2 em 1 - como o salão da Marlene, que promete alisamento e relaxamento de cabelos e tira mais uns trocados com uma banca de frutas montada logo à frente - ou mesmo com algo no estilo de Seu Torquato, que mistura a casa à mercearia para vender de palha de vassoura a bainha de peixeira. Tudo isso contrasta com as avenidas largas que delineiam o axadrezado dali e servem como sala de aula para as auto-escolas da região.

O Conjunto Esperança é um bairro relativamente pequeno. As casas estão instaladas em ruas identificadas por números que vão de 101 a 114. Perpendicularmente a elas, em ruas batizadas com letras do alfabeto, ficam os apartamentos - na verdade, prédios baixos de térreo e primeiro andar. Conta-se de uma grande rixa entre "a turma das casas" e "a turma do pombal", como era apelidada a galera dos apartamentos. O socorrista José Maria Monção, 45 anos, vive na região desde a adolescência e atesta a rivalidade. "A gente chamava de pombal porque eles se achavam melhores só por morar mais alto. Eu namorei pelo menos uma menina de cada rua, da 114 até a 101, e quando comecei a namorar uma moça do pombal, tinha que desconversar de onde vinha para não ser expulso dali", lembra ele, rindo.

Esses dois mundos convergem no Pólo de Lazer construído anos depois da fundação do bairro. Ninguém chama o lugar pelo nome. Para todo mundo, aquilo é praça. Uma turma improvisou uma cesta de basquete e a pendurou num poste. Já as senhorinhas dão voltas e mais voltas no espaço em busca de saúde. Nas noites, o espaço vira ponto de encontro para todas as idades. Gente de bairros vizinhos, que não têm equipamentos culturais, se desloca para papear e terminar o dia na brisa dali.

O pólo contém ainda um enorme campo de futebol e um palco todo pichado onde, vez por outra, ocorrem eventos da Prefeitura. A estrutura é tão grande que ofusca a existência de uma Igreja logo atrás e remodela o esquema praça-igreja interiorano no qual o templo tem mais destaque que a área pública. É também ao redor dali que se instala o principal point juvenil do Conjunto, o Geladão. O lugar era apenas uma lanchonete até o dono fazer um puxado e promover rodas de pagode e swingueira nos fins de tarde de domingo. O ingresso sai a R$ 2 e, nos dias mais badalados, homens entram com R$ 4 e mulheres, com R$ 2.

De acordo com o estudante Silas dos Santos, 13 anos, a festa bomba tanto dentro quanto fora. Como o local é apertado, muita gente prefere abrir o bagageiro do carro e comandar a própria batida do outro lado só aproveitando o zum-zum-zum alheio. Antes do surgimento do Geladão, o espaço que mais concentrava jovens, nos anos 90, era o Pinheiro Clube. A festa dali teve diversas fases. Rolou forró, música alternativa e, mais para o fim, funk ao estilo "pancadão". A balada começou a ficar pesada e, vez por outra, rolava tiro. A casa fechou e hoje se transformou em um templo da Igreja Universal do Reino de Deus.

Esse arsenal de diversão ainda é muito pouco para quem vive no Esperança, mas é suficiente para fazer os moradores criarem relações mais próximas com o bairro. Antes, para os mais novos, morar ali era só uma questão de tempo até se conseguir um lugar mais perto do centro. Hoje já tem gente querendo é voltar pro bairro onde foi feliz e não sabia.



PERFIL

População: 15.291
Renda média por chefe de família: R$ 419,13
Tamanho: 110 ha
Distância do centro: 13,7 km
IDH: 0,448

Fonte: Jornal O Povo

PAUPINA - O limite de Fortaleza

Tiago Coutinho
da Redação


Apesar de se gabar de ser um dos bairros mais antigos de Fortaleza, a Paupina se popularizou na cidade, principalmente, depois da criação da Topic 03. O local, de difícil acesso, vive resquícios de uma cidade esquecida

Mosteiro de São Bento, na Paupina. Os moradores se reúnem no lugar para ver a queima de fogos na passagem do ano(Foto: Mauri Melo) Chegar à Paupina não tem mistério. Entra na Topic 03 e pede para descer no fim da linha. Pronto. Caso vá conhecer de carro é arriscado se perder. O bairro, sem ironia, já quase não é Fortaleza. Localiza-se na fronteira do Eusébio. As tapioqueiras são as referências mais antigas. Mas cuidado, não são aquelas tapiocas da Washington Soares de diversos sabores e adereços. As da Paupina são mais grossas, sem recheio, feitas pelas mãos de Dona Maria do Socorro, 52, na base do coco e goma, apenas.

