quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Deus salve a rainha ... do maracatu



O Maracatu só existe por causa dela. Com roupa sofisticada e muito carisma, a rainha negra é o grande destaque do desfile na avenida Domingos Olímpio

Débora mantém viva a tradição da família, Laudemir cumpre o legado do mestre e Fátima vive nova experiência. Histórias distintas os levaram a encarnar um mesmo personagem. Rainha de Maracatu. No Carnaval 2010, eles prometem brilhar na avenida Domingos Olímpio. Segundo a tradição, índios, calungas, baianas, pretos velhos e batuqueiros saem pelas ruas em cortejo para a coroação de uma rainha negra. O maracatu torna-se um momento mágico de louvações, com danças e brincadeiras, graças à presença da matriarca real.

Conscientes da responsabilidade em comandar o cortejo, é preciso reunir carisma, glamour e força física. A consultora empresarial Débora Lopes, 23, é rainha desde a fundação do Maracatu Nação Fortaleza, em 2005. Ela ainda era criança quando começou a brincar. Ao lado da família, mantém viva a tradição. E passou por vários postos na corte até chegar ao personagem central.

Com o rosto pintado de preto, tranças e vestida com a fantasia do último Carnaval, ela mostrava que mulher também pode ser rainha. Antes, somente homens ocupavam o cargo. ``A mulher ganhou espaço em todos os segmentos. No maracatu não poderia ser diferente``, afirma. Ela acrescenta que as vestes pesadas não interferem na apresentação. ``Na hora que estou dançando não sinto o peso ou o calor. O sangue ferve e aguento tudo. É só emoção``, afirma.

Este ano, o Nação Fortaleza homenageia Bárbara de Alencar, com o tema ``Bárbara: luz da liberdade``. A roupa está nos ajustes finais, e envolta em segredos. ``Nunca me deixam ver o vestido antes. A emoção é ainda maior porque só vejo todo pronto na hora do desfile``.

Reis de Paus
No Maracatu Reis de Paus, a rainha é o fotógrafo Laudemir Nogueira, 45. Sua relação com o Carnaval também vem desde criança - desfilou pela primeira vez em 1967. ``Sou de uma época em que era tudo muito simples. Comecei como índio, e as costureiras pegavam as penas das galinhas no quintal, lavavam e aplicavam nas vestimentas``, relembra. De índio, passou para princesa e depois rainha.

O responsável pela transformação foi o fundador Geraldo Barbosa. ``Ele estava me preparando para ser rainha, mas não me contava seus planos. Lembro que ele dizia que eu não poderia rodar. Só que princesa roda e eu não entendia porque ele me proibia``. Há uns dez anos, veio a revelação: ``rapaz, você vai ser a rainha esse ano``, disse o mestre.

E o ofício é conduzido até hoje. Este ano, ele e os outros brincantes do Reis de Paus saem com o tema ``Preto velho de Angola``, para comemorar os 50 anos do Maracatu. Com joelheira de tensão, sapato alto e uma fantasia de quase 100 quilos, Laudemir é um dos mais antigos no posto real. ``É só colocar a fantasia de rainha que eu me transformo. Fico mais comunicativo, carismático e glamuroso``, classifica.

E-MAIS

VIDA DE RAINHA
> Primeiro Carnaval de Laudenir Nogueira (vestido de índio).

> Faz parte da indumentária da rainha: saia e blusa bufante, leque, jóias, peruca, esplendor e rosto negro.

> Para o rosto ficar negro, os integrantes do cortejo usam uma maquiagem à base de vaselina, óleo mineral, talco e fuligem de lamparina.

> Elegância, força física, envolvimento com o Maracatu, aptidões artísticas e carisma são elementos essenciais para ocupar o posto de Rainha de Maracatu.

> Antigamente, o cargo de rainha era ocupado pelo homem porque a mulher era proibida de participar do Carnaval. Além disso, a estrutura pesada das fantasias contribuía para que o brincante fosse homem.

> Eulina Moura foi a primeira mulher a assumir o cargo de rainha, no Maracatu Verdes Mares.

Fonte: Jornal O Povo

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Dona do samba e senhora da alegria



Seja na Praia de Iracema, no bar que lhe tomou o nome emprestado; seja na Marquês de Sapucaí, desfilando de baiana pela União da Ilha, Dona Mocinha é o retrato da alegria e da folia do nosso Carnaval. Misturando risos e lágrimas, ela conversou com O POVO sobre esta festa que é, ainda hoje, uma das suas maiores paixões


Iraci de Souza Batista nasceu em 24 de dezembro de 1935 numa casa localizada na Rua Padre Climério, 140, na Praia de Iracema. Filha de José Batista e Maria Amélia, foi o pai, sempre lembrado pela educação rígida, quem lhe deu o apelido que serviria para toda a vida, Mocinha. Era a forma dele dizer o quanto ela era prestativa nos afazeres de casa. ``Meu pai dizia assim: -Ai, que é uma mocinha-``, lembra, sem esquecer o orgulho.

Dona Mocinha (agora com letra maiúscula para reafirmar a nova identidade) foi uma entre os 24 filhos do casal, dos quais somente sete vingaram, ela, Isabel, Elisa, Alice, Francisco, Francisca e Iracema. Casou com apenas 15 anos e, logo no ano seguinte, foi mãe pela primeira vez: de Raulina, professora aposentada, que hoje ajuda a cuidar da mãe. O segundo viria aos 20 anos, Raulino, que é o responsável pelo Bar da Mocinha, montado na mesma casa onde ela nasceu. O bar que se tornou ponto de encontro da boemia de Fortaleza foi uma forma encontrada, há 31 anos, de aumentar a renda de recebia como funcionária da Secretaria de Saúde do Estado.

Hoje, aos 74 anos, mantém a alegria quando lembra dos seus muitos anos de Carnaval, embora as lágrimas insistam em aparecer de vez em quando. A memória falha às vezes e foge principalmente nas datas, o olhar fica vago, mas logo ela volta ao assunto e abre outro sorriso. Suas alegrias agora vêm dos filhos e dos netos Hilton, Ítalo, Haurison e Amélia, todos adultos. Enquanto conversava com O POVO, Dona Mocinha pediu uma pausa para tomar água e explicou: ``É que a gente conversou muito. Mas, eu gosto. Dou o maior dez pra uma conversa``.

O POVO & A senhora nasceu naquela mesma casa onde hoje funciona o Bar da Mocinha. Como foi a sua infância? Que lembranças traz daquela época?
Dona Mocinha & Pois, é. Eu sou de Fortaleza e nasci naquela casa. Eu nasci ali e andava de cavalo. Meu pai tinha dois cavalos. A gente passeava na casa... (risos). A gente ia na casa das ``cotrovia`` do meu pai (mais risos).

OP & E a senhora ia fazer o que lá?
Dona Mocinha & Ia deixar dinheiro e conversar. Eu tinha uns dez anos. Eu ia sempre com o meu pai e com a minha irmã.

OP & A senhora teve muitos irmãos. Tinha muita brincadeira dentro de casa? Como vocês se divertiam?
Dona Mocinha & Nós éramos sete. A Isabel, Elisa, Alice, que morava no Rio de Janeiro, e o Francisco já morreram. Eu sou a última, a caçula. Minha mãe me teve com 50 anos. [Por conta disso, Dona Mocinha chamava a mãe de Vozinha] Nesse tempo num tinha boneca amiguinha, não. A gente brincava de fazer bonecas com paus e madeiras. Eu chamava minha irmã mais velha, a Neném, de mamãe e ela tinha sete filhos. O nome dela é Francisca. Eu ia pra casa dela e brincada com os sobrinhos que eram da minha mesma idade.

OP & E desde pequena a senhora já gostava de Carnaval? Já brincava nessa época?
Dona Mocinha & Eu sempre gostei de Carnaval, mas não podia brincar porque o véi [o pai] não deixava. Ele não queria que eu brincasse.

OP & Por quê?
Dona Mocinha & Porque naquele tempo as meninas não brincavam assim não, né. Não era legal. Eu tinha uma irmã, que ainda é viva, a Iracema & é Iraci e Iracema, as duas últimas & que já brincava. Ela gostava de namorar...

OP & E a senhora acompanhava?
Dona Mocinha & Não, no namoro, não. Eu brincava o Carnaval, e ela, não. Ela ficava só no namoro. Eu comecei a gostar de Carnaval quando ainda era mocinha, nova. Porque meu pai tinha uma mercearia e por lá aparecia Carnaval. Tinha a Corda Bamba, que era um bloco, que desfilava perto da minha casa.

