domingo, 30 de agosto de 2009

Memória das estradas de ferro



Estação ferroviária, em Fortaleza, foi a pioneira no Estado. Depoimentos são gravados no cenário do local

Em fase de finalização, documentário resgata história das estradas de ferro no Ceará, com personagens da época

Fortaleza. Mesmo tendo sido praticamente desativados nos últimos anos, os trens ainda causam fascínio. Tanto para aqueles que viajaram ou trabalharam na ferrovia quanto para quem só vê os trens cruzando o sertão cearense para levar carga. Apesar de instalada tardiamente no Ceará, no final do século XIX, as estradas de ferro tiveram um impacto importante na vida econômica e social do Estado. Cidades nasceram e cresceram na beira das ferrovias. Os trens encurtavam distâncias e era por meio deles que chegavam mercadorias, artigos da moda, correspondência, revistas e jornais para o Interior.

Toda esta história é contada por meio do vídeo-documentário "O Último Apito", que está em fase de finalização. Produzido pelo documentarista Aderbal Simões Nogueira, a produção busca recontar a história das ferrovias cearenses, do apogeu à desarticulação do transporte ferroviário em favor das estradas de rodagem, que hoje concentram boa parte do transporte de carga e de passageiros.

"A história do trem no Ceará é muito bonita para cair no esquecimento. Diferente do que ocorreu em outros países, as linhas de trem que haviam desbravado o País hoje estão praticamente desativadas. Então quisemos fazer um documentário mostrando a história do trem no Ceará, com depoimentos de pessoas que trabalharam na ferrovia e a situação das linhas nos dias de hoje", conta.

Conta própria
Fruto de um trabalho de cinco anos do documentarista, que é dono de uma produtora de vídeo, todo o trabalho de produção e captação foi feito por conta própria. As filmagens levaram a incursões por 40 municípios do Interior cearense e a gravação de cerca de 100 depoimentos de ferroviários e pessoas que, um dia, souberam o que era viajar de trem.

"Agora estamos correndo atrás de apoio para a finalização do documentário. Nossa idéia é que, depois de pronto, o filme seja exibido nas estações ferroviárias de 43 municípios cearenses, para que a população desses locais conheçam melhor a própria história", explica Aderbal Nogueira. A expectativa é que, caso consigam o apoio necessário, a estréia de "O Último Apito" ocorra no início do ano que vem. Segundo ele, os depoimentos são carregados por muita nostalgia. Aderbal conta que, durante as filmagens, muitos dos entrevistados se emocionaram ao relembrar passagens da vida marcadas pelos trilhos. "Tentamos mostrar o quanto o trem fazia parte da vida do povo e o quanto, hoje, ele faz falta".

Neto de um ex-ferroviário, Aderbal Nogueira contou com a ajuda especial do pesquisador José Hamilton Pereira, que era colega de trabalho do avô. Engenheiro aposentado da antiga Rede Ferroviária Federal S. A. (RFFSA), ele é um dos autores do livro "Estradas de Ferro no Ceará". A obra serviu de base para a realização do vídeo-documentário no Estado.

"Infelizmente as linhas de ferro foram abandonadas. A RFFSA aglutinava todas as linhas, mas com o tempo não houve investimento e a rede foi privatizada. Hoje o trem só serve para transporte de carga. É uma pena", comenta o pesquisador, apostando no sucesso do vídeo como resgate histórico.

FIQUE POR DENTRO
Ex-funcionários da RFFSA testemunharam era de ouro

Escrito por José Hamilton Pereira e Francisco de Assis Lima, "Estradas de Ferro do Ceará" começou a ser pesquisado há seis anos. Ex-funcionários da Rede Ferroviária Federal S. A. (RFFSA), eles testemunharam a era de ouro e a decadência das linhas de ferro. "Eu herdei muitas fotos do meu pai, que também era ferroviário. Então pesquisamos jornais da época, falamos com pessoas que trabalharam nas estradas de ferro, pegando a maior quantidade de informações possíveis para compor a obra, que busca resgatar essa história que estava sob o risco de ser esquecida", conta José Hamilton. O livro, lançado em 2008 e já em sua segunda edição, busca preencher uma importante lacuna para os pesquisadores quando o assunto é a história da rede ferroviária cearense. Além do livro, os pesquisadores estão trabalhando na reativação do Museu Ferroviário. O acervo encontra-se, atualmente, num prédio ao lado da Estação João Felipe, no Centro, em Fortaleza.