Socorro herdou o ofício de tapioqueira do pai, o finado João Inácio, precursor da venda de tapiocas na estrada antiga para o Iguape, Prainha e Morro Branco, no tempo da piçarra, hoje avenida asfaltada Barão de Aquiraz. "Eu prefiro ficar no meu cantinho mesmo. Naquelas tapioqueiras mais famosas, a briga é muito grande. Aqui, não. É tudo calmo. Vivo bem e tranqüila, com a minha freguesia", desdenha Socorro. De antigo e tradicional, destaca-se também o Mosteiro de São Bento. No topo da Paupina, sob o comando de Dom Beda Pereira de Holanda, o espaço sagrado existe há 15 anos. Quase exótico, o local celebra, aos domingos, a missa gregoriana, cantada em Latim, com público de aproximadamente 500 pessoas de vários outros bairros.

Do alto do templo, a cidade se alarga. Do lado direito, vê-se o Eusébio. Do lado esquerdo, um paredão de prédios, também chamada de Fortaleza. Na vista da frente, a Lagoa da Precabura, limite entre os dois municípios. O Mosteiro, para os moradores, torna-se mais atrativo no último dia do ano. "Como é muito alto. Muita gente vem para cá no dia do Réveillon. Dá para ver os fogos de artifício de toda a cidade. Fica bonito. É uma forma de lazer daqui", comenta Marcondes Rodrigues, 49, consultor de empresas e morador da Paupina há 13 anos. Ele não é, nem poderia ser, o mais velho morador do bairro. "A Paupina é mais antiga do que Fortaleza, do que Messejana. Era parte de Aquiraz, tem mais de 400 anos", gaba-se. Dom Beda confirma as informações. Nos documentos do mosteiro, consta que ali foi, no século XVI, um ponto de evangelização no Ceará. E da fé vem uma versão para o batismo do bairro. "Os índios não conseguiam pronunciar o nome do Padre Antônio Pinto. Falava Pai Pino, com o tempo virou Paupina", pondera o reverendo.

A Paupina fica no limite de Fortaleza, ao lado da Messejana. Ela é o limite, também, de uma cidade apartada. Até a década de 90, a cidade ignorava a região. "O pessoal perguntava onde você morava, você dizia Paupina e vinha logo alguém brincar: 'Onde?'. Ninguém sabia que existia", explica Marcondes. Parte da população do bairro se origina de ocupações urbanas. Basta caminhar um pouco e ver pequenos mutirões, na base de terrenos ocupados. Quando Marcondes comprou sua casa, não havia asfalto em nenhuma rua. Pelo seu envolvimento com os movimentos sociais, ele conhece muito bem a história recente da localidade.

Mesmo entusiasmado e bairrista, no melhor sentido do termo, ele não consegue esquecer as carências do local. Além da Topic 03, há apenas mais um ônibus que assiste o bairro. A linha, também chamada Paupina, demora cerca de 40 min. Lá, também não possui bancos, nem supermercados, nem lojas de móveis ou eletrodomésticos. Há apenas um posto de saúde.

"Muitos dos moradores, portanto, tinham ou têm vergonha de dizer que moram na Paupina e preferem escrever em seus endereços Messejana", explica Marcondes. Como opção de lazer, os moradores escolhem entre banhos - no fim de semana - na Lagoa da Paupina e alguns campos ou quadras de futebol espalhados pelo bairro. As necessidades são supridas principalmente na Messejana.

O nome Paupina popularizou-se nos últimos anos do século XX. A costureira Salete Queiroz, 59, vinda para o bairro nos esquemas de ocupação ainda na década de 70, acredita que com a implantação da Topic 03 e da Rádio Paupina FM, a localidade se impôs à cidade. Ela, que também participou da criação da rádio, não tem falsa modéstia. "Foi um sucesso. Ajudou também que os moradores tivessem orgulho da Paupina. O povo dizia assim: a Paupina é melhor do que os outros, porque até rádio própria a gente tem", saúda.

