domingo, 3 de maio de 2009

Enfim, o reconhecimento

Até então longe dos holofotes, mestres da cultura popular têm trabalho premiado pelo Ministério da Cultura

Aventureiros e exploradores costumavam dizer que as relíquias mais importantes de um povo nunca seriam reveladas por completo aos forasteiros. Séculos depois, a ciência e a história provaram que tantas maravilhas naturais e históricas sempre estiveram debaixo do nosso nariz e, se não foram encontradas antes, é porque geralmente costumamos olhar primeiro para muito longe.


Mestre Ciriaco do Coco ensina o "ofício" há décadas na Zona Rural da cidade. Com o dinheiro do prêmio, construiu a Casa do Coco para perpetuar sua arte e comprou roupas novas para as coquistas. Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press

É no mínimo curioso conferir alguns nomes do Prêmio Humberto de Maracanã - Culturas Populares do Ministério da Cultura. Somente em Glória do Goitá, a 66 km do Recife, entre três premiados há dois representantes culturais que dificilmente teriam suas histórias e artes conhecidas fora de Pernambuco se continuassem a depender somente de datas festivas, carnaval e da "boa vontade" política típica das cidades além do eixo metropolitano.

Aos 81 anos, o Mestre Ciriaco do Coco pode se orgulhar de muita coisa que fez na vida, a começar pelos seus 24 filhos, 34 netos e 20 bisnetos. Nascido João Sebastião do Nascimento em 26 de junho de 1928, Mestre Ciriaco não existe no Google. Parece besteira, mas em tempos de uma sociedade da informação cada vez mais conectada, é um reflexo notório de como ainda há tanto a percorrer pela cultura de um povo. E às vezes estamos todos tão próximos. No site oficial do prêmio, na página do Minc, o leitor encontra apenas o nome de batismo, não o nome pelo qual Ciriaco brinca e ensina rodas de coco há décadas na Zona Rural de Glória do Goitá, repassando conhecimento "até quando eu morrer", como costuma dizer aos visitantes.

A saúde parece de ferro - não somente pela prole - e ajuda a esconder a idade. Ciriaco costuma percorrer à pé os 12 km que separam sua casa no Sítio Urubu até o centro de Glória do Goitá. A garganta não tem mais a força de outrora. Mesmo assim, quando começa a conduzir uma roda de coco, Ciriaco só vai embora quando desligam o som. Porque do contrário ele vira a noite cantando. E as filhas, dançando sem parar e sem cansar. Preocupa Dona Maria, a esposa, casada com o mestre desde 1954. Mas não preocupa Ciriaco. Com a humilde verba de R$ 10 mil repassada pelo Minc, ele resolveu não deixar mistérios para exploradores ou aventureiros e construiu a Casa do Coco para sua arte se perpetuar por meio dos filhos, netos e bisnetos. E quem mais quiser.

Além da recém-construída Casa do Coco, o dinheiro ajudou a comprar um novo equipamento de som (usado, modelo bem antigo) e algumas roupas novas para as coquistas. Em contrapartida, exigência do Ministério, deu aulas durante três dias em oficinas para alunos da rede pública de ensino no Sítio Urubu.

E as oficinas ajudaram a mostrar que Mestre Ciriaco do Coco pode até entrar no Google a partir de agora, mas certas coisas realmente não mudam nunca. Analfabeto e sem ter tido condições de estudar quando criança, Ciriaco entrou na sala de aula e não entendeu quando todas as 17 crianças não tinham sequer um caderno.

A vida difícil no interior e a falta de perspectivas do passado ilustram algumas das letras de suas músicas, mas nãorefletem no humor de Mestre Ciriaco, que já prepara uma grande festa na Casa do Coco para seu próximo aniversário com ajuda do filho Queno de Alagoinha (José João da Silva), o principal herdeiro da arte do pai.

Mestre Ciriaco é considerado o último representante do coco-de-roda na Zona da Mata Norte de Pernambuco. Herdou a brincadeira ainda criança, quando aos 13 anos começou a seguir as rodas do pai e aos 14 conduziu sua primeira roda de coco. Sobre o pai, ele desconversa um pouco, diz que não lembra tanto. Mas não deixa de cantar uma música por onde confessa a frustração de não ter sido permitido entrar numa escola, aprender a ler, a estudar. Hoje, Ciriaco é mestre e se preocupa em ensinar aos outros. E promete muito mais, agora com seu espaço próprio para os coquistas da região.

