domingo, 25 de outubro de 2009

Dois autores, uma só fome



Que relações podem se estabelecer entre as obras de Patativa do Assaré e Josué de Castro? abaixo, o jornalista e pesquisador Luis Celestino Jr. Esclarece essa proximidade poético-acadêmica

``Nunca diga nordestino
que Deus lhe deu um destino
causador do padecer
Nunca diga que é o pecado
que lhe deixa fracassado
sem condição de viver``
(Nordestino sim, nordestinado não, de Patativa do Assaré)

Falar de seca e suas representações no âmbito da produção cultural é tarefa difícil pela quantidade de produções nordestinas seja na literatura, nas artes plásticas, na fotografia ou no teatro. Rodolfo Teófilo, por exemplo, publicou no século XIX um clássico do naturalismo brasileiro: A Fome. Romance de mais de 500 páginas é marcado por cenas fortes em que o ser humano age instintivamente na luta para saciar a mais primitiva das suas necessidades. Não seria injusto apontar a obra como precursora da antropofagia, tão cultuada pelos modernistas brasileiros mais de trinta anos depois (a obra de Teófilo é de 1890).

Nenhum artista, no entanto, teve a obra tão marcada pela seca e suas consequências quanto Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré. A condição social foi algo marcante na obra do poeta. O êxodo rural (Triste partida), a reforma agrária (Reforma agrária), o drama dos menores abandonados (Menino de rua) e outros temas marcaram o seu vasto trabalho. A imagem de simples agricultor engajado em causas sociais, consciente de sua condição dentro da sociedade, e sempre denunciando as mazelas do Nordeste alimentaram a imagem de um gênio inato. No prefácio do já clássico Cante lá que eu canto cá, de 1978, Plácido Cidade Nuvens o define como ``poeta social``: ``A realidade local emerge com toda sua vitalidade na poesia de Patativa. Não apenas na candura lírica do seu telurismo acendrado. Mas numa configuração social bem delineada``.

Latente a todos os temas sociais aparece a ``fome``. Algo de difícil definição e conceituação, fome é algo ``que se sente`` e sentimento é algo que, quando retratado pela ciência, sempre causa controvérsias, para muitos sendo algo impenetrável. Quando se fala em construção de imagens e de representações, dado esse caráter ``sentimental``, a fome é quase sempre algo abstrato. A imagem-clichê da criança africana de cabeça grande cercada por moscas e suja de grãos de arroz, de tão repetida, pouco comunica, apesar de ser chocante. Serve para a imagem da fome no Nordeste?

A obra de Patativa remete a uma série de imagens e representações dada a sua vasta produção. Na antologia poética publicada em 2001 pela Fundação Demócrito Rocha, Gilmar de Carvalho, o organizador, já alertava para o fato de que a obra do poeta é ``um único e grande livro onde cada poema é um canto, a sua rapsódia, ao mesmo tempo pessoal e universal``.

Além disso, seu trabalho tem proximidade com a obra de Josué de Castro, com destaque para o clássico Geografia da Fome. Em Patativa, vemos essa aproximação dos conceitos de fome apresentados pelo médico pernambucano. Outro parentesco reside em Norbert Elias e sua obra Mozart: Sociologia de um gênio. Nesse sentido, a obra de Patativa é melhor compreendida quando afastamos a ideia de algo ``interior`` que se processa de forma autônoma num ``gênio`` e olhamos para um homem extremamente envolvido com seu meio.

Fome social
A seca é a grande responsável por boa parte da diáspora do sertão nordestino durante todo o século XX. Fazendo referências a imagens construídas em uma série de obras (O Quinze, de Rachel de Queiroz; A Paraíba e seus problemas, de José Américo de Almeida; O Nordeste, de Gilberto Freyre; História das secas no Ceará, de Rodolfo Teófilo), além dos resultados de seus inquéritos sociais, Josué de Castro apresenta uma imagem do êxodo fruto da fome: ``Assim esgotadas as suas esperanças e reservas alimentares de toda ordem, iniciam os sertanejos a retirada, despejados do sertão pelo flagelo implacável. Sem água e sem alimentos, começa o terrível êxodo.

Na tentativa de associação com a obra de Castro, vem à mente a célebre obra Triste Partida (``Setembro passou com oitubro e novembro / Já tamo em dezembro / meu Deus que há de nós? Assim fala o pobre do seco nordeste / com medo da peste / da fome feroz``), mas podemos acrescentar outras, como Nordestino sim, nordestinado não, em que o poeta rejeita a ideia de um castigo divino ou destino pré-traçado que condena o nordestino à miséria. No poema Emigrante Nordestino, esse diálogo é acentuado: ``Quando há inverno abundante / No meu Nordeste querido, / Fica o pobre em um instante / Do sofrimento esquecido / Tudo é graça, paz e riso / Reina um verde paraíso / Por vale, serra e sertão, / Porém não havendo inverno, / Reina um verdadeiro inferno / De dor e de confusão``.

As imagens da fome em Patativa constituem o mosaico de uma sensibilidade que se preocupou com outros temas sociais como a miséria de uma forma geral, o êxodo rural, os menores abandonados, a seca, a reforma agrária etc. A fome é imagem forte na sua obra (``Mamãe, meus brinquedo! / Meu pé de fulô!``), mas não castigo divino e sim fruto de condições histórico-econômico-sociais.

>> LUIS CELESTINO JR. é jornalista, mestre em comunicação pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e autor do livro A Fome na imprensa .