Extinta, por questões judiciais, em 2006, a Paupina FM 104,9 foi uma Rádio Comunitária que teve sintonia por oito anos e expandiu as fronteiras. Moradores de Maranguape e Eusébio cantaram juntos. Com uma programação lúdica e social, ela trazia atrações musicais do brega ao reggae, além de discussões mais sérias sobre problemas locais. "A gente andava pela rua e todo mundo comentava a rádio. Ainda hoje as pessoas perguntam se nós vamos voltar", diz Salete. A rádio foi uma semente no sentimento comunitário na região. A partir dela, além do orgulho de ser da Paupina, houve mais organização no local.

O empenho atual dos moradores está em garantir o funcionamento da feira semanal, iniciada há cinco meses. Numa média de 50 feirantes, vende-se de tudo. Do peixe fresco ao controle remoto da tevê, carro-chefe da banca do Elivandro, 28. Logo vizinho, vem a barraca do Evaldo, 28. Lá, as mercadorias custam um real: bacia de tangerina ou de goiaba, penca de banana, saco de maçã. A feira acontece às quartas-feiras. Traz também opção de confecção, pastel, bolo. A feira funciona como um ponto de encontro dos moradores e dos cachorros, livres das coleiras.

Como principal meio de comunicação, atualmente existe apenas a comunidade no Orkut, com 732 integrantes. O objetivo do dono é chegar aos mil. Ainda longe do sucesso da rádio. O diálogo virtual consegue mexer com a dinâmica dos que possuem computadores ou dos freqüentadores das 10 lan houses existentes. A enquete do momento no site é "O que você acha de uma TV On-Line na Paupina?". Por enquanto, 50% das respostas estão na opção "A Paupina precisa ser vista pelo mundo, gostei!". A TV On-line é um novo sonho de Marcondes, ex-integrante da rádio. Ele mesmo afirma que não curte pensar no passado, mas no Futuro. E pensar grande. Quem sabe, em breve, o mundo enxerga a Paupina. E os moradores trocarão os controles remotos comprados na feira, por mouses e teclados.


PERFIL

População: 18.499
Localização: Regional VI Tamanho: 837,50 hectares
Distância do Centro: 16,8 Km

Fonte: Jornal O Povo

FLORESTA - Floresta à vista

Henrique Araújo
especial para O POVO


Espremido entre uma grande fábrica de transformadores e a Lagoa do Urubu, o bairro floresta, na Secretaria Executiva Regional I, é pródigo em embaralhar as noções espaciais e geográficas de qualquer forasteiro

Havia um matagal onde foi construído o Conjunto Habitacional Floresta. Até hoje os animais habitam a região(Foto: Fco Fontenele) O Floresta é um bairro onde sagüis saltam dos galhos das árvores e se empoleiram nas cumeeiras das casas à procura de ovos de pardais. Em seguida, porque são muito pequenos e não aprenderam ainda a voltar pelo mesmo caminho que trilharam até ali, devem ser retirados do alto por meninotes que ontem mesmo estavam "pescando" camaleões às margens da lagoa do Urubu. No Floresta, policiais militares interrompem a ronda diária para dar um trato no cabelo no Salão de Beleza do Régis. Aberto das 8 ao meio-dia e das 14 às 20 horas, ele é o mais famoso gabinete da área. Nele, enquanto um PM embeleza-se, de frente para o espelho os demais espremem cravos e espinhas, conferem se o colete à prova de balas está mesmo rente ao peito ou as mangas da camisa preta em cujas costas lê-se "Força Tática" estão rigorosamente dobradas, expondo uma ou outra tatuagem.

No Floresta - que, na verdade, são dois: o de lá, do outro lado da lagoa do Urubu e o de cá -, o que resta de uma construção em alvenaria apelidada não por acaso de Muro de Berlim serve de anteparo a grupos de meninos que praticam pequenos delitos e depois se escondem no breu da noite, deixando os moradores em polvorosa. Lá, atendentes de supermercado e entregadores de farmácia se reúnem fora dos seus turnos de trabalho para jogar dama e, via TV a cabo, assistir ao desempenho das duplas femininas de vôlei de praia nas areias pequinesas. Nesse bairro, líderes comunitários atiram-se na frente dos ônibus de modo a forçá-los a cumprir o itinerário normal, esticado até a última casa do bloco G. Para eles, ainda que motoristas e cobradores temam os perigos do lugar, nenhum passageiro deve ser esquecido sob a sombra de alguma árvore.