Fonte: Jornal Diário de Pernambuco

sexta-feira, 17 de abril de 2009

As memórias de Otacílio Azevedo fazem um desenho dos espaços de Fortaleza, suas ruas e construções


Otacílio de Azevedo (1893-1978) foi testemunha de um tempo. Caminhou nas passeatas em repúdio aos atos da política de Antônio Pinto Nogueira Acióli (O POVO opta pela grafia original do livro do memorialista) que, dias antes, “investira contra algumas crianças, esmagando-as sob as patas de seus cavalos”. Enquanto a cidade estava em rebuliço à caça do velho oligarca, o Babaquar (como era conhecido o presidente do Ceará) foi encontrado na casa de seu filho, na rua Guilherme Rocha, metido debaixo da cama. “Intimado a levantar-se, encostou-se a num canto do quarto, lívido, os olhos cheios de lágrimas”, narrou Otacílio. O povo pedia vingança e justiça. Ao ver aquela ruína humana, acovardada, esqueceram-se da vingança, ficaram só com a justiça. “O deposto agradeceu-nos, comovido, o fato de o deixarmos com vida”, diz o relato com a versão do memorialista.

São muitos os atributos: Otacílio de Azevedo foi pintor, desenhista, poeta, mas é a faceta memorialista que nos interessa para essas páginas de jornal. Com mais de uma dezena de livros publicados, o pai do também memorialista Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez, faz um inventário da Fortaleza que acompanhou a partir de 1910, vindo da cidade de Redenção, para trabalhar nas oficinas da empresa Ceará Light Tramways and Power Cia Ltda. Narra, no livro Fortaleza Descalça, os episódios com as minúcias de quem os viu de perto, tanto dos fatos como da arquitetura da cidade. A Fortaleza de Otacílio era moça pobre, mas vaidosa, com o eterno espírito de colonização. “Ensaiava os primeiros passos nos caminhos do comércio internacional, passando da renda da almofada para as rendas francesas”.

O desenho do Centro
Ele desliza pela Praça do Ferreira para descrevê-la com seus cafés em cada ponta, iluminada por combustores de gás carbônico; pela avenida Marquês de Herval, hoje Praça José de Alencar, lugar ajardinado, perfeito para passeios de famílias inteiras e o Passeio Público.

Os contos históricos ganham uma narrativa pessoal e são unidos com os causos de dia-a-dia. A inauguração do Theatro José de Alencar, em 17 de setembro de 1910, é um dos feitos em que foi participante ativo. Encomendou um paletó, pago em várias prestações. A peça encenada era O Dote, de autoria de Artur Azevedo. Ele viu da torrinha, o lugar da ralé.

O Café e o bonde
Ele viu uma linha de bonde quase ruir por conta de um bar que foi fechado, o Café do Pedro Eugênio. Ele ficava na segunda seção da linha do Benfica e era abrigo certeiro de intelectuais boêmios: “O proprietário morava vizinho e, quando aparecia altas horas da noite um bando de seresteiros, levantava-se e ia abrir o estabelecimento a fim de servi-los com a melhor aguardente de cumbe”. Quando o bar foi vendido, o outro dono não deu conta do recado e a linha do bonde do Benfica começou a decair. O dono da Empresa Ferro Carril recomprou o bar e pediu que Eugênio novamente tocasse o negócio: o fato foi certeiro e a linha foi recuperada.

Frequentador assíduo dos cinemas e cinematógrafos do Centro, Otacílio tinha no Cinematógrafo Júlio Pinto, na rua Major Facundo, o preferido. As fitas mudas eram acompanhadas por verdadeiras orquestras sentadas sobre madeiras grossas que cobriam, com toda a pompa, uma cacimba: flautista, violinista, pianista e até um rabequista. “Tempos depois, apareceu um aparelho com o sistema vitaphone”, moderníssimo para a época. O som, gravado em discos, começava a rodar no momento do início da fita. Quando quebrava, era preciso contar os quadros perdidos e intercalar pedaços de fita preta. “Uma fita já bastante avariada foi levada à tela. Como não houvera substituição dos quadros avariados, no melhor momento do idílio, a bela estrela começou a falar com a voz de homem e o fogoso fala com voz de contralto”, conta. Nem é preciso narrar a chacota feita pelos presentes.

Fonte: Jornal O Povo

domingo, 29 de março de 2009

MUSEU JAGUARIBANO - Pinturas do século XIX são descobertas em restauração.