Fonte: Jornal O Povo

Daquilo de que somos feitos


Titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Durval Muniz de Albuquerque Jr. É um conhecedor profundo da cultura nordestina. A seguir, ele reafirma a centralidade das secas para unidade regional. No entanto, projeta sinais de mudança

Na peleja dos sentidos, a disputa entre as intempéries da seca e o campo da cultura produziu discursos e imagens múltiplas. Isoladas, elas cruzam os tempos, fabulam um passado. Juntas, amiúdam o século XX, pondo em parelha nomes como Rachel, Gonzaga, Suassuna, Glauber... Produção simbólica recente, como lembra o historiador potiguar Durval Muniz de Albuquerque Jr., o Nordeste venceu a rubrica meramente geográfica na medida em que o enfrentamento das estiagens se impôs de forma mais decisiva. Nesse percurso, a provocação política teve peso determinante.

Vitimadas em proporções mais agravantes, as elites locais & em derrocada, diante da centralização de RJ-MG-SP & se reorganizaram e passaram a pressionar o Estado por novos espaços de poder. Assim, segundo o autor de A Invenção do Nordeste, emergiram estruturas como o centenário Dnocs. Em entrevista por telefone, o professor Durval demarcou as origens culturais do Nordeste imaginário, creditando à parceria do pernambucano Gilberto Freyre e do cearense Djacir Menezes, e foi além.

Para ele, o domínio da seca se foi. ``Nós estamos há oito anos sem recorrer às velhas frentes de emergência, sem ver as cidades sendo invadidas por retirantes famintos, mas ninguém fala. Hoje, as políticas sociais compensatórias conseguem produzir uma estabilidade social que independe de chuvas``, argumenta. Ciente das limitações das políticas sociais, o professor é crítico das ideias engessadas sobre a cultura nordestina e convida à formulação de novos conceitos.

O POVO - Em Elegia para uma Re(li)gião, Francisco Oliveira lembra que, no Brasil Colônia, esse recorte atual do Nordeste era totalmente esfacelado. Diante disso, seria possível pensar essa dimensão regional contemporânea como uma ``tradição inventada``, no sentido que fala Eric Hobsbawm?
Durval Muniz de Albuquerque Jr. & O Nordeste só existe como conceito a partir do século XX. E, como toda construção discursiva, a legitimação se dá a partir da invenção de um passado. Isso até que o presente acabe por apagar essa invenção, passando a tê-la como natural. Assim, perde-se a consciência dessa criação. Hoje, a maioria das pessoas situa o Nordeste no contexto do período colonial, por exemplo. Mas isso é um completo absurdo. Ali, não há nenhuma referência regional com esse sentido atual. A divisão original do Brasil em Capitanias Hereditárias, vale lembrar, separava o território numa perspectiva Norte-Sul. O Nordeste é uma definição muito recente.

OP - Em A Invenção do Nordeste, o senhor atribui ao fenômeno da seca e às políticas de enfrentamento dela o fator decisivo para a coesão dessa estrutura geográfica que se conhece hoje como Nordeste. Afinal, somos filhos da seca?
Durval & Com certeza. Quem criam os espaços são os homens, as geografias são criações históricas, culturais. A consciência regional nordestina vai ter como motivação básica de sua emergência a ocorrência de secas periódicas. Sobretudo, na segunda metade do século XIX, que é quando essas secas começam a vitimar de forma mais expressiva as elites da região, então já em processo de declínio. Enquanto as secas mataram apenas pobres, escravos e homens livres, elas nunca foram um problema, numa foram motivo de preocupação nacional. O problema da seca no Brasil é inventado na chamada grande seca de 1877-1879. De grande, essa seca não tem nada. É exatamente uma repetição daquilo que comumente acontece na região por implicações climáticas. Ela é elevada a categoria de grande seca, porém, porque atinge, pela primeira vez, setores das elites, das camadas dominantes. A seca de 1777, por exemplo, proporcionalmente, teve uma dimensão muito maior. Ela vitimou 25% da população que vivia naquele espaço, enquanto 100 anos depois o índice foi de 18%. A diferença da seca de 1877 está na sua visibilidade. Ela afeta de modo mais decisivo a produção cultural. É daí que temos os primeiros registros fotográficos, por conta da cobertura dos grandes jornais. É daí, também, que surgem as primeiras referências literárias. José do Patrocínio, por exemplo, acompanha a seca de 1877 a mando de um jornal carioca e depois escreve Os Retirantes, que é de 1889, nosso primeiro romance sobre a temática das secas. Essa emergência das secas vai, paulatinamente, mostrando à elite hoje chamada de regional, nordestina, que poderia ser um fator agregador e com grande potencial de capitação de recursos. O argumento da seca, para as elites nordestinas, se mostra algo poderoso, sem nenhum contraponto nas demais regiões do País. Na constituição de 1891, a primeira republicana, as bancadas do antigo Norte já estavam unidas e conseguiram um inciso que garantia às secas recursos adicionais e emergenciais por parte da União.