OP & O que a senhora lembra das suas primeiras festas de Carnaval?
Dona Mocinha & Nessa época, não tinha negócio de rabo de burro, nem nada. A gente ia era dançar. Rabo de burro é os tarados, sabe? (risos)

OP & Quem lhe deu esse apelido de Dona Mocinha?
Dona Mocinha & Ah! Esse aí é bom. Olhe, eu comecei com esse apelido porque meu pai trabalhou 42 anos na alfândega, ali perto da praia. Ele tinha um depósito de madeira e eu ia ajudar junto com a minha sobrinha que é da minha idade, a Juraci. A gente ia ajudar ele na alfândega e também brincava. E quando meu pai chegava, eu dava a chinela dele, dava a toalha. Eu fazia isso por ele e meu pai dizia assim: ``Ai! que ela é uma mocinha``, porque eu ajudava ele dentro de casa. Eu ia buscar a roupa dele e ajudava nas coisas de dentro de casa. ``Minha filha é uma mocinha`` [dizia o pai]. Aí o apelido ficou e eu fiquei Mocinha.

OP & A senhora casou cedo e logo teve seu primeiro filho. Como a senhora conheceu seu marido? Como foi o namoro de vocês?
Dona Mocinha & Me casei com 15 anos e tive minha primeira filha [Raulina] com 16 e o Raulino eu tive com 20 e só são eles dois. E com 23 anos fiquei viúva. Naquele tempo, a gente não namorava, né. E aí eu casei cedo. O nome dele era Raimundo e ele muito bonito. Lá em casa, nós tínhamos uma mercearia e ele ia lá casa junto com uns meninos que iam dançar no bazar de música. Tu te lembra do bazar de música? (risos) Lá, eu conheci o Raimundo. Ele ia me buscar no colégio. Era assim, de 15 em 15 dias, ele passava na caminhonete em que ele trabalhava com comércio e ele me pegava pra namorar um pouco. Mas era muito difícil namorar.

OP & Com sete anos de casada, a senhora ficou viúva. Como foi essa época pra senhora? Quais foram as dificuldades?
Dona Mocinha & Foi um desastre. Com a perda dele, eu fiquei cuidando dos filhos. Eu não trabalhava nessa época. Tive que voltar a morar com meus pais. Levei meus dois meninos. Foi o maior desastre da minha vida (baixa a cabeça e chora).

OP & Vamos passar para uma parte mais feliz. Como era tomar conta do Bar da Mocinha?
Dona Mocinha & Eu trabalhei 30 anos na Secretaria de Saúde do Estado. As enfermeiras que trabalhavam comigo iam tudo lá pra casa. Eu fazia 20 quilos de panelada toda sexta-feira. Era uma panelada boa [Dona Mocinha toda ênfase no ``boa`` e ri]. Hoje eu não posso comer panelada. Eu fazia sarapatel, feijão verde. O feijão verde eu ainda faço com muito queijo e maxixe. Iche! que o meu feijão é tão querido! Eu tinha uns 25 anos quando abri o bar. Tomava conta sozinha. Eu já trabalhava na Secretaria de Saúde e era muito amiga das enfermeiras. Dona Joilma, dona Jarina... Os filhos dela que iam lá em casa tomar uma cervejinha. Aí eu não cobrava, não.

OP & A senhora já nasceu na Praia de Iracema. O que a senhora mais lembra do bairro quando a senhora era mais nova e o que mais mudou até hoje?
Dona Mocinha & Olha, a Praia de Iracema... A gente andava ali na João Cordeiro, andava na Gonçalves Ledo, por onde hoje é o Dragão do Mar. Eu tomava banho cinco horas da manhã pra ninguém ver minhas pernas, porque o meu pai ``ignorava``, não gostava. Ia sempre com ele. Meu pai tinha muito ciúme da gente. Mas, ninguém ouvia falar em crime. Prostituição sempre teve, mas era menos. Ninguém ouvia falar nessas coisas de hoje, não.

OP & Mas a senhora ainda gosta da Praia de Iracema?
Dona Mocinha & Gosto. Ainda é a minha cara. As casas eram muito bonitas. Era coisa antiga, né. Não tinha essas coisas desses apartamentos, não. Ainda acho bonito, mas era diferente.

OP & E como era o Carnaval da Praia de Iracema nessa época?
Dona Mocinha & Tinha escola de samba. Eu brincava só de longe, porque o véi [pai] não deixava, não. Nessa época, criança, não [podia brincar]. A festa era nas ruas. Eu gostava de serpentina que ninguém comprava. Os ``inchirido`` dava e eu soltava serpentina e confete. Os namorados da minha irmã & ela era muito namoradeira, ela era o cão. Agora, ela era bonitona & me levavam pro carnaval. Era muita gente na rua. Tinha a escola Bamba, os Camarões, tudo pela Praia de Iracema. [O bloco] vinha do [bairro] Meireles e ia ali pertinho da nossa casa. Tinha muita música, marchinha de Carnaval... A gente ainda lembra das marchinhas. Tem muita marchinha que toca ainda hoje. Eu ainda gosto do Carnaval, mas antes era melhor porque não tinha tanta violência. Não tinha.

OP & Em 1979, a senhora fez parte da criação da escola de samba Girassol. Como era essa escola?
Dona Mocinha & Ah! Foi a primeira vez que eu saí de baiana. Já ia me esquecendo da Girassol. Eu fazia as minhas roupas & nesse tempo eu costurava. Eu bordava na mão e fazia a minha diferente das outras. Tinha decorador, estilista, tinha o Praxedes, Decartes Gadelha, que animava. Eu gostava de costurar pra todo mundo. Eu tomava conta das baianas. Na minha roupa tinha muito brilho, dourado, tinha chapéu. Ainda tenho os retratos em casa. Tinha também a bateria, a comissão de frente...

OP & Além do Carnaval de Fortaleza, a senhora também brincou no Rio de Janeiro. Como foi a sensação de desfilar lá?
Dona Mocinha & Eu comecei a me interessar pela ala das baianas. Nós ficamos amicíssimos. Desfilei lá pela primeira vez na União da Ilha, já de baiana. Ave Maria! Era uma alegria sem tamanho. Eu costurava pra fora e passava o ano juntando dinheiro. Nesse tempo meus filhos já tinham terminado de estudar e já era depois do bar. Depois eu desfilei na Caprichosos de Pilares, Império Serrano, Portela, Grande Rio.

OP & Mas qual é a preferida? A escola do coração?
Dona Mocinha & União da Ilha. Se eu lhe disser que eu recebi uma camisa lindíssima que mandaram pra mim e ta lá em casa. Todo ano eu recebo. Eu visto a calça branca e minha blusa. Eu rio e choro toda vida que lembro.

OP & Como era a sua preparação cada vez que ia lá? Sei que a senhora fez muitos amigos no Rio.
Dona Mocinha & Ave Maria... (chorando). Quando eu ia, preparava as coisas que o Wilson e o Cláudio gostavam. Feijão verde, que eu fazia lá, queijo, cachaça. Levava tudo pra lá e fazia a festa. Eu também fui até a Globo, ali onde a Fátima Bernardes dá o Jornal Nacional.

OP & Quem conseguiu pra senhora uma vaga na Ilha foi o Carlito Pamplona. Como a senhora pediu a ele?
Dona Mocinha & Eu disse assim para o doutor Carlito: ``Arranje pra mim pra eu desfilar na União da Ilha``. E ele dizia: ``Mocinha, é tão difícil``. Aí eu dizia: ``Doutor Carlito, que difícil coisa nenhuma. Dê seu jeito``. Aí pronto, eu fiquei nessa moleza e acabou dando certo. [Ela para um pouco e lembra] Eu dei todas as minhas fantasias pras escolas de samba daqui. Eu doei. Foi a maior besteira e não foi. Eu trazia tudo, até o chapéu. Eu peguei amizade com o dono de uma loja daqui e ele me dava as contas e eu fazia os colares, brincos.

OP & Quem mais a senhora conheceu enquanto desfilava no Rio de Janeiro?
Dona Mocinha & Lá eu conheci a Elke Maravilha. Eu tenho até um retrato com ela. A Elke Maravilha é uma louca. É muito engraçada, divertida. Todo dia ela usa um batom. Eu dizia assim: ``Elke tu toma uma cervejinha?``. Ela dizia: ``Não, Dona Mocinha`` & [o nome] Dona Mocinha pegou muito, viu & ``Eu tomo é whisky``. Eu fui com amigos do pagode (do Bar da Mocinha). Tinha até um doutor sem-vergonha que implicava comigo porque eu saia na ala das baianas. O doutor Carlito Pamplona dizia assim pra mim: ``Mas Dona Mocinha, como é que a senhora já arranjou amizade com todo mundo na Ilha?``. Ele ficava bestinha! Eu dizia: ``Doutor Carlito, o senhor não sabe fazer o que eu faço!``, que era costurar.