Paisagens que lembram dunas e falésias das praias de Aracati estão sendo recuperadas durante o trabalho de restauração (Foto: Melquíades Júnior)


Jovens de Aracati participam do trabalho de restauração de pinturas em motivos florais


A equipe encontrou as paredes com camada de tinta sintética, comum nos anos 90. Tinham cor homogênea


É aplicado solvente químico e as camadas mais externas em tinta sintética sofrem fissuras e desaparecem


Sem as camadas sintéticas, são encontradas pinturas à base de cal. É feita a raspagem, que mostra a pintura original


Obedecendo a intenção da pintura original, os restauradores reforçam com tinta os detalhes do acabamento


As pinturas são figuras geométricas, florais e paisagens que lembram dunas, falésias e mangues das praias de Aracati.

Aracati. Uma casa tem sua estrutura restaurada e, apesar de já se saber da importância histórica de sua arquitetura, seus móveis e do forte simbolismo da rua em que está situada, foi durante as obras de restauração que mais uma mina histórica foi encontrada. Por trás de várias camadas de tinta há riqueza plástica nas paredes do Museu Jaguaribano, em Aracati. Durante as prospecções, descobriram-se pinturas datadas do século XIX, com figuras geométricas, florais e paisagens que lembram as dunas, falésias e mangues das praias da cidade. O Instituto do Patrimônio Histórico e Nacional (Iphan) deverá concluir a restauração do museu até o mês de junho.

A casa onde fica o Museu Jaguaribano, em Aracati, tem mais de 200 anos e durante esse tempo seus compartimentos foram pintados seis, sete vezes. O local foi residência, colégio, clube e hotel até ser museu, em 15 de novembro de 1968, há 41 anos. “Começaram a mexer no prédio e descobriram que havia coisa por baixo daquela tinta nas paredes, fizeram a prospecção, e o Iphan solicitou a restauração”, explica o chefe da equipe de restauro das pinturas originais do Museu Jaguaribano, Emanuel Albuquerque.

“A pintura está excelente, muito bem conservada. O artista inspirou-se nas dunas, nas paisagens do Cumbe (uma vila litorânea), mangues e lagoas”, afirma Emanuel. De fato, logo das janelas do quarto piso do casarão é possível avistar as dunas da Praia de Canoa Quebrada. A paisagem vista do horizonte da janela é repetida nas paredes de um dos prédios históricos mais importantes de Aracati – o museu e a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário são marcos da ocupação colonial do Ceará, por meio de Aracati.

Cinco pessoas trabalham na restauração das pinturas. Destes, dois são da própria cidade de Aracati, selecionados pelo restaurador Emanuel Albuquerque. Os jovens Ronaldo Brás, 21 anos, e Uili Santos, 24 anos, têm a oportunidade de conhecer o patrimônio histórico local. E tornam-se mão de obra qualificada, pois outro casarão ao lado, onde morou o Barão de Messejana no século XIX, também está precisando ser restaurado.

“Nas cidades em que vamos, procuramos treinar pessoas do lugar, e ensinar o ofício da restauração. Sempre formamos auxiliares de restaurador, para que outros casarões e igrejas — há vários templos seculares em Aracati — sejam recuperados. E provamos que as pessoas daqui têm conhecimento, e passam a respeitar mais aquele patrimônio local”, afirma Emanuel Albuquerque, que tem trabalhos de restauração no Theatro José de Alencar, Casarão Tomás Pompeu (também em Fortaleza), Museu de Aquiraz, Museu do Dnocs e imagens sacras em cidades do Interior.

Em edição do dia 20 de abril de 2008, reportagem do Caderno Regional já anunciava os primeiros achados de pinturas antigas nas paredes do Museu, que tinha acabado de retomar os trabalhos de restauração, então suspensos por falta de recurso e por questões burocráticas com a desapropriação do prédio vizinho. A equipe atual de restauradores, também formada por Magda Mota e Ricardo Santos, ambos de Fortaleza, tiveram dificuldades ao retirar as camadas de tinta mais próximas do original — no século XIX, as pinturas de casas de barões eram feitas por verdadeiros mestres, que utilizavam técnicas próprias, como óleo de linhaça, de baleia e ovos numa mistura química que dava mais consistência e durabilidade às pinturas. A dificuldade da equipe é retirar a pintura imediatamente sobreposta à original.