OP - Por que a burocracia estatal da República tem esse peso fundador? Quando dom Pedro II dizia ``venderei até o último brilhante da minha coroa para acabar com a seca``, ele estava falando exatamente de que?
Durval & As instituições de combate às secas vão surgir justamente da mobilização das elites. Com o avanço da produção cafeeira, São Paulo e Minas Gerais assumem o centro do poder e as províncias do Norte precisavam constituir um novo espaço de legitimação. A força inicial dessas instituições de combate às secas vem do discurso das elites, em pleno declínio econômico, que se alojaram ali. A palavra Nordeste, por exemplo, surge pela primeira vez quando Delfim Moreira propõe as primeiras modificações para o Iocs, e o transforma em Ifocs, em 1919. Nordeste, a princípio, seria o recorte da área de atuação do Ifocs: o chamado -Polígono das Secas-, entre Alagoas e o Ceará. Essa demarcação geográfica assume uma identidade regional posteriormente. D. Pedro não falava de Nordeste quando falava de seca, simplesmente porque o Nordeste não existia naquele momento. O discurso dele é semelhante ao de Médici na década de 1970. Fala-se, apenas, de acabar a dor da seca com grandes montantes de recursos, como se isso fosse possível. Dinheiro nenhum acaba a seca, o que é preciso é possibilitar o convívio das populações com as variações climáticas. As falas de dom Pedro e Médici são pontuais, enfocam o mero socorro emergencial. A seca de 1877, por exemplo, é a primeira que tem socorros públicos. Até ali, tudo era de iniciativa privada e fortemente centrado no domínio da Igreja. O marco de 1877 é a intervenção do Estado. Então, não só nascia a seca oficial como a corrupção. As Comissões de Socorro de 1877-1879 são acusadas de desviar recursos equivalentes a 25 anos de arrecadação de todas as chamadas províncias do Norte. Daí, ser possível afirmar que o conceito original de Nordeste é algo atrelado ao fenômeno das secas e a prática da corrupção.

OP - Se é possível apontar a seca como nosso mote primeiro, quem seriam nossos primeiros criadores no campo da cultura?
Durval & A certidão de nascimento cultural da região, para mim, é a publicação de Nordeste, pelo Gilberto Freyre, em 1937. Embora ele diga ali que o Nordeste dele é outro: não o das secas, mas, sim, o das águas. O primeiro movimento organizado que utiliza o conceito de Nordeste para forjar uma identidade é o Centro Regionalista e Tradicionalista do Recife, fundado exatamente pelo Gilberto Freyre em 1924. A ata de fundação diz claramente que o desejo daquele grupo era militar, política e culturalmente em nome do Nordeste. É ali que começa a se falar de uma cultura própria do Nordeste, apartada do restante do País. Recife se via como centro, como capital dessa nova região. É assim que Gilberto nos definia. O Nordeste de Gilberto é aquilo que gira em torno do Recife: é o Nordeste da cana-de-açúcar. Mas o Gilberto tanto sabia que o Nordeste era maior que isso, que publica, também em 1937, pela mesma coleção de Nordeste, o livro O outro Nordeste, do cearense Djacir Menezes. Isso é muito significativo. Aliás, os intelectuais cearenses são decisivos para o pensamento do Nordeste. Não bastassem as contribuições do próprio Djacir, é impossível não citar Capistrano de Abreu, que é o primeiro historiador a narrar o Brasil a partir do sertão. O Nordeste das secas foi construído pelos cearenses. O Ceará foi, durante muito tempo, sinônimo de seca no Brasil. Há vários registros em que se fala não de seca do Norte nem do Nordeste, mas de seca do Ceará.

OP - Seria possível identificar novos regionalismos? Em que medida nós temos, culturalmente, conseguido subverter o estigma da seca?
Durval & O Nordeste pedinte, miserável, ainda é de grande valia para parte das elites regionais. Mas há mudanças significativas. Recentemente, um grande partido político, que concentra alguns expoentes dessas elites, saiu tão envergonhado das eleições que optou por mudar de nome. A mudança, repito, não acontece inicialmente no plano da cultura. Veja que Caetano reivindicava uma urbanidade que ainda hoje não conquistamos, muito embora nós sejamos hoje uma população majoritariamente urbana. Ainda existe um enorme complexo de inferioridade e isso se reflete na cultura. O Nordeste ainda convive com a cultura da pobreza. Mesmo assim, vejo hoje um novo Nordeste. O fluxo de pessoas que migram para o Nordeste atualmente é impressionante e isso, para mim, é um sinal de mudança, uma novidade. Nós, tradicionalmente, fomos um povo que partiu e hoje nos vemos numa condição de recepcionar, de receber migrantes no nosso convívio. Esses fenômenos parecem marginais, mas estão paulatinamente promovendo uma mudança cultural. Senão para o Nordeste, para o Brasil, como nação. Os gaúchos que vão para o Ceará, trabalhar nas fábricas de calçado, mudam a imagem do Ceará no Rio Grande do Sul, por exemplo. Há, evidentemente, um regionalismo xenófobo, reacionário, mas eu acredito nas mudanças.

OP - Tendo em vista que grande parte das metrópoles nordestinas se firmaram com o processo ainda recorrente de migração das populações das pequenas localidades, tendo a seca como um fator determinante, faz sentido procurar descolar as produções tidas como mais cosmopolitas, como o Mangue Beat pernambucano, dessa referência primeira, original? As palafitas de Chico Science não seriam as mesmas dos Severinos de João Cabral?
Durval & Acredito ser urgente ressignificar a própria seca. Primeiro, as pessoas nunca fugiram das secas. Elas fugiram, sim, da precariedade das condições de vida que eram agravadas nos momentos de seca. Muito mais excludente que a seca no Nordeste foi a concentração da terra e dos meios de produção. As pessoas fugiam para a cidade porque o campo não avançava nas condições sociais e de trabalho. Hoje, o que muda é o cenário econômico-social e político, não, a seca. Continua havendo anos em que se chove mais e outros em que se chove menos. Agora, claro, hoje há uma sensibilidade maior em relação às questões climáticas, por conta do aquecimento global. Mas a seca, enquanto fenômeno, é a mesma de sempre. Simplesmente, não chove ou a chuva é escassa. Prefiro ver o Nordeste não como algo parado no tempo, um território de beatos e cangaceiros, mas algo que pode ser atualizado, que está em constante movimento. As palafitas do Chico Science e do João Cabral que você cita, por exemplo, são e não são as mesmas. A significação é outra. Em Cabral, a vida é o máximo que se poderia tirar dali. Em Chico, a cultura da pobreza é superada. Das palafitas do Mangue Beat, não é só a vida, mesmo severina, que é capaz de brotar, mas, sim, a criação, a invenção.