OP & Ainda hoje sua casa é um ponto de encontro no Carnaval e no Pré- Carnaval de Fortaleza. Do que a senhora gosta mais?
Dona Mocinha & Eu sempre vou lá. Eu tô aqui [na casa do filho, em Iparana], mas no Carnaval eu tô lá. Eu não posso ouvir uma música que fico dançando. E outra coisa, quando eu chego lá eles sabem o samba que eu gosto, que é o da União da Ilha. Agora eu gosto mais do Pré-Carnaval, porque a gente fica mais alegre. Vai é gente por causa de mim. Meu filho diz assim: ``Mamãe, o povo todo atrás da senhora. Cadê a Mocinha? Cadê a Mocinha?``.

OP & A senhora gostou da homenagem que a Prefeitura fez à senhora no ano passado? Quando fez da sua casa um dos polos do Carnaval?
Dona Mocinha & Gostei, gostei. E eu nem tinha votado nela [Luizianne Lins], mas que eu gostei, gostei. Eu fiquei muito feliz. Foi muito bonito. Fizeram mais de mil máscaras com o meu rosto

OP & E a senhora gostou das máscaras?
Dona Mocinha & Não. Eu não achei bonito. Eu não gostei porque eu não sou feia daquele jeito, não (e gargalha).

OP & Ao longo dos anos a senhora ficou conhecida como uma referência para o Carnaval daqui de Fortaleza e já recebeu várias homenagens. Tem alguma delas que a senhora goste mais?
Dona Mocinha & Ai! O Carlinhos Palhano fez uma música em minha homenagem. Eu achei muito bonita. A música ficou mais bonita que a máscara.

OP & Hoje, com 74 anos, a senhora ainda está com energia e faz questão de estar presente no seu Bar durante os dias de Carnaval. O que a festa representa pra senhora?
Dona Mocinha & Ah, o Carnaval eu não largo, só quando morrer. Tem até um ditado que eu dizia quando ia botar uma dose e o pessoal pedia o choro: ``Em casa de samba não tem choro``. Ele representa muita coisa porque pra mim não existe sem Carnaval. Representa alegria, lembranças, recordações. Quando eu chego no Rio, é a mesma coisa. Esse cartaz todo que eu tenho aqui, eu tenho no Rio. A mesma atenção.

OP & Quem conhece a Dona Mocinha, conhece como uma pessoa alegre. A senhora é alegre? A que atribui sua alegria hoje?
Dona Mocinha & Eu sou alegre. Pra mim, não tem tristeza. Eu toda vida fui feliz. Logo, todo mundo gosta de mim e eu gosto de me sentir querida. Hoje, o que me dá felicidade são meus netos, meus filhos, que são os dois que eu tive. Eu gosto muito dos meus dois filhos e meus quatro netos. São eles que me dão alegria... E meu Carnaval, claro.

PERFIL

Iraci de Souza Batista nasceu em 24 de dezembro de 1935, na Praia de Iracema, na mesma casa onde, há quase 32 anos, fechados em agosto, ela montou o Bar da Mocinha. Reduto da boemia conhecido pelas suas rodas de samba, o bar é uma das suas maiores paixões. A outra é o Carnaval que, desde pequena, quando ganhou o apelido de Mocinha, ela via de longe, sob os olhos do pai José Batista. Casada aos 15 anos, mãe de dois filhos e viúva aos 23, ela sempre procurou manter a alegria como marca registrada. Também integrante da ala das baianas da União da Ilha do Governador, escola tradicional do Rio de Janeiro, Dona Mocinha é apaixonada por Fortaleza e uma das principais brincantes e incentivadoras do Carnaval da Capital

Fonte: Jornal O Povo

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Da Praça José de Alencar até os espaços da Lagoinha



Em direção ao oeste, segue a Praça José de Alencar ou Praça do Patrocínio, em homenagem a imagem de Nossa Senhora do Patrocínio, da Igreja do Patrocínio, cuja imagem foi presente do ilustre português, meu bisavô, Joaquim Dias da Rocha, trazida de Portugal, cuja entronização se deu quando o pároco Padre Barbosa.

Relíquias do lugar

Seguindo a rua General Sampaio, em direção à rua Guilherme Rocha, há várias casas residenciais antigas; a oficina de obras de artes do italiano exímio escultor, Sr. Vicente Raya; Dr. Edmundo Monteiro Gondim; Família Guedes; Família Justa; e, na esquina da rua Guilherme Rocha, o maior ponto de atração para os apaixonados por músicas - "Bar Americano" de propriedade do Sr. Pedro Benício Sampaio, famoso por seu caldo de cana com pastel feito na hora, aluá, canjica e pamonha, tapioca e pão doce. No outro lado, esquina da rua General Sampaio e rua Guilherme Rocha - Antiga rua do Ouvidor (lado nascente), assoma um pequeno edifício, onde funcionou a Caixa dos Ferroviários, que durante longos anos serviu como pagadoria das pensões às viúvas dos ferroviários.

Em frente, na outra esquina, um casarão que serviu de residência do Governador do Estado, sede do Ministério do Trabalho, IAPAS, INPS, INSS, hoje Centro de Saúde José de Alencar. Seguindo pela rua Guilherme Rocha, a Igreja do Patrocínio; vizinho, antes de alcançar a esquina da rua 24 de maio, um sobrado onde residiu o Sr. Joaquim Barbosa Maia, irmão do Sr. Lopicínio Maia, donos da Garapeira que vendia especial gengibirra na rua 24 de maio esquina com rua São Paulo; vizinho ao sobrado, a mercearia de um senhor, conhecido por Dente de Ouro, na esquina da rua Guilherme Rocha com 24 de Maio, hoje Farmácia Patrocínio. Frente à mercearia do Sr. Dente de Ouro, existiu o prédio que serviu de residência do Governador Acioli, depois Fênix Caixeral, Lojas Brasileira, hoje Shopping Metrô.

Folhas de calendário

Pelo outro lado da rua 24 de Maio com rua Guilherme Rocha, a Escola de Datilografia da Sra. Nenen Lopes, irmã do Desembargador Daniel Lopes, cujo prédio tinha um sótão com várias janelinhas, descaracterizava o andar superior, dando as janelinhas impresso de vigílias. Indo pela rua 24 de Maio (lado da sombra), em direção à rua Liberato Barroso, várias residências de pessoas gradas da época, como as famílias: Mamede, Ari Maia Nunes, José Walter Cavalcante, as célebres professoras de línguas - Adelaide e Ifigênia Amaral, filhas de abastados portugueses, cujas aulas eram ministrada pelas mesmas na própria residência, predominando os idiomas inglês, francês e espanhol.

De conversa em conversa

No mesmo lado, destaca-se ainda a residência do Dr. Thomas Pompeu Gomes de Matos e Maria de Jesus, que cultivava a mais seleta e concorrida reuniões de calçada, onde para lá se reunia a fina flor da sociedade fortalezense, por ser também agradável o "papo" levado a efeito na "roda da calçada" que contava sempre com a presença dos doutores Araken Carneiro, Suzete, Vicente Silva Lima, Ari Maia Nunes, Prof. Gomes de Matos, Clodomir Girão; e, na esquina da rua 24 de Maio com rua Liberato Barroso, o prédio do Sr. Mazine, proprietário do Posto de Automóveis Mazine e da primeira concessionária da Gás Butano, após, transferido ao Sr. Edson Queiroz, que impulsionou esse portento econômico. Todos esses imóveis foram demolidos para dar lugar ao famoso "Beco da Poeira", local para comércio e de vendedores ambulantes. Agora voltemos ao lado da Praça José de Alencar, esquina da rua 24 de Maio com rua Liberato Barroso, imóvel de propriedade do empresário Pedro Philomeno Ferreira Gomes, depois deu lugar ao Lord Hotel, considerado o primeiro edifício residencial de Fortaleza dos anos cinquenta.