O segundo e o terceiro piso são os que mais apresentam pinturas mais detalhadas, com desenhos. Praticamente tudo está sendo recuperado pela equipe de Emanuel Albuquerque. Os desenhos mais desgastados, como alguns florais, são reconstituídos pela equipe, “mas sem causar muita interferência na parte ainda existente”, assegura Albuquerque.

CENTRO TEMÁTICO
Pavimentos trarão a história do Ceará


Aracati. Um lugar ilustre de um morador ilustre. Foi o prédio do Museu Jaguaribano, antes de tudo, a casa do José Pereira da Graça, conhecido como Barão de Aracati (1812-1889), um aristocrata que foi juiz desembargador, deputado três vezes pela província do Ceará, ministro do Supremo Tribunal de Justiça e vice-governador da província do Maranhão. O Museu comemorou 40 anos e, há quatro anos, teve início a restauração pelo Iphan. Quando concluída a reforma, será um dos principais centros temáticos que conta a história do Ceará. Um elevador é instalado para facilitar o acesso dos cadeirantes.

Um dos casarões mais altos de Aracati — juntamente com o casarão do Barão de Messejana, na mesma rua (desativado, à espera de reparos) — o Museu Jaguaribano guarda um acervo histórico com peças de Limoeiro do Norte, Russas, inclui livros, móveis antigos e equipamentos inusitados, como um canhão de guerra. No térreo, havia um comércio, no segundo e terceiro pisos era a parte residencial do barão, e no quarto, um depósito multiuso.

Dentro do projeto de restauração do Museu, e seguindo a temática de cada andar, o primeiro piso terá instrumentos referenciais dos ciclos econômicos, com máquina de tear e o carro de boi; no segundo ficarão os móveis da Era Colonial (que também estão sendo restaurados); o terceiro abrigará obras sacras, como imagens de santos, telas de pintura etc; e o quarto piso servirá de ateliê, espaço para oficinas de artes.

“O Museu é regido pela sociedade civil, sem cor política partidária e a finalidade maior é a preservação da cultura da região jaguaribana”, afirma José Correa, presidente do Museu. Durante sua existência, o prédio passou por problemas. Conforme ele, foi necessário cortar espaços da casa, demolir paredes que escondiam a estrutura original do prédio. “Mas, no fim, o trabalho foi bom, a reconstituição do prédio”.

IMPORTÂNCIA
Obra é estímulo à preservação do patrimônio público


Aracati. A Rua Coronel Alexanzito, a Rua Grande, é o principal sítio histórico reconhecido em Aracati. Nela, situam-se prédios construídos entre os séculos XVIII e XIX. Desde o tombamento pelo Iphan, todas as intervenções públicas, como obras de saneamento, são acompanhadas de arqueólogos. O Museu é considerado carro-chefe das obras de preservação do patrimônio histórico.

Mas historiadores e arqueólogos reconhecem que muitos fósseis e vestígios foram destruídos na cidade, principalmente pelo desconhecimento quanto ao valor histórico de construções e objetos antigos, por parte de quem fazia intervenções. O restaurador Emanuel Albuquerque denuncia o descaso no casarão do Barão de Messejana. “O lugar possui desenhos originais nas paredes que precisam ser restaurados”.

Para a Superintendente do Iphan no Ceará, Olga Paiva, Aracati é rica em conhecimento histórico, e a conclusão da reforma no Museu será estímulo à preservação do patrimônio público e um passo para que outros sejam revalorizados.

ORIGINAL
ESTÁGIOS

1 TINTA. A equipe encontrou as paredes com camada de tinta sintética, comum nos anos 90. Tinham cor homogênea

2 SOLVENTE. É aplicado solvente químico e as camadas mais externas em tinta sintética sofrem fissuras e desaparecem

3 RASPAGEM. Sem as camadas sintéticas, são encontradas pinturas à base de cal. É feita a raspagem, que mostra a pintura original

4 ORIGINAL. Obedecendo a intenção da pintura original, os restauradores reforçam com tinta os detalhes do acabamento

Mais informações:
Iphan
(85) 3221.6360/ 3221.6263
e-mail: 4sr@iphan.gov.br
Museu Jaguaribano de Aracati
(88) 9902.5275

Fonte: Jornal Diário do Nordeste

domingo, 15 de março de 2009

Arneiroz - Aonde a arte nos leva


Tarde quente de um sábado de fevereiro. Ruas vazias na pequena cidade de Arneiroz, região dos Inhamuns. Além da temperatura média de 28º na sede do município, há poucos atrativos naquela hora para a população em torno de sete mil habitantes. Em uma casa modesta afastada do Centro, componentes do grupo de teatro Arte Jucá se preparam para fazer uma apresentação improvisada a convite da equipe de reportagem.