Abandono

"A história do trem no Ceará é muito bonita para cair no esquecimento. Não queremos isto"

Aderbal Simões Nogueira
Documentarista

"Não houve investimento e a rede ferroviária foi privatizada no País. É uma pena"

José Hamilton Pereira
Pesquisador

Mais informações

"O Último Apito"
Aderbal Simões Nogueira
Documentarista
(85)3224.7090

Fonte: Jornal Diário do Nordeste

CULTURA POPULAR - Reisado de máscaras é preservado em Potengi


Agricultores do sítio Sassaré realizam há 22 anos a arte do reisado utilizando máscaras ou caretas feitas com couro e madeira. O tipo de arte é uma raridade no Brasil (Foto: ELIZÂNGELA SANTOS)


Mestre Antônio Luiz de Sousa mostra as máscaras preservadas pelo reisado de Potengi. Por ele, tradição está mantida (Foto: ELIZÂNGELA SANTOS)

Um reisado que usa máscaras de couro e madeira está sendo preservado no município caririense de Potengi

Potengi. Nem bem o dia inicia e a luz começa a clarear, os integrantes do Reisado do Sassaré, sítio a 3km de Potengi, estão a juntar as roupas e fantasias dos personagens de um dos reisados mais raros do Brasil. É o único da região do Cariri com a característica do uso de máscaras ou caretas. Confeccionada em madeira e couro, as máscaras são preservadas desde os antepassados e resistem ao tempo. É uma prova de amor à cultura e à preservação de uma arte que não deve morrer, mesmo diante da ausência de reconhecimento no Estado.

Mestre Antônio Luiz de Sousa, desde pequeno, deixava muitas vezes de dançar para escutar os chamamentos do mestre Raimundo Maximiniano. As músicas soavam ao seu ouvido como um aviso do destino. O menino só não aprendeu a fazer as máscaras. Hoje, aos 51 anos, tem a preocupação constante de como fará para dar continuidade a um trabalho onde os próprios filhos adolescentes não se sentem à vontade para dançar na frente dos outros. Sentem vergonha de uma arte que atravessou décadas e, segundo o mestre, desde o seu bisavô tem notícia do envolvimento da família com o que ele chama de brincadeira. A avó já trazia a notícia nos anos 30. Dona Neusa Luzia de Sousa contava as histórias de reisado que sempre encantaram o neto Antônio.

São seis agricultores do Sítio Sassaré, mais os músicos e os personagens. Ao todo, são 12 personagens, que eles conseguem formar. Mas o formato anterior seriam 12 caretas, além dos outros integrantes. Essa tem sido a luta do diretor de Cultura de Potengi, Jefferson Gonçalves de Lima, conhecido por Bob, como forma de resgatar e fortalecer o grupo, que poderá estar fadado a desaparecer caso não haja apoio para continuidade e valorização.

Segundo Jefferson, que junto com o trabalho de resgate vem realizando pesquisas, há outros personagens que precisam ser preservados. A tradição nasceu no município, na comunidade do Sítio Rosário. Lá se realizavam grandes espetáculos aos olhos dos visitantes até de outras cidades da região. Junto com o grupo, a lapinha da comunidade também chamava a atenção do público.

Encontro de mestres
A integração do grupo do Sassaré com os antigos brincantes da comunidade do Rosário tem sido um dos trabalhos de Jefferson. Ele destaca a necessidade de promover os encontros do mestre Antônio com os demais mestres da região. O diretor cita que personagens como Jaraguá, Guriabá e a Margarida estão ausentes da dança dos Caretas do Sassaré, além dos caboclinhos. "É preciso fazer esse resgate e incluir mais brincantes no grupo, para completar a dança, que representa muito para a cultura local e a região", diz ele. Brincantes como Totonho e Massau, antigos integrantes de outros reisados, têm intenção de retornar para o grupo dos caretas de Sassaré.

Na pequena casa do mestre Antônio Luiz, que há 22 anos conduz o grupo, a sala está cheia de caixas. O violeiro, que mora perto e tem um papel importante nas apresentações, afina o instrumento. Seu Francisco José de Amorim, um dos mais antigos na brincadeira, junto com o mestre, também tem a preocupação de juntar as roupas e incrementar os chapéus. Até para comprar os papéis coloridos para enfeitar as indumentárias foi preciso buscar ajuda da comunidade. Seu Chico lamenta a falta de valorização do grupo na própria cidade em que moram, bem como o reconhecimento da população.