A Praça José de Alencar também foi palco de grandes manifestações públicas, comícios presidenciais, concentrações religiosas, pregações evangélicas, feira de amostra, Parque Shangai com o famoso "tira prosa", que consistia numa grande haste de ferro com dois barcos acoplados no meio desta, onde acomodavam dois (2) casais em cada lado (espécie de barco), arremessando em direção do alto, até emparelhar-se fazendo ligeira parada no alto, o que causava grande suspense aos participantes da brincadeira, por sentir mal-estar, provocando vômitos, frouxidão urinária aos menos avisados e tonturas aos mais espertos cuja duração era de uns cinco minutos, assim aproximadamente.

Praça da Lagoinha

Praça seguinte, em direção do bairro Jacarecanga, era a Praça da Lagoinha - assim chamada por ter ali existido um pequeno lago. Nas esquinas das ruas Guilherme Rocha e Tristão Gonçalves, existiram as Serrarias Viana e a do Sr. Alfredo Lopes; vizinho em direção À rua Guilherme Rocha, casas de gradas famílias - Sr. Raimundo Arruda - "Arrudinha", casado com D. Irene Barbosa Arruda, educadora laureada e Diretora da Escola Normal Justiniano de Serpa. Também ali residia a família do Sr. Clóvis Medeiros e mais tarde as irmãs professoras Adelaide e Ifigênia Amaral, poliglotas conhecidas na Cidade, pela exuberância do aprendizado linguístico, guardando distância ou prevenidas contra seus alunos, porque sabiam do seu grau de talento cultural.

Chegando à esquina da rua Guilherme Rocha com Avenida do Imperador (lado do sol), funcionou a mercearia do Sr. Antônio Bandeira de Moura, composta de uma família de cantores nacionalmente conhecidos, como as irmãs vocalistas Cleide e Adamir Moura e os cantores Carlos Augusto Moura e Henrique Moura, depois se instalou a "Padaria Ideal" dos português J. Neto Brandão - Jaime, João e Jorge.

Chácaras e chistes

Na outra esquina da rua Guilherme Rocha com Avenida do Imperador (lado da sombra), via-se a casa do médico de renomeada Newton Gonçalves, depois Hotel Imperador. Atravessando a rua Guilherme Rocha na outra esquina, a Farmácia São Francisco; seguindo pela Avenida do Imperador em direção à rua Liberato Barroso, a aprazível chácara do Dr. Eduardo Henrique Girão, casado com a Sra. Maria de Jesus Dias da Rocha, filha do comerciante português Frederico Dias da Rocha e Maria Umbelina Pontes, sem filhos.

Ao lado, a residência da professora de inglês - Miss Sanders; Casa de Luzanira Franco e seu pai Sr. Franco; residência do Sr. Antonio Galdino e vários filhos, sendo aproximadamente nove (9) filhas e um (1) filho, conhecido pela alcunha de Bebê Chorão e, por não terem sido contemplados pela beleza, a meninada inventou a seguinte quadrinha, e ao se aproximarem da casa começavam evocados assim o verso, aqui em destaque: (Texto I)

Na entrada que dava acesso à Casa de Saúde Dr. César Cals, existiu um grande nicho bem emoldurado, onde era vista a imagem de tamanho natural de São Francisco de Assis, cuja redoma resguardava a imagem e no solo, em recanto próprio os fiéis que diariamente acendiam velas, prostrando-se aos pés da imagem, rezavam contritamente, faziam seus rogos, pedindo perdão pelos pecados e imploravam graças.

Quem se dirigia à Casa de Saúde para visitar os doentes, fazia suas orações em favor dos enfermos ali internados. Era uma verdadeira demonstração de fé e penitencia no Santuário de São Francisco da Casa de Saúde Dr. César Cals, onde a devoção símbolo maior da cristandade tomava inabalável lugar no espírito de cada um, numa prova de obediência ao Pai Celestial.

Presença do sagrado

Assim Fortaleza mantinha aquela fidelidade e respeito aos ritos e costumes católicos. Por ser mesmo provinciana, podiam ser vistas as pessoas, que volteavam a Praça da Lagoinha, obedecendo aos círculos formados, onde podiam transitar três camadas de frequentadores.

Tudo a começar pelo primeiro circulo das senhoritas da sociedade que por lá faziam seu desfile em companhia de amigos onde também se marcava encontro para os apaixonados rapazes que iam até lá para tirar "linha" como era conhecido o que se chama "paquera" para culminar em namoro.

Vida provinciana

Na segunda alameda ou círculo os rapazes ficavam de pé, observando a passagem das moçoilas para lhes dirigir galanteios e iniciar uma aproximação para entabular uma "lera" e sentarem nos bancos da avenida para ouvir os dobrados das orquestras da guarda policial, que harmoniosamente dos coretos soltavam os mais variados sons de evocações e saudações feitas por militares, como epopeia de vitórias e de glórias dirigidas ao futuro.

TEXTO I

Na avenida do Imperador,

Não passa mulher sem homem

As filhas do Antônio Galdino

Estão virando lobisomem

E na pisada, tum, tum, tum!

FIQUE POR DENTRO
JOSÉ DE ALENCAR
A Praça José de Alencar é uma homenagem ao escritor, advogado, deputado e ministro cearense José Martiniano de Alencar, um dos expoentes do Romantismo. Sua estátua, localizada no centro da praça, foi iniciativa do escritor e enxadrista Gilberto Pessoa Câmara, irmão de Eduardo Câmara, Maria Câmara (Maroquinha), religiosa Irmã Estefânia da ordem das capuchinhas; Mardonio Câmara, Nair Câmara, e Dom Helder Câmara. Entre as ruas 24 de Maio, General Sampaio, Guilherme Rocha e Liberato Barroso - onde está localizado o Teatro José de Alencar, fundado em 1910, com estrutura metálica importada da Escócia - do lado, esquina das ruas Liberato Barroso com Guilherme Rocha, existe um jardim projetado pelo paisagista Burle Marx, anteriormente era o Centro de Saúde do Estado do Ceará, ocupando grande parte da rua General Sampaio (lado da sombra), onde tiveram inicio os principais consultórios médicos no próprio Centro, para diagnosticar as diversas doenças que se podia acometer. Naquela época a medicina por sua natural precariedade, guiava-se pela intuição da própria doença.

Fonte: Jornal Diário do Nordeste

A paisagem urbana e o quadro social



Na direção da rua Guilherme Rocha para o bairro Jacarecanga, estava a Praça Fernandes Vieira ou Praça do Liceu - hoje presta honrosa homenagem ao grande mestre - o imortal Gustavo Barros o a quem cabe a honraria do nome da Praça.

De lá eram vistas as mais elegantes residências da época dos anos 20 a década de 80.Na entrada ao lado do Liceu, a Corporação do Corpo de Bombeiros, que dá início a rua Oton de Alencar - vizinho o antigo Grupo Juvenal Galeno e Faculdade de Ciências Econômica

Havia aí a residência do Prof. Domingos Braga Barroso, ex-diretor do Liceu, dono de uma escolinha que funcionava em sua própria residência.

Da rua Oton de Alencar até a rua Guilherme Rocha, viam-se vários palacetes luxuosos, cujas originalidades diversificadas seguia o estilo pessoal do grande arquiteto - Dr. Emilio Hinko (húngaro de nascimento), que marcou sua personalidade artística com belos bangalôs, chegando a construir dentre outros o Excelsior Hotel, único prédio de seis andares construído genuinamente de alvenaria com vigas de trilho de ferro que garantem até hoje a segurança do Edifício Excelsior.

Esse edifício serviu por muitos anos como hotel - Excelsior Hotel, salão de visita para grandes personalidades que aqui aportavam para gerir as mais variadas missões de negócios, culturais, artísticas, cantores, políticos, religiosos ou qualquer atividade a ser tratada por pessoas de alto apreço.

Por último abrigou por longos anos de residência do casal - Pierina e Emilio Hinko, transferindo a residência do casal para Av. Antonio Justa, próximo à Beira-Mar, com a canção de suas ondas em espumas.

Na Praça Gustavo Barroso, antiga Praça Fernandes Vieira e Liceu, esquina da rua Oton de Alencar e rua Guilherme Rocha, existia a casa do Sr. Cecil Salgado. Vizinho pela rua Guilherme Rocha a Capelinha e Externato Jesus Maria José, ambos com os mesmos nomes.

Tecendo minúcias

Em frente à casa do Sr. Cecil Salgado, na outra esquina era residência de Bruno Miranda; vizinho funcionou o Hospital São João, hoje Instituto Nacional do Seguro Social - INSS; chegando na esquina da rua Guilherme Rocha esquina com a Av. Philomeno Gomes, residência do Dr. Pedro Sampaio, avô da nossa ilustre jornalista Regina Marshall.