Ainda no Floresta, todas as casas têm o mesmo número: 624, e as ruas, uma letra que vai de "A" até "G". Os apartamentinhos, por sua vez, têm apenas quatro opções de denominação: 1, 2, 11 e 12. Os dois primeiros números em baixo; os demais, em cima. Na mesma rua, portanto, há muitas moradas 1 ou 12. É plenamente possível que haja duas donas de casa chamadas Maria que residam no bloco E, casa 1. Pior para o carteiro, o entregador de gás ou alguém que displicentemente desça do ônibus Antônio Bezerra/Álvaro Weyne atrás da fábrica de transformadores e saia caminhando à toa pelas ruas.

Menos pela distribuição numérica das construções do bairro e mais por sua arquitetura, Francisco Manoel de Andrade, 43 anos, fiscal de trânsito e morador do Floresta, defende: "Isto aqui é como se fosse um condomínio fechado". As ruas de lá não têm propriamente nomes. "Você chama esta rua aqui de E, por exemplo, mas na verdade o bloco é que é E", desanuvia. No Floresta, as casas - sala, cozinha, banheiro e quarto apertados - pertencem a quadras. As quadras, a blocos. Batizados com as primeiras oito letras do alfabeto, os blocos distribuem-se paralelamente. São cortes transversais no quadrado formado pelas ruas Frei Odilon, Pedestre, Luiz Guimarães e uma última aparentemente sem nome. Segundo dados da Fundação de Desenvolvimento Habitacional de Fortaleza, a última rua não tem oficialmente denominação.

Não tem para a burocracia do município. Para Célio, espécie de Cristóvão Colombo do Floresta, a rua bem que podia se chamar "Loura". "Seria Rua da Loura", gargalha. A musa inspiradora do mecânico, que também atende pela alcunha de Louro - aos 51 anos, Célio tem cabelos claros esfiapados e olhos azuis - repousa dentro de casa, no quartinho que dá para o amplo quintal à beira da lagoa. Ela tem quase 10 anos, fios dourados caindo sobre os olhos saídos aos do pai. É a cria mais nova do casal Louro & Cléa, que divide os metros quadrados domésticos com Chico & Família.

Chico é um sagüi heterodoxo. Chegou à casa de Louro sem ser convidado, mas logo ganhou a confiança de todos. Após ter-se fixado e criado hábitos pelos quais ficou famoso, tratou de ganhar o mundo. "Ele ficou uns três ou quatro dias fora", relembra o mecânico. Quando voltou, trazia na algibeira uma esposa. A família de Louro assustou-se com a proeza do bichinho. Cheia de manha, a mulher de Chico também foi aceita no número 1 do bloco E. Ocorre que, semanas depois, Chico e cônjuge misteriosamente desaparecem. Nem maior, nem menor: o susto de Louro foi semelhante ao da primeira deserção do sagüi, quando ainda era solteiro. Seu novo retorno, porém, seria marcado por estupefação generalizada. "Ele chegou trazendo a mulher e um filho." De lá para cá, Chico tem se aquietado.

Louro também é o cartão de memória da comunidade. Desfia histórias com a mesma facilidade com que Chico dá escapadinhas. Ele conta: foi o primeiro morador a chegar ao Floresta. "Quando recebi as chaves, estava na Regional I consertando um carro." Fez a mudança no lombo de um Fusca, que vendeu para comprar o Fiat Elba 89. Ele narra: à falta de posto de saúde que atenda os moradores do lado de cá do Urubu, o galego pode ser surpreendido no meio da noite por alguma urgência. Num salto, põe-se de pé, veste-se ligeiro, corre até a garagem e gira a chave do carro. "Este carro aqui já carregou muito baleado, esfaqueado." Noutro momento, porém, Louro parece mesmo remexer as camadas mais fundas da identidade dos moradores do Floresta. Convidado a historiar, não resiste. Diz certeiro: "Aqui é Floresta porque só tinha mato". Pronto, acabou-se.


PERFIL
Localização: O conjunto habitacional Floresta fica entre os bairros Álvaro Weyne.
População: 28 mil habitantes.
Regional: SER I

Fonte: Jornal O Povo

Um canal de divulgação da politica, esporte, cultura e história do Ceará e do Nordeste.

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