Jefferson chegou à diretoria de Cultura da cidade e um dos pedidos foi para que iniciasse um trabalho de resgate dos Caretas, mas esse trabalho vem de mais longe. Ele afirma que, ao integrar a banda dos Ferréros, de Potengi, decidiu incorporar um pouco da cultura local e o Reisado dos Caretas é presença constante tanto na música, com um resgate da cantorias do grupo, como também a própria dança. E leva o mestre para os palcos por onde se apresenta.

A falta de reconhecimento da população local entristece o grupo, que não deixa de empunhar a bandeira da necessidade de dar continuidade aos trabalhos. Os ensaios acontecem na associação da própria comunidade. Foi melhor para eles, que antes tomavam conta dos terreiros com as danças. As roupas estragavam mais rápido, porque bolavam no chão e a poeira tomava de conta. Há quatro anos estão com as mesmas roupas. A dos ensaios são as mais estragadas. As camisas azuis estão desbotadas, mas o diretor de Cultura garante que já estão sendo providenciadas novas roupas e sem a denominação do bumba-meu-boi, nas costas, como está no uniforme que atualmente o grupo usa. Jefferson diz ser consciente da necessidade de um trabalho de fortalecimento e divulgação do grupo. Ele diz que por conta dessas deficiências, o dia tradicional de apresentação do Reisado dos Caretas do Sassaré, em 6 de janeiro, Dia de Reis, deixou de acontecer no ano de 2004 e por pouco não houve no ano seguinte.

O grupo está concorrendo ao Prêmio Cultura Popular, do Ministério da Cultura. Mestre Antônio ainda não foi contemplado no Ceará como mestre da Cultura e lamenta ter perdido por alguns pontos. Seria de grande importância o complemento para auxiliar o trabalho. Em casa, dona Raimunda Rosa, esposa de mestre Antônio, acompanha todo o trabalho de reunir o material para a viagem.

A apresentação mais distante que aconteceu do grupo foi em Fortaleza. Os passos da dança foram um pouco prejudicados, por terem colocado um tapete no chão, mas conseguiram assim mesmo levar a apresentação até o fim. Dona Rosa se diverte e ao mesmo tempo atende a todos com o cafezinho. Na casa de três cômodos, as fantasias ficam na armadas de varas por cima das paredes. O boi, a velha Quitéria e o velho Bacurau, urubu, ema, entre outros personagens são chamados pelos acordes da viola a invadir o terreiro. Entra o mestre a chamar: "Meu boi bonito, meu boi estrela, touro do gado...".

RECONHECIMENTO AUSENTE
Artistas lamentam falta de público

Potengi Os caretas começam a se reunir para uma de suas apresentações no início da noite, em Juazeiro do Norte. Parece até um dia de festa. E é festa mesmo. O transporte vem pegar o pessoal e várias caixas são colocadas no terreiro. A preocupação de mestre Antônio Luiz é se vai dar para levar tudo e todo mundo. Mas desde cedo que tudo está sendo preparado. Seu Francisco José Amorim está dando o retoque final nos chapéus. As tiras de papel coloridas são coladas com cuidado nos chapéus em forma de cone. As máscaras são preparadas. Levam até umas miniaturas para vender. Mas, para tristeza de seu Chico, o público que eles esperavam não compareceu.

Às 18h30, marcada a apresentação no Centro Cultural Banco do Nordeste, e umas poucas pessoas perdidas entre as cadeiras da platéia. "Quase não veio ninguém", diz seu Chico, desapontado. A ausência de público pela falta de divulgação condizente com o valor dos grupos é uma punhalada no coração do artista. E para quem acha que essa violência fica apenas no cenário mais sofisticado, o mestre Antônio Luiz reclama da falta de consideração e reconhecimento do público de sua própria terra, Potengi. "Chegamos a ser chutados nas ruas da cidade durante a nossa apresentação".

"Chegamos a nos apresentar uma vez e deram, já à tarde, um copo d´água. O pessoal tava já desmaiando de fome", conta. Essa tem sido uma prática comum para as apresentações com um cachê irrisório, de fazer vergonha, e depois é servido um lanche. Pouco, para quem se contenta em levar a alegria e a arte regional.

O diretor de Cultura, Jefferson Gonçalves, afirma que vem sendo feito um trabalho educativo com crianças e jovens nas escolas locais. O mestre Antônio tem levado às unidades de ensino a sua experiência de brincante e mostrado o valor de preservar a cultura arraigada de seus antepassados. Essa é uma alternativa para se começar a perceber o que poderia ser um símbolo da cultura do município, mais valorizado.