Em frente à casa do Dr. Pedro Sampaio, existia o casarão do Sr. Pedro Philomeno Ferreira Gomes, hoje Edifício Pedro Filomeno; do outro lado, na Av. Philomeno Gomes em direção a rua Carneiro da Cunha, existia a residência do Dr. Luis Moraes Correia, depois Serviços de Irrigação Federal; vizinho, residência do ex-governador Dr. Luis Flávio Marcilio; mais adiante, a família Duarte Vidal; e, outras residências, até alcançar a entrada principal do internato Bom Pastor.

Praça dos Mártires

É considerada uma das principais praças de Fortaleza. Em 1940, foi reformada nos moldes do Passeio Público do Rio de Janeiro, no estilo neoclássico. A Praça dos Mártires, seu nome atual, é tombada como patrimônio histórico nacional. Situado entre as ruas Barão do Rio Branco, Dr. João Moreira e Floriano Peixoto, ao lado do Forte de Nossa Senhora de Assunção - Comando da 10ª Região Militar.

Para lá se dirigiam gradas famílias, para assistir às retretas que levavam a efeitos nas diversas praças sob o Coreto no recanto da mesma, onde os músicos das guarnições da Polícia Militar, Exército e Aeronáutica, se revezavam semanalmente para as tradicionais retretas.

De olhar em olhar

O Passeio Público foi a primeira praça a promover tais eventos, onde moças e rapazes marcavam seus encontros para iniciar a manifestação e apreço com olhares, acompanhando os passos dos jovens que rodeavam as primeiras alas dos passeios, depois de longos e persistentes cumprimentos perguntavam se poderiam acompanhar para dar umas voltas em redor da praça. A permissão por parte da jovem era abertura em favor do jovem que poderia, daí, tomar uma admiração no começo de namoro, mas só teria o consentimento após dizer qual a família, de quem era filho, parente, seus hábitos, enfim, dar a linhagem familiar e ser submetido ao crivo da família.

Por ser a praça lugar de destaque, todos se vestiam a caráter para o ambiente. Os homens trajados de chapéu de palhinha, veludo, chapéu cubano, paletó de caruá, sapato bico-fino de cor branco ou telha, marca Polar, Belmont, Clarck, Scatamaki ou verniz de cor preto com salto carrapeta, de couro de bezerro alemão, de couro de cobra e jacaré, vendido na sapataria Clarck, vizinho a Leão do Sul, depois sapataria Belém da família Capelo. Tudo isso fazia um sucesso nos salões dos clubes Iracema, Diários, quando exibiam seus trajes de paletó branco S-120, almofadinha, jaquetão e combinado preto e casimira creme.

Da arquitetura

Nos quarteirões (quadra) da rua Dr. João Moreira (antiga da Misericórdia) entre as ruas Floriano Peixoto até Barão do Rio Branco, havia as elegantes residências, a começar pelo do cônsul da Inglaterra Sr. Charles Matheus e D. Helena, filhos, a família Liebmann, a casa de n.º 243 do Sr. João Torres Câmara Filho, onde nasceu Dom Helder Câmara, família Bulhões Ramos, casa de aprimorada fachada pintada de vermelho escarlate, ricamente elaborada em alto relevo, cujas exuberantes esfinges em forma de arabesco, contrastada pela cor, prendia a atenção das pessoas que por ali passavam admirando aquela majestosa fachada, cujos degraus da escada da entrada principal, feita de especial mármore da codade de Carrara, davam aspecto senhoril, denotando diferença a da fachada e platibanda das demais casas daquela quadra.

Praça dos Leões

Entre as ruas General Bezerril, São Paulo, Conde D´Eu e em frente a mais antiga igreja de Fortaleza, Igreja do Rosário, localiza-se a Praça General Tibúrcio, cujo centro se encontra o columbário dos restos mortais desse general, onde se conserva ad eternum a homenagem aquele brilhante militar no largo ou pátio do Palácio do Governo, posterior a 1856.

É conhecida popularmente pelo nome de "Praça dos Leões" pelos monumentos em forma de leões que fazem parte de sua ornamentação. Anos atrás foi conhecida por "Praça do Artista", do "Artesão", por tentativa valida da Secretaria de Cultura de transformar um dos recantos da Praça em ponto de reunião da classe dos artistas e artesãos, ideia que não surtiu qualquer efeito.

Hoje, no pátio da Igreja do Rosário, ao lado da Academia Cearense de Letras, por iniciativa da Secretaria de Cultura do Estado, encontra-se sentada em um banco da praça a estátua da grande imortal, escritora Rachel de Queiroz, a mais alta e significativa expressão da literatura brasileira, de grande força narrativa.


O Bom Pastor: resquícios dos valores morais de uma época

No internato Bom Pastor, de entrada sombria, se refugiavam as pessoas que tinham desviados suas condutas. Aí eram lançadas, para não causarem vergonha à família, até chegarem ao esquecimento da sociedade, mas que a boca miúda segredava sigilosamente todo fato ocorrido, tudo proferido sob forma de "cochicho" ou "ao pé de ouvido", evitando que se propalasse ou transpirasse o desvirginamento de alguma moça que dera um "passo errado" - e deveria s ser punida, sob forma de expurgo para reparar o horroroso e repugnante cometimento de desonra, ultrajando ou maculando o bom nome da família, nome este a ser reparado, muitas vezes pagando com a própria vida.

Depois, com o passar do tempo, as internas do Bom Pastor, já purgada a culpa, aprendiam, sob orientação das irmãs religiosas, ofícios domésticos, como bordar, costurar e outras atividades normais. Saíam para enfrentar a sociedade como quem saía do presídio após ter pago a pena por "mal cometido"; muitas vezes, quando mães, amais poderiam transpirar quem eram os pais da criança para não manchar ainda mais o nome da família. As moças se cobriam de roupa preta, lenço na cabeça, e, nas ocasiões das missas, teriam que usar véu no rosto, encobrindo a face.

Fonte: Jornal Diário do Nordeste

Fortaleza: uma cidade e suas praças



Vale a pena recordar nossa querida Fortaleza dos tempos que já se foram, deixando em cada um que acompanhou, vivenciou, sentiu e soube desfrutar momentos que enchiam o coração de prazer, essa satisfação vinda do íntimo de cada um de nós amantes da terra da Luz. Caminhar pelas ruas do passado, descrevendo-as, com suas praças e monumentos, usos e costumes, eis o motivo - a viagem - central dessa edição.

AH! FORTALEZA QUE VIVI NOS TEMPOS QUE JÁ SE FORAM DEIXANDO APENAS LEMBRANÇA, E, PODER AGORA, COM OLHAR VOLTADO AO PASSADO, MAREJANDO OS OLHOS, SENTINDO A ARDENTE SAUDADE OFEGANTE NO PEITO O VAZIO DOS VIVIDOS INSTANTES DO DIA A DIA NUMA METRÓPOLE ONDE QUASE TODOS SE CONHECIAM E PARTICIPAVAM DAS MESMAS EMOÇÕES QUE GARANTIAM O SENTIMENTO INFORME DOS SEUS HABITANTES.

Os suspiros do eu

Ah! Tempos passados! Que lembranças não se apaguem dentro de cada um - e que continuem no escaninho de um passado não tão remoto - para que possam ainda transmitir um pouco do animado, acompanhando e fazendo nostalgia nessa urbe de hoje, transformada em grande metrópole! Que deixe esvair pelo passar dos tempos velhas lembranças que ainda se aninham junto ao peito, impedindo a invasão do inimigo - Alzheimer - para que dele não se apodere inesperadamente, invadindo-o esse cabedal intransferível e inalienável.

Cores e sons

Da Fortaleza de outrora ficou a imagem da beleza das antigas ruas e avenidas: os canteiros centrais, divididos por frondosos oitizeiros, que nos abrigavam, com suas sombras, amenizadas pelos ventos que sopravam enfurecidos, com luar prateado nas noites, penetrando por entre os arvoredos, projetando estrelas que tapetavam o chão chapiscado de luz da lua, até o amanhecer do dia, despertando os pássaros, nos ninhos de tenra plumagem. Assim, Fortaleza acordava, risonha, embalada pelos maviosos cantos dos pássaros e do repetido do trinado gorjeio no alto das frondosas árvores.

Praça do Ferreira

Essa é uma quadra a começar pelo lado poente da rua Major Facundo, com rua Guilherme Rocha, em direção da rua Liberato Barroso. Bem na esquina, ficava o Café Riche, depois a Loja Broadway, do Sr. Alberto Bardawil, depois loja Tok Discos. Vizinho, com uma porta estreita, funcionou um armarinho, para venda de gravatas, camisas, lenços, canetas e relógio, depois Rei das Canetas.