OP - Em termos políticos, a seca ainda seria o que move o Nordeste? A força simbólica do presidente Lula, por exemplo, reverbera no fato de ele mesmo ser um filho das secas, um imigrante nordestino?
Durval & Lula se caracteriza, sobretudo, por romper com a política e o discurso da seca. Lembro de uma fala dele, num palanque em Aracaju, que causou um incômodo imenso. Veja: num comício de campanha, ele disse ao povo que era impossível acabar, solucionar, o problema das secas. Lembro de ele ter comparado a seca nordestina com as catástrofes da neve na Europa e nos EUA. Ninguém acaba com a neve, mas, sim, cria condições de enfrentamento e convívio com aquela realidade. Eu vejo as políticas públicas do Governo Lula assumindo essa ideia. Não há mais a falácia de solucionar as secas. Fala-se hoje em convívio com a seca, inclusive quando se defende, por exemplo, a transposição do São Francisco. Isso não quer dizer que os interesses tradicionais não existam e co-existam. O Ciro Gomes, quando ministro da Integração Nacional, defendia a transposição numa lógica totalmente diferente da do presidente Lula. Para o Ciro, a transposição acaba a seca. Para o Lula, a transposição minimiza os efeitos dela. Já pensou, por exemplo, como seria o abastecimento de água no interior do Nordeste sem uma intervenção dessa natureza? Num período de seca, Mossoró, Campina Grande e Juazeiro do Norte, grandes centros urbanos, vão ser abastecidos com carros-pipa? O problema não é a seca pela seca, mas, sim, o direito e o acesso à água.

OP - Por fim, se a seca é um fator que autoriza a emergência e mantém a identidade nordestina por tanto tempo, seria possível pensar num estágio posterior, um pós-seca? Que Nordeste seria possível a partir daí e a quem esse Nordeste vindouro interessa e desinteressa?
Durval & Outros discursos serão construídos em torno do Nordeste para ocupar essa centralidade da seca. As identidades nascem e morrem ao longo da história na medida em que se constroem novos discursos. Veja, o discurso do turismo já se sobrepõe ao discurso da seca em boa parte do Nordeste. Hoje, vejo uma burguesia urbana e empresarial interessada fortemente em romper com o estigma da seca, ao mesmo tempo em que há toda uma tradição de elites interessada em mantê-la. O conflito é evidente e acirrado. Afinal, são as elites que veiculam e renovam as imagens. Agora, claro, as camadas populares também se movimentam nessas mudanças. É daí que se fortalece, por exemplo, o discurso de convivência com a seca incorporado por muitas ações do Governo do presidente Lula. Para mim, a seca perde cada vez mais espaço como um elemento definidor do Nordeste.

Fonte: Jornal O Povo

domingo, 30 de agosto de 2009

Memória das estradas de ferro



Estação ferroviária, em Fortaleza, foi a pioneira no Estado. Depoimentos são gravados no cenário do local

Em fase de finalização, documentário resgata história das estradas de ferro no Ceará, com personagens da época

Fortaleza. Mesmo tendo sido praticamente desativados nos últimos anos, os trens ainda causam fascínio. Tanto para aqueles que viajaram ou trabalharam na ferrovia quanto para quem só vê os trens cruzando o sertão cearense para levar carga. Apesar de instalada tardiamente no Ceará, no final do século XIX, as estradas de ferro tiveram um impacto importante na vida econômica e social do Estado. Cidades nasceram e cresceram na beira das ferrovias. Os trens encurtavam distâncias e era por meio deles que chegavam mercadorias, artigos da moda, correspondência, revistas e jornais para o Interior.

Toda esta história é contada por meio do vídeo-documentário "O Último Apito", que está em fase de finalização. Produzido pelo documentarista Aderbal Simões Nogueira, a produção busca recontar a história das ferrovias cearenses, do apogeu à desarticulação do transporte ferroviário em favor das estradas de rodagem, que hoje concentram boa parte do transporte de carga e de passageiros.

"A história do trem no Ceará é muito bonita para cair no esquecimento. Diferente do que ocorreu em outros países, as linhas de trem que haviam desbravado o País hoje estão praticamente desativadas. Então quisemos fazer um documentário mostrando a história do trem no Ceará, com depoimentos de pessoas que trabalharam na ferrovia e a situação das linhas nos dias de hoje", conta.

Conta própria
Fruto de um trabalho de cinco anos do documentarista, que é dono de uma produtora de vídeo, todo o trabalho de produção e captação foi feito por conta própria. As filmagens levaram a incursões por 40 municípios do Interior cearense e a gravação de cerca de 100 depoimentos de ferroviários e pessoas que, um dia, souberam o que era viajar de trem.

"Agora estamos correndo atrás de apoio para a finalização do documentário. Nossa idéia é que, depois de pronto, o filme seja exibido nas estações ferroviárias de 43 municípios cearenses, para que a população desses locais conheçam melhor a própria história", explica Aderbal Nogueira. A expectativa é que, caso consigam o apoio necessário, a estréia de "O Último Apito" ocorra no início do ano que vem. Segundo ele, os depoimentos são carregados por muita nostalgia. Aderbal conta que, durante as filmagens, muitos dos entrevistados se emocionaram ao relembrar passagens da vida marcadas pelos trilhos. "Tentamos mostrar o quanto o trem fazia parte da vida do povo e o quanto, hoje, ele faz falta".

Neto de um ex-ferroviário, Aderbal Nogueira contou com a ajuda especial do pesquisador José Hamilton Pereira, que era colega de trabalho do avô. Engenheiro aposentado da antiga Rede Ferroviária Federal S. A. (RFFSA), ele é um dos autores do livro "Estradas de Ferro no Ceará". A obra serviu de base para a realização do vídeo-documentário no Estado.