Enquanto compõem os personagens através da introdução da indumentária cênica, do lápis na sobrancelha e da nova máscara facial que faz o "cavalo descer" e atuar, os atores falam da relação que o grupo mantém com os moradores. "Há uma proximidade da cidade com a gente. O público de Arneiroz já é crítico", explica Mazé Cavalcante, presidente do grupo. "Definimos o nosso teatro como teatro afetivo. É visceral, porque é feito para o público e com o público, na rua", completa Robson Cavalcante, ator e diretor artístico.

Não é preciso esperar muito para entender que o Arte Jucá se confunde com um processo de transformação pela cultura que vem sendo vivenciado pelo município. O grupo mesmo, tem sido alvo de monografias de estudantes universitários da região. Já prontos para a apresentação, começamos a caminhar pelas pequenas ruas de calçamento irregular até a praça central aonde farão a improvisação.

O calor não é empecilho para quem carrega no corpo as roupas pesadas que em breve se tornarão leves quando o espetáculo ganhar forma. Nas ruas, a intimidade do artista com o público abre espaço para perguntas sobre famílias locais. No trajeto, crianças e adultos cumprimentam com orgulho os representantes da cidade que agora são alvo de fotos e entrevistas. Na praça, aos poucos, expectadores vão chegando para acompanhar. Nas casas, janelas se abrem.

A história dessa movimentação artística na cidade começou em 1994 quando as escolas públicas iniciou uma série ações além da formação convencional, destaca Robson. É a partir daquele ano, segundo o ator, que os estudantes começam a ter contato com a linguagem mais elaborada. Em 2000, o teatro ganha força na escola municipal Maria Dolores Petrola. "Essa iniciativa transpôs os muros da escola porque muitos alunos estavam deixando os estudos e nasce o Arte Jucá", afirma Mazé.

O Arte Jucá é considerado hoje uma referência de cultura do Ceará, tendo ao todo 82 pessoas envolvidas com diversas linguagens. Na esteira do grupo, surgiram o CIA Jucá de Dança Contemporânea, Caboko M (Música Cabaçal), Reisado Mestre EMA, Mazé e Banda (MPB), e a miniorquestra O Bando. Robson explica que isso foi possível porque o grupo trabalha em duas vertentes, que são a profissionalização e a formação de platéia. Um dos projetos se dá na Escola Maria Dolores Petrola, com o desenvolvimento de um laboratório de arte compartilhada, onde a idéia é unicamente fazer a experimentação da arte.

A apresentação se encerra e é preciso deixar a cidade. Na despedida, uma certeza. O movimento artístico na pequena cidade dos Inhamuns é prova de que o cearense é capaz de superar o determinismo socioeconômico. A palavra Arneiroz, que teve sua colonização iniciada no começo do século XVII, origina-se de uma antiga freguesia de Portugal, que significa terreno estéril ou arenoso. Ali, 300 anos depois, pelo lúdico, se deu o contrário. E se for verdade, que quando se quer saber para onde caminha a humanidade, deve-se mirar na arte, Arneiroz já traçou o seu destino.

Notinhas

- Na cidade, além do Arte Jucá, outros grupos estão produzindo arte, destacando-se o Jumbalaia Company (dança com estudantes até a 4ª séria), Muquiarte (teatro, circo e música), Planalto Arte e Cultura (teatro), e o Figueirarte (teatro). Segundo Robson Cavalcante, o interesse de jovens por fazer parte dos grupos tem gerado uma demanda reprimida dos jovens.

- Em 2003 foi criada a Associação dos Amigos da Arte, Ciência e Cultura de Arneiroz, que passou a subsidiar o Arte Jucá. Com ela o grupo obteve apoio legal para buscar recursos visando a execução de projetos. Também fortaleceu a relação com a cidade. Hoje são 200 sócios que contribuem mensalmente. Isso permitiu uma atividade intensa todo o ano utilizando as linguagens do teatro, da dança, música, audiovisual e folguedos populares, além da participação e viagens fora da cidade e do Estado.