Cruzando ruas

A seguir as Lojas Sloper (filial do Rio de Janeiro), depois Banco Mercantil do Brasil. Depois, vinha o Cine Polytheama, dos irmãos Rola, hoje Cine São Luís, geminado ao prédio que serviu de escritório da Empresa Ribeiro, de propriedade do Sr. Luis Severiano Ribeiro, hoje com rua lateral dando acesso à rua Barão do Rio Branco.

Mais adiante a Pharmacia Pasteur - Estabelecimento Eduardo Bezerra, hoje lojas Marisa e Farmácia Avenida; ainda o antigo Cine Majestic e Bar, com cadeira de pés de ferro e pequena mesa de mármore, com música ao vivo a cargo do pianista e compositor Mozart Gondim Ribeiro, tio dos estimados amigos Humberto, Heitor Filho, Haroldo e Heloisa Diogo Ribeiro, frequentado por expoentes da cidade, como Prof. Raimundo Gomes de Matos, Quintino Cunha, Dolor Barreira, Olinto Oliveira, Heribaldo Costa, Álvaro Costa, Des. Leite Albuquerque, Lauro Maia, Des. Ubirajara Caneiro, boêmio e poeta Cid Neto. Era um imponente edifício de 4 (quatro) pavimentos que pegou fogo na década de 40; após a demolição, funcionou a Loja de Variedades, e, Lojas 4.400, hoje Lojas Riachuelo e Duda´S Burger; Farmácia Oswaldo Cruz - de propriedade de Edgar Rodrigues; no andar superior da Farmácia Oswaldo Cruz - o escritório por mais de 50 (cinquenta) anos, de um dos mais brilhantes e atuantes advogados do Ceará, Olinto Oliveira (pai do meu amigo Olinto Filho).

Com ele trabalhavam, os ilustres causídicos - Professor Walmir Pontes, Professor Álvaro Costa, e os advogados Oscar Pacheco Passos e Moacir Oliveira, esse imóvel pertencia à D.ª Pierina Hinko; vizinho, uma casa térrea de 2 (duas) portas - O Foto Sales, de propriedade do Sr. Tertuliano Sales, mais tarde de seus sucessores.

Retrato do pitoresco

Em imóvel de igual formato de rótula - a famosa Garapeira "Mundico", com refresco de pega-pinto, aluá, e, capim- santo, murici, jenipapo, cajá-imbu, cajá, caldo de cana, cajuína, tamarindo, coco babão, refresco de ervas "quebra pedra" e "vassourinha", muito procurado pelos visitantes da nossa cidade por ser medicinal.

Em tempos mais recuados, a mais famosa garapeira do "Bem-Bem", especialista na excelente bebida conhecida por "jinjibirra" ou "gengibirra", muito apreciada por todos os fortalezenses, fermentada, feita de frutos, gengibre, açúcar, ácido tartárico, fermento de pão e água, conhecido no nordeste como champanhe-de-cordão, cerveja-de-barbante. Talvez fosse melhor escrita gengibirra, e que celebrizou o extrovertido "Bem-Bem". Vizinho ao Mundico, estava o Armarinho do Orion, com vendas de meias, gravatas, lenços, suspensórios, cintos, dentre inúmeros objetos masculinos.

Ainda no mesmo quarteirão da rua Major Facundo - a mais célebre farmácia da cidade a antiga Farmácia do Boticário Ferreira assomava.

Anúncio de uma era

Destacava-se ainda, o Cine Moderno, da Empresa Severiano Ribeiro, com sua rica e esplendorosa marquise variegada, com cristal colorido das mais vivas cores, no formato de meia concha ou cauda de pavão, dava toque de elegância e imponência à entrada daquele cinema, depois lojas Samasa, de propriedade de Sebastião Arrais; depois Sapataria Nova e Clínica de Olhos Rosangela Francesco.

Na esquina da rua Major Facundo, com a rua Liberato Barroso de um lado, existiu, nas décadas de 40/60, o Café Sport, dos irmãos gêmeos José e Estevam Emygdio de Castro, muito estimados por todos que os conheciam, foram meus patrões na firma Emygdio & irmãos, hoje a Lojas Esquisita, do Sr. Pio Rodrigues. Eis apenas o início de um longo caminhar pelo passado de nossa cidade.

FIQUE POR DENTRO
PRAÇA DO FERRERIA

A Praça do Ferreira - um dos mais conhecidos e cantados logradouros de nossa cidade; mas, também, um espaço que já sofreu, ao longo dos anos, inúmeras intervenções - é uma homenagem prestada ao boticário Ferreira, Antonio Ferreira Rodrigues. Ele nasceu em Vila Real da Praia Grande, hoje cidade de Niterói, filho de Antônio Rodrigues Ferreira e de D. Marcolina Rosa de Jesus.

Chegou ao Ceará em 1825, ano terrível de seca, trazido pelo comerciante Antônio Caetano de Gouveia - cônsul de Portugal. Tinha alguns conhecimentos práticos de farmacologia, obtida na sua terra natal.

Suas receitas salvaram dum parto difícil a mulher de seu generoso protetor, que o ajudou a obter da junta medica de Pernambuco, licença para montar botica e se estabelecer no trecho da antiga rua da Palma - Rua Major Facundo lado poente, por alguns anos Farmácia Boticário Ferreira, local depois ocupada pela Farmácia Galeno - Farmacêutico Yoyô Fonseca - Joaquim Studart da Fonseca, filho do Sr. João da Fonseca Barbosa e D. Leonisa de Castro Studart da Fonseca - Yayá Fonseca, irmã do Barão de Studart - Guilherme William Studart, nas mediações da loja Marisa e Farmácia Avenida.

Fonte: Jornal Diário do Nordeste

domingo, 25 de outubro de 2009

Dois autores, uma só fome



Que relações podem se estabelecer entre as obras de Patativa do Assaré e Josué de Castro? abaixo, o jornalista e pesquisador Luis Celestino Jr. Esclarece essa proximidade poético-acadêmica

``Nunca diga nordestino
que Deus lhe deu um destino
causador do padecer
Nunca diga que é o pecado
que lhe deixa fracassado
sem condição de viver``
(Nordestino sim, nordestinado não, de Patativa do Assaré)

Falar de seca e suas representações no âmbito da produção cultural é tarefa difícil pela quantidade de produções nordestinas seja na literatura, nas artes plásticas, na fotografia ou no teatro. Rodolfo Teófilo, por exemplo, publicou no século XIX um clássico do naturalismo brasileiro: A Fome. Romance de mais de 500 páginas é marcado por cenas fortes em que o ser humano age instintivamente na luta para saciar a mais primitiva das suas necessidades. Não seria injusto apontar a obra como precursora da antropofagia, tão cultuada pelos modernistas brasileiros mais de trinta anos depois (a obra de Teófilo é de 1890).

Nenhum artista, no entanto, teve a obra tão marcada pela seca e suas consequências quanto Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré. A condição social foi algo marcante na obra do poeta. O êxodo rural (Triste partida), a reforma agrária (Reforma agrária), o drama dos menores abandonados (Menino de rua) e outros temas marcaram o seu vasto trabalho. A imagem de simples agricultor engajado em causas sociais, consciente de sua condição dentro da sociedade, e sempre denunciando as mazelas do Nordeste alimentaram a imagem de um gênio inato. No prefácio do já clássico Cante lá que eu canto cá, de 1978, Plácido Cidade Nuvens o define como ``poeta social``: ``A realidade local emerge com toda sua vitalidade na poesia de Patativa. Não apenas na candura lírica do seu telurismo acendrado. Mas numa configuração social bem delineada``.

Latente a todos os temas sociais aparece a ``fome``. Algo de difícil definição e conceituação, fome é algo ``que se sente`` e sentimento é algo que, quando retratado pela ciência, sempre causa controvérsias, para muitos sendo algo impenetrável. Quando se fala em construção de imagens e de representações, dado esse caráter ``sentimental``, a fome é quase sempre algo abstrato. A imagem-clichê da criança africana de cabeça grande cercada por moscas e suja de grãos de arroz, de tão repetida, pouco comunica, apesar de ser chocante. Serve para a imagem da fome no Nordeste?

A obra de Patativa remete a uma série de imagens e representações dada a sua vasta produção. Na antologia poética publicada em 2001 pela Fundação Demócrito Rocha, Gilmar de Carvalho, o organizador, já alertava para o fato de que a obra do poeta é ``um único e grande livro onde cada poema é um canto, a sua rapsódia, ao mesmo tempo pessoal e universal``.