"Infelizmente as linhas de ferro foram abandonadas. A RFFSA aglutinava todas as linhas, mas com o tempo não houve investimento e a rede foi privatizada. Hoje o trem só serve para transporte de carga. É uma pena", comenta o pesquisador, apostando no sucesso do vídeo como resgate histórico.

FIQUE POR DENTRO
Ex-funcionários da RFFSA testemunharam era de ouro

Escrito por José Hamilton Pereira e Francisco de Assis Lima, "Estradas de Ferro do Ceará" começou a ser pesquisado há seis anos. Ex-funcionários da Rede Ferroviária Federal S. A. (RFFSA), eles testemunharam a era de ouro e a decadência das linhas de ferro. "Eu herdei muitas fotos do meu pai, que também era ferroviário. Então pesquisamos jornais da época, falamos com pessoas que trabalharam nas estradas de ferro, pegando a maior quantidade de informações possíveis para compor a obra, que busca resgatar essa história que estava sob o risco de ser esquecida", conta José Hamilton. O livro, lançado em 2008 e já em sua segunda edição, busca preencher uma importante lacuna para os pesquisadores quando o assunto é a história da rede ferroviária cearense. Além do livro, os pesquisadores estão trabalhando na reativação do Museu Ferroviário. O acervo encontra-se, atualmente, num prédio ao lado da Estação João Felipe, no Centro, em Fortaleza.

Abandono

"A história do trem no Ceará é muito bonita para cair no esquecimento. Não queremos isto"

Aderbal Simões Nogueira
Documentarista

"Não houve investimento e a rede ferroviária foi privatizada no País. É uma pena"

José Hamilton Pereira
Pesquisador

Mais informações

"O Último Apito"
Aderbal Simões Nogueira
Documentarista
(85)3224.7090

Fonte: Jornal Diário do Nordeste

CULTURA POPULAR - Reisado de máscaras é preservado em Potengi


Agricultores do sítio Sassaré realizam há 22 anos a arte do reisado utilizando máscaras ou caretas feitas com couro e madeira. O tipo de arte é uma raridade no Brasil (Foto: ELIZÂNGELA SANTOS)


Mestre Antônio Luiz de Sousa mostra as máscaras preservadas pelo reisado de Potengi. Por ele, tradição está mantida (Foto: ELIZÂNGELA SANTOS)

Um reisado que usa máscaras de couro e madeira está sendo preservado no município caririense de Potengi

Potengi. Nem bem o dia inicia e a luz começa a clarear, os integrantes do Reisado do Sassaré, sítio a 3km de Potengi, estão a juntar as roupas e fantasias dos personagens de um dos reisados mais raros do Brasil. É o único da região do Cariri com a característica do uso de máscaras ou caretas. Confeccionada em madeira e couro, as máscaras são preservadas desde os antepassados e resistem ao tempo. É uma prova de amor à cultura e à preservação de uma arte que não deve morrer, mesmo diante da ausência de reconhecimento no Estado.

Mestre Antônio Luiz de Sousa, desde pequeno, deixava muitas vezes de dançar para escutar os chamamentos do mestre Raimundo Maximiniano. As músicas soavam ao seu ouvido como um aviso do destino. O menino só não aprendeu a fazer as máscaras. Hoje, aos 51 anos, tem a preocupação constante de como fará para dar continuidade a um trabalho onde os próprios filhos adolescentes não se sentem à vontade para dançar na frente dos outros. Sentem vergonha de uma arte que atravessou décadas e, segundo o mestre, desde o seu bisavô tem notícia do envolvimento da família com o que ele chama de brincadeira. A avó já trazia a notícia nos anos 30. Dona Neusa Luzia de Sousa contava as histórias de reisado que sempre encantaram o neto Antônio.

São seis agricultores do Sítio Sassaré, mais os músicos e os personagens. Ao todo, são 12 personagens, que eles conseguem formar. Mas o formato anterior seriam 12 caretas, além dos outros integrantes. Essa tem sido a luta do diretor de Cultura de Potengi, Jefferson Gonçalves de Lima, conhecido por Bob, como forma de resgatar e fortalecer o grupo, que poderá estar fadado a desaparecer caso não haja apoio para continuidade e valorização.

Segundo Jefferson, que junto com o trabalho de resgate vem realizando pesquisas, há outros personagens que precisam ser preservados. A tradição nasceu no município, na comunidade do Sítio Rosário. Lá se realizavam grandes espetáculos aos olhos dos visitantes até de outras cidades da região. Junto com o grupo, a lapinha da comunidade também chamava a atenção do público.

Encontro de mestres
A integração do grupo do Sassaré com os antigos brincantes da comunidade do Rosário tem sido um dos trabalhos de Jefferson. Ele destaca a necessidade de promover os encontros do mestre Antônio com os demais mestres da região. O diretor cita que personagens como Jaraguá, Guriabá e a Margarida estão ausentes da dança dos Caretas do Sassaré, além dos caboclinhos. "É preciso fazer esse resgate e incluir mais brincantes no grupo, para completar a dança, que representa muito para a cultura local e a região", diz ele. Brincantes como Totonho e Massau, antigos integrantes de outros reisados, têm intenção de retornar para o grupo dos caretas de Sassaré.

Na pequena casa do mestre Antônio Luiz, que há 22 anos conduz o grupo, a sala está cheia de caixas. O violeiro, que mora perto e tem um papel importante nas apresentações, afina o instrumento. Seu Francisco José de Amorim, um dos mais antigos na brincadeira, junto com o mestre, também tem a preocupação de juntar as roupas e incrementar os chapéus. Até para comprar os papéis coloridos para enfeitar as indumentárias foi preciso buscar ajuda da comunidade. Seu Chico lamenta a falta de valorização do grupo na própria cidade em que moram, bem como o reconhecimento da população.