E essa valorização poderá começar a chegar dentro das casas dos componentes do reisado do Sassaré. Os pequenos, filhos dos agricultores, poderão não mais sentir vergonha de "mungangar". Nos ensaios do grupo, na Associação, os adolescentes param de ensaiar quando a comunidade vai assistir.

Mais informações

Prefeitura Municipal de Potengi
Diretoria de Cultura
Cariri, (88) 3538.1225.

Fonte: Jornal Diário do Nordeste

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Um espírito livre



Educador, poeta e espírito livre: hoje, 21 de maio, comemora-se o centenário do poeta Filgueiras Lima, um arquiteto do humanismo e poeta das coisas da terra o povo

Se Antônio tinha uma dúvida de português, procurava imediatamente o pai, que, interrompendo as leituras costumeiras, folheava os quatro ou cinco dicionários à mão. Lá fora, corria o dia em Lavras da Mangabeira, no interior do Ceará. Vez em quando, um vento frio vinha do rio Salgado. Na casinha da família, o pai colhia de cada volume o significado da palavra procurada. Queria que o menino descobrisse: havia nuances. Demorada, a operação fatigava o caçula do professor e poeta Filgueiras Lima, cujo centenário é comemorado hoje na escola que, ao lado de Paulo Sarasate, ajudou a fundar em 1938. Por telefone, Antonio, hoje com 60 anos, relembra os menores gestos do pai. Fala da sala da diretoria do colégio Lourenço Filho. Ali, comanda o empreendimento que foi a menina dos olhos de Filgueiras Lima.

“Vamos comemorar o centenário do poeta realizando o que ele sempre fazia: uma eucaristia com os alunos da escola”, adianta Antônio Filgueiras Lima Filho. Porque educação e poesia sempre formaram um par ordenado harmônico na vida de Filgueiras Lima. No livro Ensina como quem reza - Vida e tempo de Filgueiras Lima, biografia assinada por Juarez Leitão disponível no site que trata da obra do poeta, lê-se: “Havia entre o poeta e o professor a mais perfeita compatibilidade e, ao que parece, mais do que compatíveis, a poesia e o ensino se fizeram em sua vida reciprocamente necessários. Não poderíamos ter o poeta sem o compromisso humano do Educador, a repartir seu conhecimento, suas descobertas, sua filosofia e suas crenças com outros construtores do mundo, a juventude vigorosa que deveria continuar a compor o tempo, a vida e o país”. Foi assim desde o início. Mesmo antes da publicação de Festa de ritmos (1932).

Mesmo antes de ocupar a função de Inspetor Regional do Ensino, ainda em 1927. Para o escritor e professor Dimas Macedo, Filgueiras Lima “foi um dos grandes poetas do modernismo do Ceará”. Se antes dedicara-se de corpo e alma ao manuseio do soneto tipicamente parnasiano, com os ventos de mudança soprados pela Semana de 1922, o poeta cearense renovou-se. E, com ele, a poesia local. “Filgueiras participou do primeiro momento desse modernismo, da fase mais heróica. E foi também um grande educador e um dos poetas mais populares do Ceará. Era disputado nas escolas pra recitar os poemas.”

Ainda segundo Macedo, a temática da poesia de Filgueiras Lima “era telúrica”. Assim, ele acredita, a obra “Terra da luz condensa essa temática”. Outra grande marca da poesia do cearense era a sonoridade. “Poeta de sonoridade muito aguda e forte apelo amoroso. Poeta de grande significação e grande arquiteto do movimento Nova Escola”. Filgueiras defendia a língua nacional e empunhava a bandeira dos heróis brasileiros que participaram da II Guerra Mundial. De acordo com Macedo, essas características não entravam em choque com o ideário modernista. Juarez Leitão escreve: “Sonetista caprichoso, mestre do bendizer parnasiano, da rima e da métrica, não temeu a chegada da poesia moderna, sendo no Ceará um de seus precursores. Evoluiu, ousou, atirou-se sem medo no novo modelo formal dos seguidores da Semana de 22. Isto é, quando andou trouxe o tempo e do tempo continuou a fazer o barro de suas fantasias”.

Filgueiras Lima nasceu em 21 de maio de 1909 e faleceu em 28 de setembro de 1965. Deixou três filhos e esposa, dona Amazonia Braga de Filgueiras Lima. Escreveu Festa de Ritmos (1932), Ritmo Essencial (1944), Terra da Luz (1956) e O Mágico e o Tempo (1965). Em 1990, a Imprensa Universitária publicou o volume contendo as obras completas do poeta. Foi professor e escritor. Fundou o Conselho de Educação do Ceará.