Além disso, seu trabalho tem proximidade com a obra de Josué de Castro, com destaque para o clássico Geografia da Fome. Em Patativa, vemos essa aproximação dos conceitos de fome apresentados pelo médico pernambucano. Outro parentesco reside em Norbert Elias e sua obra Mozart: Sociologia de um gênio. Nesse sentido, a obra de Patativa é melhor compreendida quando afastamos a ideia de algo ``interior`` que se processa de forma autônoma num ``gênio`` e olhamos para um homem extremamente envolvido com seu meio.

Fome social
A seca é a grande responsável por boa parte da diáspora do sertão nordestino durante todo o século XX. Fazendo referências a imagens construídas em uma série de obras (O Quinze, de Rachel de Queiroz; A Paraíba e seus problemas, de José Américo de Almeida; O Nordeste, de Gilberto Freyre; História das secas no Ceará, de Rodolfo Teófilo), além dos resultados de seus inquéritos sociais, Josué de Castro apresenta uma imagem do êxodo fruto da fome: ``Assim esgotadas as suas esperanças e reservas alimentares de toda ordem, iniciam os sertanejos a retirada, despejados do sertão pelo flagelo implacável. Sem água e sem alimentos, começa o terrível êxodo.

Na tentativa de associação com a obra de Castro, vem à mente a célebre obra Triste Partida (``Setembro passou com oitubro e novembro / Já tamo em dezembro / meu Deus que há de nós? Assim fala o pobre do seco nordeste / com medo da peste / da fome feroz``), mas podemos acrescentar outras, como Nordestino sim, nordestinado não, em que o poeta rejeita a ideia de um castigo divino ou destino pré-traçado que condena o nordestino à miséria. No poema Emigrante Nordestino, esse diálogo é acentuado: ``Quando há inverno abundante / No meu Nordeste querido, / Fica o pobre em um instante / Do sofrimento esquecido / Tudo é graça, paz e riso / Reina um verde paraíso / Por vale, serra e sertão, / Porém não havendo inverno, / Reina um verdadeiro inferno / De dor e de confusão``.

As imagens da fome em Patativa constituem o mosaico de uma sensibilidade que se preocupou com outros temas sociais como a miséria de uma forma geral, o êxodo rural, os menores abandonados, a seca, a reforma agrária etc. A fome é imagem forte na sua obra (``Mamãe, meus brinquedo! / Meu pé de fulô!``), mas não castigo divino e sim fruto de condições histórico-econômico-sociais.

>> LUIS CELESTINO JR. é jornalista, mestre em comunicação pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e autor do livro A Fome na imprensa .

Fonte: Jornal O Povo

Daquilo de que somos feitos


Titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Durval Muniz de Albuquerque Jr. É um conhecedor profundo da cultura nordestina. A seguir, ele reafirma a centralidade das secas para unidade regional. No entanto, projeta sinais de mudança

Na peleja dos sentidos, a disputa entre as intempéries da seca e o campo da cultura produziu discursos e imagens múltiplas. Isoladas, elas cruzam os tempos, fabulam um passado. Juntas, amiúdam o século XX, pondo em parelha nomes como Rachel, Gonzaga, Suassuna, Glauber... Produção simbólica recente, como lembra o historiador potiguar Durval Muniz de Albuquerque Jr., o Nordeste venceu a rubrica meramente geográfica na medida em que o enfrentamento das estiagens se impôs de forma mais decisiva. Nesse percurso, a provocação política teve peso determinante.

Vitimadas em proporções mais agravantes, as elites locais & em derrocada, diante da centralização de RJ-MG-SP & se reorganizaram e passaram a pressionar o Estado por novos espaços de poder. Assim, segundo o autor de A Invenção do Nordeste, emergiram estruturas como o centenário Dnocs. Em entrevista por telefone, o professor Durval demarcou as origens culturais do Nordeste imaginário, creditando à parceria do pernambucano Gilberto Freyre e do cearense Djacir Menezes, e foi além.

Para ele, o domínio da seca se foi. ``Nós estamos há oito anos sem recorrer às velhas frentes de emergência, sem ver as cidades sendo invadidas por retirantes famintos, mas ninguém fala. Hoje, as políticas sociais compensatórias conseguem produzir uma estabilidade social que independe de chuvas``, argumenta. Ciente das limitações das políticas sociais, o professor é crítico das ideias engessadas sobre a cultura nordestina e convida à formulação de novos conceitos.

O POVO - Em Elegia para uma Re(li)gião, Francisco Oliveira lembra que, no Brasil Colônia, esse recorte atual do Nordeste era totalmente esfacelado. Diante disso, seria possível pensar essa dimensão regional contemporânea como uma ``tradição inventada``, no sentido que fala Eric Hobsbawm?
Durval Muniz de Albuquerque Jr. & O Nordeste só existe como conceito a partir do século XX. E, como toda construção discursiva, a legitimação se dá a partir da invenção de um passado. Isso até que o presente acabe por apagar essa invenção, passando a tê-la como natural. Assim, perde-se a consciência dessa criação. Hoje, a maioria das pessoas situa o Nordeste no contexto do período colonial, por exemplo. Mas isso é um completo absurdo. Ali, não há nenhuma referência regional com esse sentido atual. A divisão original do Brasil em Capitanias Hereditárias, vale lembrar, separava o território numa perspectiva Norte-Sul. O Nordeste é uma definição muito recente.

OP - Em A Invenção do Nordeste, o senhor atribui ao fenômeno da seca e às políticas de enfrentamento dela o fator decisivo para a coesão dessa estrutura geográfica que se conhece hoje como Nordeste. Afinal, somos filhos da seca?
Durval & Com certeza. Quem criam os espaços são os homens, as geografias são criações históricas, culturais. A consciência regional nordestina vai ter como motivação básica de sua emergência a ocorrência de secas periódicas. Sobretudo, na segunda metade do século XIX, que é quando essas secas começam a vitimar de forma mais expressiva as elites da região, então já em processo de declínio. Enquanto as secas mataram apenas pobres, escravos e homens livres, elas nunca foram um problema, numa foram motivo de preocupação nacional. O problema da seca no Brasil é inventado na chamada grande seca de 1877-1879. De grande, essa seca não tem nada. É exatamente uma repetição daquilo que comumente acontece na região por implicações climáticas. Ela é elevada a categoria de grande seca, porém, porque atinge, pela primeira vez, setores das elites, das camadas dominantes. A seca de 1777, por exemplo, proporcionalmente, teve uma dimensão muito maior. Ela vitimou 25% da população que vivia naquele espaço, enquanto 100 anos depois o índice foi de 18%. A diferença da seca de 1877 está na sua visibilidade. Ela afeta de modo mais decisivo a produção cultural. É daí que temos os primeiros registros fotográficos, por conta da cobertura dos grandes jornais. É daí, também, que surgem as primeiras referências literárias. José do Patrocínio, por exemplo, acompanha a seca de 1877 a mando de um jornal carioca e depois escreve Os Retirantes, que é de 1889, nosso primeiro romance sobre a temática das secas. Essa emergência das secas vai, paulatinamente, mostrando à elite hoje chamada de regional, nordestina, que poderia ser um fator agregador e com grande potencial de capitação de recursos. O argumento da seca, para as elites nordestinas, se mostra algo poderoso, sem nenhum contraponto nas demais regiões do País. Na constituição de 1891, a primeira republicana, as bancadas do antigo Norte já estavam unidas e conseguiram um inciso que garantia às secas recursos adicionais e emergenciais por parte da União.