Jefferson chegou à diretoria de Cultura da cidade e um dos pedidos foi para que iniciasse um trabalho de resgate dos Caretas, mas esse trabalho vem de mais longe. Ele afirma que, ao integrar a banda dos Ferréros, de Potengi, decidiu incorporar um pouco da cultura local e o Reisado dos Caretas é presença constante tanto na música, com um resgate da cantorias do grupo, como também a própria dança. E leva o mestre para os palcos por onde se apresenta.

A falta de reconhecimento da população local entristece o grupo, que não deixa de empunhar a bandeira da necessidade de dar continuidade aos trabalhos. Os ensaios acontecem na associação da própria comunidade. Foi melhor para eles, que antes tomavam conta dos terreiros com as danças. As roupas estragavam mais rápido, porque bolavam no chão e a poeira tomava de conta. Há quatro anos estão com as mesmas roupas. A dos ensaios são as mais estragadas. As camisas azuis estão desbotadas, mas o diretor de Cultura garante que já estão sendo providenciadas novas roupas e sem a denominação do bumba-meu-boi, nas costas, como está no uniforme que atualmente o grupo usa. Jefferson diz ser consciente da necessidade de um trabalho de fortalecimento e divulgação do grupo. Ele diz que por conta dessas deficiências, o dia tradicional de apresentação do Reisado dos Caretas do Sassaré, em 6 de janeiro, Dia de Reis, deixou de acontecer no ano de 2004 e por pouco não houve no ano seguinte.

O grupo está concorrendo ao Prêmio Cultura Popular, do Ministério da Cultura. Mestre Antônio ainda não foi contemplado no Ceará como mestre da Cultura e lamenta ter perdido por alguns pontos. Seria de grande importância o complemento para auxiliar o trabalho. Em casa, dona Raimunda Rosa, esposa de mestre Antônio, acompanha todo o trabalho de reunir o material para a viagem.

A apresentação mais distante que aconteceu do grupo foi em Fortaleza. Os passos da dança foram um pouco prejudicados, por terem colocado um tapete no chão, mas conseguiram assim mesmo levar a apresentação até o fim. Dona Rosa se diverte e ao mesmo tempo atende a todos com o cafezinho. Na casa de três cômodos, as fantasias ficam na armadas de varas por cima das paredes. O boi, a velha Quitéria e o velho Bacurau, urubu, ema, entre outros personagens são chamados pelos acordes da viola a invadir o terreiro. Entra o mestre a chamar: "Meu boi bonito, meu boi estrela, touro do gado...".

RECONHECIMENTO AUSENTE
Artistas lamentam falta de público

Potengi Os caretas começam a se reunir para uma de suas apresentações no início da noite, em Juazeiro do Norte. Parece até um dia de festa. E é festa mesmo. O transporte vem pegar o pessoal e várias caixas são colocadas no terreiro. A preocupação de mestre Antônio Luiz é se vai dar para levar tudo e todo mundo. Mas desde cedo que tudo está sendo preparado. Seu Francisco José Amorim está dando o retoque final nos chapéus. As tiras de papel coloridas são coladas com cuidado nos chapéus em forma de cone. As máscaras são preparadas. Levam até umas miniaturas para vender. Mas, para tristeza de seu Chico, o público que eles esperavam não compareceu.

Às 18h30, marcada a apresentação no Centro Cultural Banco do Nordeste, e umas poucas pessoas perdidas entre as cadeiras da platéia. "Quase não veio ninguém", diz seu Chico, desapontado. A ausência de público pela falta de divulgação condizente com o valor dos grupos é uma punhalada no coração do artista. E para quem acha que essa violência fica apenas no cenário mais sofisticado, o mestre Antônio Luiz reclama da falta de consideração e reconhecimento do público de sua própria terra, Potengi. "Chegamos a ser chutados nas ruas da cidade durante a nossa apresentação".

"Chegamos a nos apresentar uma vez e deram, já à tarde, um copo d´água. O pessoal tava já desmaiando de fome", conta. Essa tem sido uma prática comum para as apresentações com um cachê irrisório, de fazer vergonha, e depois é servido um lanche. Pouco, para quem se contenta em levar a alegria e a arte regional.

O diretor de Cultura, Jefferson Gonçalves, afirma que vem sendo feito um trabalho educativo com crianças e jovens nas escolas locais. O mestre Antônio tem levado às unidades de ensino a sua experiência de brincante e mostrado o valor de preservar a cultura arraigada de seus antepassados. Essa é uma alternativa para se começar a perceber o que poderia ser um símbolo da cultura do município, mais valorizado.

E essa valorização poderá começar a chegar dentro das casas dos componentes do reisado do Sassaré. Os pequenos, filhos dos agricultores, poderão não mais sentir vergonha de "mungangar". Nos ensaios do grupo, na Associação, os adolescentes param de ensaiar quando a comunidade vai assistir.

Mais informações

Prefeitura Municipal de Potengi
Diretoria de Cultura
Cariri, (88) 3538.1225.