EMAIS

A saudade do piano
(de Festa de ritmos)

Em meio à sala, agora tão deserta,
o piano dormita.
E uma saudade como que palpita,
desperta,
na sua alma trêmula de sons,
na sua alma de riso e de queixume,
irmã das almas límpidas dos bons,
onde florescem sonhos e segredos:
– é a saudade sutil de teu perfume,
– é a saudade macia de teus dedos...

Fonte: Jornal O Povo

domingo, 17 de maio de 2009

Rol de loas pro meu Ceará


Do Antônio Bezerra ao Cariri, Eleuda de Carvalho faz um passeio de louvação pelo seu estado querido. No meio do caminho, faz pausas em vários lugares e encontra Estrigas, Patativa do Assaré, Moreira Campos, Ana Bilhar, entre outros

Começo invocando Santana mestra, por via dela dona Rachel de Queiroz, suas filhas Conceição e Maria Moura, as mulheres do sertão, todas, anônimas e nominadas - a Sinhá do Perereca, contadora de histórias e fazedora de bonecas de pano de quando eu era menina. Beatas caboclas, brincantes, guerreiras, louceiras, labirinteiras, agricultoras. E louvo a acauã, os caborés, corrupiões, almas-de-gato, as avoantes e os bichos todos da caatinga, que ainda resistem, feito a gente sobrevivente determinada. E os cardeiros, os pés de juá, carnaubeiras e cajus. As cozinhas de fogão a lenha, a galinha na água grande, o mel de jandaíra com farinha na cuia coité. Os jericos mansos e as altivas cabras. O céu azul e as noites de luar, ocasos vermelhos e manhãs de orvalho. As pedras encantadas e as chapadas, do Cariri sagrado à Ibiapaba aonde pregou António Vieira e onde foi devidamente devorado o padre Pinto: louvo o banquete, a comida, os comensais.

O Cego Aderaldo e Patativa, e Geraldo Amâncio, e os violeiros, emboladores de coco, rabequeiros, tocadores de sino, o maracatu, mestre Piauí do boi de Quixeramobim, o mestre Alfredo do Pife e a alegria dos Irmãos Aniceto louvo. E louvo Ednardo, Calé Alencar, Téti, Chico Pio, Waldonys, Mona Gadelha, Fernando Catatau e o Montage, cirandeiros, roqueiros, punks, seresteiros, os poetas da Praça do Ferreira. Gerardo Mello Mourão, Moreira Campos, os irmãos Maia - Virgílio e Luciano, a poeta Ieda Estergilda, os contos das Natércias (Campos e Pontes). A cerâmica da Côca. O filé da Perpétua. Os doces de dona Balu. A peixada, o baião de dois, o aluá do Café Azteca e o pastel da Leão do Sul, eu louvo, que é também poesia este vento, esta luz, o balanço do mar.

Louvo a Confederação do Equador, a Padaria Espiritual, a Sedição do Juazeiro, o Caldeirão, a Massafeira, O Saco, a Agulha do Floriano. O jornal O POVO. O jangadeiro Chico da Matilde - o Dragão do Mar, a moça soldado Jovita Feitosa, dom Edmilson Cruz, a professora Luiza de Teodoro, a Verinha do Mucuripe, a cacique Maria Pequeno, os Tapebas, frei Tito de Alencar, Rodolfo Teófilo, Antônio Sales, Ana Bilhar, dona Lurdes, Rosa da Fonseca, louvo todos que se dispuseram e se dispõem a lutar pela justiça, a liberdade e o sonho. Antônio Conselheiro, Ibiapina, dona Bárbara do Crato, Preto Zezé, o passado e o presente eu louvo. E louvo Naninha, Vassoura, Zé Tatá.

Praia de Iracema, Floresta, Barra do Ceará, Antônio Bezerra. O Benfica - e o casario preservado pela universidade. A UFC, o velho Liceu, o Ginásio Santa Maria Goretti que não existe mais, os grupos escolares da periferia louvo. A igrejinha do Patrocínio, aquela outra que espia o mar da Leste Oeste, a cinzenta catedral e a beleza dos seus vitrais. O Theatro José de Alencar, o cavalo de pastilhas do Aldemir no Dragão, a caixa-dágua do Leo, o cachorro vermelho de lata do Hélio, a árvore de ex-votos do Zé Tarcísio e seu jardim suspenso no burburinho de um bar. Louvo a boniteza do Estrigas na parede do moinho, e a arte do seu sítio acolhedor do Mondubim, ao apito do trem louvo Nice, seu sorriso, suas linhas, suas cores, o seu ouvido de ouvir flores eu louvo.