OP - Por que a burocracia estatal da República tem esse peso fundador? Quando dom Pedro II dizia ``venderei até o último brilhante da minha coroa para acabar com a seca``, ele estava falando exatamente de que?
Durval & As instituições de combate às secas vão surgir justamente da mobilização das elites. Com o avanço da produção cafeeira, São Paulo e Minas Gerais assumem o centro do poder e as províncias do Norte precisavam constituir um novo espaço de legitimação. A força inicial dessas instituições de combate às secas vem do discurso das elites, em pleno declínio econômico, que se alojaram ali. A palavra Nordeste, por exemplo, surge pela primeira vez quando Delfim Moreira propõe as primeiras modificações para o Iocs, e o transforma em Ifocs, em 1919. Nordeste, a princípio, seria o recorte da área de atuação do Ifocs: o chamado -Polígono das Secas-, entre Alagoas e o Ceará. Essa demarcação geográfica assume uma identidade regional posteriormente. D. Pedro não falava de Nordeste quando falava de seca, simplesmente porque o Nordeste não existia naquele momento. O discurso dele é semelhante ao de Médici na década de 1970. Fala-se, apenas, de acabar a dor da seca com grandes montantes de recursos, como se isso fosse possível. Dinheiro nenhum acaba a seca, o que é preciso é possibilitar o convívio das populações com as variações climáticas. As falas de dom Pedro e Médici são pontuais, enfocam o mero socorro emergencial. A seca de 1877, por exemplo, é a primeira que tem socorros públicos. Até ali, tudo era de iniciativa privada e fortemente centrado no domínio da Igreja. O marco de 1877 é a intervenção do Estado. Então, não só nascia a seca oficial como a corrupção. As Comissões de Socorro de 1877-1879 são acusadas de desviar recursos equivalentes a 25 anos de arrecadação de todas as chamadas províncias do Norte. Daí, ser possível afirmar que o conceito original de Nordeste é algo atrelado ao fenômeno das secas e a prática da corrupção.

OP - Se é possível apontar a seca como nosso mote primeiro, quem seriam nossos primeiros criadores no campo da cultura?
Durval & A certidão de nascimento cultural da região, para mim, é a publicação de Nordeste, pelo Gilberto Freyre, em 1937. Embora ele diga ali que o Nordeste dele é outro: não o das secas, mas, sim, o das águas. O primeiro movimento organizado que utiliza o conceito de Nordeste para forjar uma identidade é o Centro Regionalista e Tradicionalista do Recife, fundado exatamente pelo Gilberto Freyre em 1924. A ata de fundação diz claramente que o desejo daquele grupo era militar, política e culturalmente em nome do Nordeste. É ali que começa a se falar de uma cultura própria do Nordeste, apartada do restante do País. Recife se via como centro, como capital dessa nova região. É assim que Gilberto nos definia. O Nordeste de Gilberto é aquilo que gira em torno do Recife: é o Nordeste da cana-de-açúcar. Mas o Gilberto tanto sabia que o Nordeste era maior que isso, que publica, também em 1937, pela mesma coleção de Nordeste, o livro O outro Nordeste, do cearense Djacir Menezes. Isso é muito significativo. Aliás, os intelectuais cearenses são decisivos para o pensamento do Nordeste. Não bastassem as contribuições do próprio Djacir, é impossível não citar Capistrano de Abreu, que é o primeiro historiador a narrar o Brasil a partir do sertão. O Nordeste das secas foi construído pelos cearenses. O Ceará foi, durante muito tempo, sinônimo de seca no Brasil. Há vários registros em que se fala não de seca do Norte nem do Nordeste, mas de seca do Ceará.

OP - Seria possível identificar novos regionalismos? Em que medida nós temos, culturalmente, conseguido subverter o estigma da seca?
Durval & O Nordeste pedinte, miserável, ainda é de grande valia para parte das elites regionais. Mas há mudanças significativas. Recentemente, um grande partido político, que concentra alguns expoentes dessas elites, saiu tão envergonhado das eleições que optou por mudar de nome. A mudança, repito, não acontece inicialmente no plano da cultura. Veja que Caetano reivindicava uma urbanidade que ainda hoje não conquistamos, muito embora nós sejamos hoje uma população majoritariamente urbana. Ainda existe um enorme complexo de inferioridade e isso se reflete na cultura. O Nordeste ainda convive com a cultura da pobreza. Mesmo assim, vejo hoje um novo Nordeste. O fluxo de pessoas que migram para o Nordeste atualmente é impressionante e isso, para mim, é um sinal de mudança, uma novidade. Nós, tradicionalmente, fomos um povo que partiu e hoje nos vemos numa condição de recepcionar, de receber migrantes no nosso convívio. Esses fenômenos parecem marginais, mas estão paulatinamente promovendo uma mudança cultural. Senão para o Nordeste, para o Brasil, como nação. Os gaúchos que vão para o Ceará, trabalhar nas fábricas de calçado, mudam a imagem do Ceará no Rio Grande do Sul, por exemplo. Há, evidentemente, um regionalismo xenófobo, reacionário, mas eu acredito nas mudanças.

OP - Tendo em vista que grande parte das metrópoles nordestinas se firmaram com o processo ainda recorrente de migração das populações das pequenas localidades, tendo a seca como um fator determinante, faz sentido procurar descolar as produções tidas como mais cosmopolitas, como o Mangue Beat pernambucano, dessa referência primeira, original? As palafitas de Chico Science não seriam as mesmas dos Severinos de João Cabral?
Durval & Acredito ser urgente ressignificar a própria seca. Primeiro, as pessoas nunca fugiram das secas. Elas fugiram, sim, da precariedade das condições de vida que eram agravadas nos momentos de seca. Muito mais excludente que a seca no Nordeste foi a concentração da terra e dos meios de produção. As pessoas fugiam para a cidade porque o campo não avançava nas condições sociais e de trabalho. Hoje, o que muda é o cenário econômico-social e político, não, a seca. Continua havendo anos em que se chove mais e outros em que se chove menos. Agora, claro, hoje há uma sensibilidade maior em relação às questões climáticas, por conta do aquecimento global. Mas a seca, enquanto fenômeno, é a mesma de sempre. Simplesmente, não chove ou a chuva é escassa. Prefiro ver o Nordeste não como algo parado no tempo, um território de beatos e cangaceiros, mas algo que pode ser atualizado, que está em constante movimento. As palafitas do Chico Science e do João Cabral que você cita, por exemplo, são e não são as mesmas. A significação é outra. Em Cabral, a vida é o máximo que se poderia tirar dali. Em Chico, a cultura da pobreza é superada. Das palafitas do Mangue Beat, não é só a vida, mesmo severina, que é capaz de brotar, mas, sim, a criação, a invenção.

OP - Em termos políticos, a seca ainda seria o que move o Nordeste? A força simbólica do presidente Lula, por exemplo, reverbera no fato de ele mesmo ser um filho das secas, um imigrante nordestino?
Durval & Lula se caracteriza, sobretudo, por romper com a política e o discurso da seca. Lembro de uma fala dele, num palanque em Aracaju, que causou um incômodo imenso. Veja: num comício de campanha, ele disse ao povo que era impossível acabar, solucionar, o problema das secas. Lembro de ele ter comparado a seca nordestina com as catástrofes da neve na Europa e nos EUA. Ninguém acaba com a neve, mas, sim, cria condições de enfrentamento e convívio com aquela realidade. Eu vejo as políticas públicas do Governo Lula assumindo essa ideia. Não há mais a falácia de solucionar as secas. Fala-se hoje em convívio com a seca, inclusive quando se defende, por exemplo, a transposição do São Francisco. Isso não quer dizer que os interesses tradicionais não existam e co-existam. O Ciro Gomes, quando ministro da Integração Nacional, defendia a transposição numa lógica totalmente diferente da do presidente Lula. Para o Ciro, a transposição acaba a seca. Para o Lula, a transposição minimiza os efeitos dela. Já pensou, por exemplo, como seria o abastecimento de água no interior do Nordeste sem uma intervenção dessa natureza? Num período de seca, Mossoró, Campina Grande e Juazeiro do Norte, grandes centros urbanos, vão ser abastecidos com carros-pipa? O problema não é a seca pela seca, mas, sim, o direito e o acesso à água.

OP - Por fim, se a seca é um fator que autoriza a emergência e mantém a identidade nordestina por tanto tempo, seria possível pensar num estágio posterior, um pós-seca? Que Nordeste seria possível a partir daí e a quem esse Nordeste vindouro interessa e desinteressa?
Durval & Outros discursos serão construídos em torno do Nordeste para ocupar essa centralidade da seca. As identidades nascem e morrem ao longo da história na medida em que se constroem novos discursos. Veja, o discurso do turismo já se sobrepõe ao discurso da seca em boa parte do Nordeste. Hoje, vejo uma burguesia urbana e empresarial interessada fortemente em romper com o estigma da seca, ao mesmo tempo em que há toda uma tradição de elites interessada em mantê-la. O conflito é evidente e acirrado. Afinal, são as elites que veiculam e renovam as imagens. Agora, claro, as camadas populares também se movimentam nessas mudanças. É daí que se fortalece, por exemplo, o discurso de convivência com a seca incorporado por muitas ações do Governo do presidente Lula. Para mim, a seca perde cada vez mais espaço como um elemento definidor do Nordeste.

Fonte: Jornal O Povo

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