Fonte: Jornal Diário do Nordeste

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Um espírito livre



Educador, poeta e espírito livre: hoje, 21 de maio, comemora-se o centenário do poeta Filgueiras Lima, um arquiteto do humanismo e poeta das coisas da terra o povo

Se Antônio tinha uma dúvida de português, procurava imediatamente o pai, que, interrompendo as leituras costumeiras, folheava os quatro ou cinco dicionários à mão. Lá fora, corria o dia em Lavras da Mangabeira, no interior do Ceará. Vez em quando, um vento frio vinha do rio Salgado. Na casinha da família, o pai colhia de cada volume o significado da palavra procurada. Queria que o menino descobrisse: havia nuances. Demorada, a operação fatigava o caçula do professor e poeta Filgueiras Lima, cujo centenário é comemorado hoje na escola que, ao lado de Paulo Sarasate, ajudou a fundar em 1938. Por telefone, Antonio, hoje com 60 anos, relembra os menores gestos do pai. Fala da sala da diretoria do colégio Lourenço Filho. Ali, comanda o empreendimento que foi a menina dos olhos de Filgueiras Lima.

“Vamos comemorar o centenário do poeta realizando o que ele sempre fazia: uma eucaristia com os alunos da escola”, adianta Antônio Filgueiras Lima Filho. Porque educação e poesia sempre formaram um par ordenado harmônico na vida de Filgueiras Lima. No livro Ensina como quem reza - Vida e tempo de Filgueiras Lima, biografia assinada por Juarez Leitão disponível no site que trata da obra do poeta, lê-se: “Havia entre o poeta e o professor a mais perfeita compatibilidade e, ao que parece, mais do que compatíveis, a poesia e o ensino se fizeram em sua vida reciprocamente necessários. Não poderíamos ter o poeta sem o compromisso humano do Educador, a repartir seu conhecimento, suas descobertas, sua filosofia e suas crenças com outros construtores do mundo, a juventude vigorosa que deveria continuar a compor o tempo, a vida e o país”. Foi assim desde o início. Mesmo antes da publicação de Festa de ritmos (1932).

Mesmo antes de ocupar a função de Inspetor Regional do Ensino, ainda em 1927. Para o escritor e professor Dimas Macedo, Filgueiras Lima “foi um dos grandes poetas do modernismo do Ceará”. Se antes dedicara-se de corpo e alma ao manuseio do soneto tipicamente parnasiano, com os ventos de mudança soprados pela Semana de 1922, o poeta cearense renovou-se. E, com ele, a poesia local. “Filgueiras participou do primeiro momento desse modernismo, da fase mais heróica. E foi também um grande educador e um dos poetas mais populares do Ceará. Era disputado nas escolas pra recitar os poemas.”

Ainda segundo Macedo, a temática da poesia de Filgueiras Lima “era telúrica”. Assim, ele acredita, a obra “Terra da luz condensa essa temática”. Outra grande marca da poesia do cearense era a sonoridade. “Poeta de sonoridade muito aguda e forte apelo amoroso. Poeta de grande significação e grande arquiteto do movimento Nova Escola”. Filgueiras defendia a língua nacional e empunhava a bandeira dos heróis brasileiros que participaram da II Guerra Mundial. De acordo com Macedo, essas características não entravam em choque com o ideário modernista. Juarez Leitão escreve: “Sonetista caprichoso, mestre do bendizer parnasiano, da rima e da métrica, não temeu a chegada da poesia moderna, sendo no Ceará um de seus precursores. Evoluiu, ousou, atirou-se sem medo no novo modelo formal dos seguidores da Semana de 22. Isto é, quando andou trouxe o tempo e do tempo continuou a fazer o barro de suas fantasias”.

Filgueiras Lima nasceu em 21 de maio de 1909 e faleceu em 28 de setembro de 1965. Deixou três filhos e esposa, dona Amazonia Braga de Filgueiras Lima. Escreveu Festa de Ritmos (1932), Ritmo Essencial (1944), Terra da Luz (1956) e O Mágico e o Tempo (1965). Em 1990, a Imprensa Universitária publicou o volume contendo as obras completas do poeta. Foi professor e escritor. Fundou o Conselho de Educação do Ceará.


EMAIS

A saudade do piano
(de Festa de ritmos)

Em meio à sala, agora tão deserta,
o piano dormita.
E uma saudade como que palpita,
desperta,
na sua alma trêmula de sons,
na sua alma de riso e de queixume,
irmã das almas límpidas dos bons,
onde florescem sonhos e segredos:
– é a saudade sutil de teu perfume,
– é a saudade macia de teus dedos...

Fonte: Jornal O Povo

domingo, 17 de maio de 2009

Rol de loas pro meu Ceará


Do Antônio Bezerra ao Cariri, Eleuda de Carvalho faz um passeio de louvação pelo seu estado querido. No meio do caminho, faz pausas em vários lugares e encontra Estrigas, Patativa do Assaré, Moreira Campos, Ana Bilhar, entre outros

Começo invocando Santana mestra, por via dela dona Rachel de Queiroz, suas filhas Conceição e Maria Moura, as mulheres do sertão, todas, anônimas e nominadas - a Sinhá do Perereca, contadora de histórias e fazedora de bonecas de pano de quando eu era menina. Beatas caboclas, brincantes, guerreiras, louceiras, labirinteiras, agricultoras. E louvo a acauã, os caborés, corrupiões, almas-de-gato, as avoantes e os bichos todos da caatinga, que ainda resistem, feito a gente sobrevivente determinada. E os cardeiros, os pés de juá, carnaubeiras e cajus. As cozinhas de fogão a lenha, a galinha na água grande, o mel de jandaíra com farinha na cuia coité. Os jericos mansos e as altivas cabras. O céu azul e as noites de luar, ocasos vermelhos e manhãs de orvalho. As pedras encantadas e as chapadas, do Cariri sagrado à Ibiapaba aonde pregou António Vieira e onde foi devidamente devorado o padre Pinto: louvo o banquete, a comida, os comensais.