(Só não louvo o eterno descuido duplo com a nossa casa: o nosso mesmo e o dos que elegemos para nos representar).

>> ELEUDA DE CARVALHO é jornalista e doutoranda em Letras pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Fonte: Jornal O Povo

Ser do Ceará - Cantos em sol



O poeta Henrique Beltrão escreveu quatro poemas sobre o seu amor ao estado do Ceará. Para ele o cearense hoje possui uma Autoestima mais elevada

Henrique Beltrão é cearense, poeta e autor do livro de poemas Vermelho, publicado de forma independente em 2006. Ele presenteou o Ceará com quatro poemas cultivados na sua relação com o estado. Henrique Beltrão é também cantor. Alguns de seus versos foram musicados por amigos e colegas como Isaac Candido e Pingo de Fortaleza. Trabalha na rádio universitária, como radialista, onde se dedica na divulgação e valorização da música e da literatura produzida no Ceará. “Mas eu não me considero bairrista. Gosto muito de meu país como um todo. O cearense hoje se reconhece mais como brasileiro, hoje já tem uma autoestima muito mais elevada”, comenta.


POEMAS

Alegre honraria
Sede à beira do olho d’água
e este Sol que não se apaga...
O embalo da rede
e o balanço da jangada...
Um vaqueiro encourado
pelo Padim abençoado...
Além das serranas fronteiras,
conterrâneos pela Terra inteira...
O riso pronto para a piada,
os braços prestes aos abraços...
Coco, maracatu, repente
dizendo da minha gente...
Serra, mar, cidade e sertão
cantando o tempo sem conta
na ampulheta da imensidão...
As linhas livres desta poesia
são de renda cearense:
minha mais alegre honraria!

Ser do Ceará
Trago na palavra o verde deste mar:
em cada um de nós ecoa nosso jeito de acolher
como quem colhe a imensidão solar.
Sinto no seu gesto vermelha alegria de viver...
em todo recanto do sertão semeia eterno verão,
pousa no que faço o abraço vindo de você.
Bebo, além do azul, à beira do horizonte,
as linhas das serras nuas, semelhantes às suas,
onde olho d’água e cachoeira têm fé na fonte.
Quero, qual luz pousada em versos ao vento, cantar
a beleza indizível do gosto que dá ser do Ceará.

Ceará ser
O Ceará canta em sol maior
na verde cadência dos seus mares.
O Ceará conta em céu sem fim
com sertanejo repente patativando os ares.
O Ceará sente que a poesia tem sede
nas serras sinuosas do orgulho que revelares.
Palavra de luz
O poeta é feito da sua gente.
Seus versos são filhos do seu lugar.
Cada palavra é vizinha do indizível,
a rima é um favo do inefável...
Sou o sol, o céu, a serra, o sertão...
Sangra o açude da invenção...
Os rios de mim vão desaguar no mar...
Não há chuva que possa abarcar o Ceará!
Na cotidiana e infinita viagem,
meu povo é a mais bela paisagem:
acolhe e compartilha com alegria
o bom humor, a farinha e a poesia.

Fonte: Jornal O Povo

Travessa Crato - Forró do Raimundo


Por detrás de grandes óculos de grau, Raimundo dos queijos acha graça do bom humor dos frequentadores de sua "confraria". Ele ajuda a animar o Centro. Todos os domingos

Como e sem falta, a carga de queijos frescos chega todos os dias à confraria do “seu” Raimundo. Coalho e de manteiga. Supervisiona tudo de perto, enquanto o ajudante recolhe o material, ele olha uma por uma, para ter certeza se a qualidade é boa mesmo. Levanta e abaixa os olhos, afasta e aproxima a mercadoria. Aprovada, enfileira nas prateleiras de madeira ou guarda no balcão de vidro que divide a pequena mercearia, bar ou confraria, como preferir. Pode pedir de muitos quilos sem medo. No final do dia, está quase tudo vendido. “Não gosto de dizer o quanto eu vendo não, faz bem não. Cresce os olhos. Mas pode colocar aí que eu vendo bem”. Então está certo.