O Cego Aderaldo e Patativa, e Geraldo Amâncio, e os violeiros, emboladores de coco, rabequeiros, tocadores de sino, o maracatu, mestre Piauí do boi de Quixeramobim, o mestre Alfredo do Pife e a alegria dos Irmãos Aniceto louvo. E louvo Ednardo, Calé Alencar, Téti, Chico Pio, Waldonys, Mona Gadelha, Fernando Catatau e o Montage, cirandeiros, roqueiros, punks, seresteiros, os poetas da Praça do Ferreira. Gerardo Mello Mourão, Moreira Campos, os irmãos Maia - Virgílio e Luciano, a poeta Ieda Estergilda, os contos das Natércias (Campos e Pontes). A cerâmica da Côca. O filé da Perpétua. Os doces de dona Balu. A peixada, o baião de dois, o aluá do Café Azteca e o pastel da Leão do Sul, eu louvo, que é também poesia este vento, esta luz, o balanço do mar.

Louvo a Confederação do Equador, a Padaria Espiritual, a Sedição do Juazeiro, o Caldeirão, a Massafeira, O Saco, a Agulha do Floriano. O jornal O POVO. O jangadeiro Chico da Matilde - o Dragão do Mar, a moça soldado Jovita Feitosa, dom Edmilson Cruz, a professora Luiza de Teodoro, a Verinha do Mucuripe, a cacique Maria Pequeno, os Tapebas, frei Tito de Alencar, Rodolfo Teófilo, Antônio Sales, Ana Bilhar, dona Lurdes, Rosa da Fonseca, louvo todos que se dispuseram e se dispõem a lutar pela justiça, a liberdade e o sonho. Antônio Conselheiro, Ibiapina, dona Bárbara do Crato, Preto Zezé, o passado e o presente eu louvo. E louvo Naninha, Vassoura, Zé Tatá.

Praia de Iracema, Floresta, Barra do Ceará, Antônio Bezerra. O Benfica - e o casario preservado pela universidade. A UFC, o velho Liceu, o Ginásio Santa Maria Goretti que não existe mais, os grupos escolares da periferia louvo. A igrejinha do Patrocínio, aquela outra que espia o mar da Leste Oeste, a cinzenta catedral e a beleza dos seus vitrais. O Theatro José de Alencar, o cavalo de pastilhas do Aldemir no Dragão, a caixa-dágua do Leo, o cachorro vermelho de lata do Hélio, a árvore de ex-votos do Zé Tarcísio e seu jardim suspenso no burburinho de um bar. Louvo a boniteza do Estrigas na parede do moinho, e a arte do seu sítio acolhedor do Mondubim, ao apito do trem louvo Nice, seu sorriso, suas linhas, suas cores, o seu ouvido de ouvir flores eu louvo.

(Só não louvo o eterno descuido duplo com a nossa casa: o nosso mesmo e o dos que elegemos para nos representar).

>> ELEUDA DE CARVALHO é jornalista e doutoranda em Letras pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Fonte: Jornal O Povo

Ser do Ceará - Cantos em sol



O poeta Henrique Beltrão escreveu quatro poemas sobre o seu amor ao estado do Ceará. Para ele o cearense hoje possui uma Autoestima mais elevada

Henrique Beltrão é cearense, poeta e autor do livro de poemas Vermelho, publicado de forma independente em 2006. Ele presenteou o Ceará com quatro poemas cultivados na sua relação com o estado. Henrique Beltrão é também cantor. Alguns de seus versos foram musicados por amigos e colegas como Isaac Candido e Pingo de Fortaleza. Trabalha na rádio universitária, como radialista, onde se dedica na divulgação e valorização da música e da literatura produzida no Ceará. “Mas eu não me considero bairrista. Gosto muito de meu país como um todo. O cearense hoje se reconhece mais como brasileiro, hoje já tem uma autoestima muito mais elevada”, comenta.


POEMAS

Alegre honraria
Sede à beira do olho d’água
e este Sol que não se apaga...
O embalo da rede
e o balanço da jangada...
Um vaqueiro encourado
pelo Padim abençoado...
Além das serranas fronteiras,
conterrâneos pela Terra inteira...
O riso pronto para a piada,
os braços prestes aos abraços...
Coco, maracatu, repente
dizendo da minha gente...
Serra, mar, cidade e sertão
cantando o tempo sem conta
na ampulheta da imensidão...
As linhas livres desta poesia
são de renda cearense:
minha mais alegre honraria!

Ser do Ceará
Trago na palavra o verde deste mar:
em cada um de nós ecoa nosso jeito de acolher
como quem colhe a imensidão solar.
Sinto no seu gesto vermelha alegria de viver...
em todo recanto do sertão semeia eterno verão,
pousa no que faço o abraço vindo de você.
Bebo, além do azul, à beira do horizonte,
as linhas das serras nuas, semelhantes às suas,
onde olho d’água e cachoeira têm fé na fonte.
Quero, qual luz pousada em versos ao vento, cantar
a beleza indizível do gosto que dá ser do Ceará.

Ceará ser
O Ceará canta em sol maior
na verde cadência dos seus mares.
O Ceará conta em céu sem fim
com sertanejo repente patativando os ares.
O Ceará sente que a poesia tem sede
nas serras sinuosas do orgulho que revelares.
Palavra de luz
O poeta é feito da sua gente.
Seus versos são filhos do seu lugar.
Cada palavra é vizinha do indizível,
a rima é um favo do inefável...
Sou o sol, o céu, a serra, o sertão...
Sangra o açude da invenção...
Os rios de mim vão desaguar no mar...
Não há chuva que possa abarcar o Ceará!
Na cotidiana e infinita viagem,
meu povo é a mais bela paisagem:
acolhe e compartilha com alegria
o bom humor, a farinha e a poesia.

Fonte: Jornal O Povo

Um canal de divulgação da politica, esporte, cultura e história do Ceará e do Nordeste.

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