Faz muito tempo que Raimundo deixou de conduzir o sobrenome que recebeu na pia batismal. Se alguém perguntar pelo “seu” Oliveira ou “seu” Araújo ali pelas bandas da Travessa Crato, ruazinha entre a Conde D´Eu e General Bezerril, provavelmente vai passar batido. Agora, se mencionar o Raimundo dos Queijos, pronto! São muitas as direções no vazio de domingo do Centro da cidade. “De primeiro, isso tudo era um deserto, ficava sem um pé de pessoa. Depois que comecei a abrir aos domingos, foi uma maravilha”, lembra a mudança sem falsa modéstia Raimundo de Oliveira Araújo, 73 anos, “dos Queijos” há três décadas. Tempo marcado desde que o comerciante do ramo de frigorífico decidiu investir por outro norte mais lucrativo, porque “é ruim para um velho trabalhar com carne pesada”. Hoje, seu pequeno bar, de cadeiras distribuídas no meio da travessa, é o responsável por um “alarido organizado” em pleno Centro de Fortaleza que acontece há 10 anos aos domingos.

O nome entrega bem: é o queijo a especialidade. Vindo de Iracema e de Tauá, o melhor no crivo de Raimundo. Mas não para por aí. Raimundo também trabalha com toda qualidade de doces, rapadura, ovo de codorna, castanha de caju. A fama mais recente, no entanto, veio por outro motivo. A ideia é muito simples e veio do engenheiro Ernando Honorato, casado com uma prima de Raimundo: abrir aos domingos e preparar os petiscos, seguindo cardápios diferentes a cada semana. Galinha, carneiro cozido, mão de vaca. “Ele adora inventar”, sintetiza o dono do bar. Espalhou umas mesas pela travessa. A cerveja está sempre gelada e a clientela é fiel. Ainda falta uma coisa. “Para completar, a banda dos cegos vem tocar a partir das 10 horas”. Quem são as pessoas da banda, “seu” Raimundo? “Sei do nome não, só sei que são os cegos”, ri-se meio encabulado.

Regional Asa Branca
Os irmãos Vanda Lúcia no vocal e triângulo; Francisco Honório, no violão; Valdeci, na sanfona, formam com outros dois amigos o grupo Regional Asa Branca, narrando com o som doce e marcado o mundo que não podem ver. Tocam de tudo, é só pedir. E tome São João na Roça, Olhinhos de Fogueira, Quero chá, Eu não preciso de você. “Eiiiiiiiiiita que essa é boa, viu?”, grita um, com a garrafa de cerveja debaixo do sovaco, dançando ao som do forró. “Esse aí dança até com o ‘plim’ do garfo caindo do chão”, brinca Raimundo, já bem mais à vontade para a conversa.

Tem sempre tanta gente assim, seu Raimundo? A visita foi no último domingo, dia que ele considerou de movimento fraco, embora quase todas as mesas estivessem ocupadas. “Você não viu nada! Hoje, é porque é o Dia das Mães. Num dia bom, vendo 20 caixas”, calcula. E não há como falar do simpático Raimundo sem ligá-lo ao seu estabelecimento. O espírito é da informalidade. De camiseta, bermuda e tênis, ele chama muitos dos clientes pelo nome, abre o sorriso e os braços para as velhas palmadinhas nas costas. Bem sabe ele que a regra é tratar bem, mas, sinceramente, ele não precisa de esforço. Geralmente fica ali, no cantinho, escutando as histórias da moçada que frequenta seu estabelecimento. A maioria, na faixa dos 50 ou 60 anos. “’Seu’ Raimundo, prepare ali uma carne de sol e anote que depois eu venho acertar”, se aproxima uma senhora de cabelos curtos e escovados, salto alto e maquiagem. “Fiado tem todo dia”, avisa ele.

Todos são loucos...
“Aqui todos são loucos... uns pelos outros”, avisava a placa antiga, retirada há pouco tempo. Raimundo não explica direito, mas diz que resolveu tirar porque havia uns querendo ser melhores do que os outros. “Hoje quero fechar meio-dia, porque é o dia das patroas, né?”, avisa, para corrigir-se em seguida: “Ora mais! Domingo passado eu queria ter saído às duas e só consegui fechar o portão às cinco (da tarde). Tem cliente que só vai embora quando a gente expulsa”. Todos são muito boa gente, como ele garante. Pessoas de todas as categorias de profissão. “Tem o Waldemar Caracas, fundador do time do Ferroviário. Tem 101 anos. Vem tomar vinho todos os domingos. Vinho seco da melhor qualidade!”, assegura, sem revelar a marca.

Ora mais, ali o assunto é sério. Por mais que goste de beber de vez em quando, esse lugar não é o trabalho. Por mais que o domingo faça todo sucesso, a festa ainda continuará a se limitar a esse dia da semana. “Eu não dou para trabalhar só com bebida. Nem vendo cachaça. Não tem coisa pior do que bêbo, tem?”.

Raimundo nasceu em Porção, distrito de Chaval, região Norte do Ceará. A primeira profissão herdou do pai, era vaqueiro. “O mundo vai levando a gente e quando eu vi, tava aqui”. Mora hoje na cidade 2000 e os cerca de sete quilômetros que separam a casa do trabalho compõem o único percurso de sua rotina. É casado, “e muito bem casado”, tem três filhos homens e uma mulher. “E eu aqui sou o neto”, grita um gaiato que escuta a conversa. O Centro de Fortaleza de Seu Raimundo limita-se àquelas duas esquinas da Travessa. Quando muito, passeia pela Praça do Ferreira, três quarteirões à frente. Até para resolver as coisas ali perto, pede a um funcionário. “O Centro para mim é só trabalho mesmo”, resume. Para já, já acrescentar que o Raimundo dos Queijos se diverte muito no Raimundo dos Queijos. “Aqui é minha praia. Dá pra conversar, encontrar amigo, é bom demais! No dia em que por acaso não trabalhar, gosto de ficar em casa, Deus o livre de Centro”.

Fonte: Jornal O Povo

domingo, 3 de maio de 2009

O Resgate do maracatu

Mestre do Leão das Cordilheiras e Nação Carneiro Manso, de Glória do Goitá, também tiveram trabalho reconhecido pelo Minc

José Fernando da Silva saiu de Glória do Goitá há 12 anos com um objetivo claro: resgatar uma nação de maracatu e passar a viver dela, depois de ter passado a vida inteira em outras nações.


Assim como o Leão da Cordilheira, o Carneiro Manso passou anos parado. Voltou à ativa em 2004 e cresce a cada dia como referência cultural. Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press

Percorreu várias cidades da Zona da Mata sem sucesso. Não desistiu. Até encontrar o Maracatu Leão das Cordilheiras, em Carpina.

O herdeiro havia falecido e o maracatu estava mergulhado no marasmo há anos, pois a família não quis dar continuidade ao legado do mestre. "Procurei, me ofereci para tomar conta a partir dali, trazendo-o para Glória do Goitá e investindo tudo que podia", explica José Fernando, o Zé Duarte, diretor do Maracatu Leão das Cordilheiras desde 2006, cuja sede fica justamente dentro de sua pequena casa no bairro Nova Glória.

Aos 40 anos, Zé Duarte está ciente de sua juventude frente ao legado que data de 1946 do Leão das Cordilheiras. E não esconde a expectativa quando admite estar desempregado, vivendo exclusivamente do pouco que consegue com o carnaval e em datas festivas em cidades próximas. Ele foi o segundo contemplado em Glória do Goitá do prêmio Humberto de Maracanã - Culturas Populares do Ministério da Cultura.

Com apenas cinco pessoas na família para gerenciar o maracatu, confeccionar as roupas e cuidar do orçamento, a família de Zé Duarte se une por uma causa cultural. A mãe, Maria dos Prazeres, 58, aprendeu na marra a confeccionar peças usadas pelos caboclos-de-lança, baianas, reis e rainhas. Com os R$ 10 mil repassados pelo Minc, foi difícil fazer algo de peso, além de saldar dívidas de anos anteriores. "Se não fosse o prêmio, dificilmente teríamos as condições de agora para seguir em frente, era muita dívida. Teve gente que até nos ameaçou, foi muito ruim", explica Maria dos Prazeres.

Para cidades próximas, a família chega a cobrar R$ 5 mil às prefeituras por uma apresentação, montante a ser dividido entre os quase 80 integrantes quando o bloco sai completo, além de servir para zerar os custos - como bem explica a irmã Edvania Maria da Silva,professora da rede municipal e tesoureira informal do Leão das Cordilheiras.

Hoje eles dividem as atenções em Glória do Goitá com outro premiado do Ministério da Cultura, o Maracatu Carneiro Manso, fundado em 1950 e mais conhecido fora da Zona da Mata. Depois de 15 anos parado, o Carneiro Manso voltou às atividades apenas em 2004 com o trabalho de José Rinaldo da Silva, neto do fundador Manoel Francisco Correia. E a cada aparição eles mostram que podem voltar a ser a referência cultural de outros tempos, não apenas em Glória do Goitá, mas no estado inteiro.

Fonte: Jornal Diário de Pernambuco

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