- O município de Arneiroz foi criado em 14 de março de 1957, através da Lei Nº 3.554. O seu processo de colonização, porém, remonta a primeira década do século XVIII. Os irmãos Francisco Alves Feitosa e Lourenço Alves Feitosa foram os pioneiros da colonização dos Inhamuns, fazendo com que Arneiroz fosse um dos primeiros lugares colonizados nos Inhamuns. A colonização dos Inhamuns está diretamente ligada a Freguesia de Arneiroz, em Portugal, cujas terras pertenceram à capela de São Mateus (Jucás). Desse processo originaram-se várias disputas, envolvendo famílias em locais diversos, dentre estes clãs do tronco Feitosa e Monte e a dizimação da tribo dos índios jucás.

Frase
"Ceará tem figuras impressionantes. Maravilhosas, do ponto de vista dramático"
Ana Miranda, escritora

Fonte: Jornal O Povo

Nova Olinda - Talhado no Couro


Espedito Seleiro se perde e se acha entre sua obra: chinelos, bolsas, gibões, chapéus, sela e selins, cordas de laçar e chicotes. A oficina é perfumada de couro. Tem marrom em vários tons. Que vem do gado abençoado que o mestre respeita e usufrui. Na parede, o desenho de Lampião e Maria Bonita, ornados e protegidos pela pele do boi, para que fugissem das volantes matagal seco adentro. Também tem São Jorge, Frei Damião e Santo Expedito. "Meu nome é com S, porque não sou nem americano".

De tanto abonitar os arreios e selas dos vaqueiros, ganhou o sobrenome artístico. O batismo é Espedito Veloso de Carvalho. Tá nos 68, cheio de orgulho do que já criou nesta vida de gado. Viu tanto o pai e o avô talhando o couro, desenhando, criando em cima da pele do bicho, que aprendeu. Os três filhos também sentiram a fragrância e se encantaram. Se você não puder ir a Nova Olinda, o jeito é ir para a Internet (www.espeditoseleiro.com) ou ligar (88)3546 1432. O mestre Espedito Seleiro acha que não, mas já é uma grife faz tempo.


O POVO - O senhor é devoto de Santo Expedito?
Espedito Seleiro - É o meu santo de fé. Tem o meu mesmo nome. Acho que até hoje ele me ajuda. A pessoa tá com 68 anos, sadio, que não caiu de nenhum cavalo, acho que meu santo é protetor, não é? Mas também gosto de visitar São Francisco, lá de Canindé. Também vou rezar no Padre Cícero todo ano. Eu mesmo faço minha romaria e vou.

OP - Por que o senhor acha que é importante manter e ensinar um trabalho como o seu de geração para geração?
Espedito - Acho que tem tudo a ver com o nosso Ceará, nosso sertão, nosso lugar. Eu, por exemplo, via meu avô trabalhando nisso aqui para se manter. Além de servir para você se manter e sua família, é uma tradição que alguém que não conhece chega aqui para ver um chapéu. Dá muita gente de fora. Acha bonito, mas se a gente não disser que é chapéu de vaqueiro, não sabe. É por isso que a gente mantém até hoje.

OP - Para o senhor, o que é essa sabedoria do fazer? O que representa essa sua arte?
Espedito - Acho que a gente já nasce aprendido. Não tem aula disso aqui. Eu que já dei muitos cursos por aí afora, é difícil o cara aprender. Mas eu já nasci dentro da oficina, vendo meu pai fazer e aprendi. Com os meus filhos, do mesmo jeito. "Casa de pai, escola de filho". Se não tiver um sanguinho de vaqueiro, não é vaqueiro nunca.

OP - O senhor foi vaqueiro?
Espedito - Não, meu pai que era. Que aprendeu a fazer os equipamentos para vaqueiro com o pai dele. Eu aprendi também algumas coisas com meu pai.

OP - O senhor teve instrução completa na escola?
Espedito - Não. Estudei só o suficiente. Ler um pouquinho, escrever umas coisinhas. Não tive muito tempo de estudar, não.

OP - A sua faculdade foi o couro?
Espedito - É, foi o couro.

OP - Mais seu pai, avô e bisavô?
Espedito - É uma herança que ninguém nunca tomou.

OP - O senhor é um homem rico, então, com isso aqui?
Espedito - Eu me considero rico, sim. Porque nunca fui empregado de ninguém, um caboco nunca mandou na minha vida nem eu mandei na vida de ninguém. Um bocado trabalha comigo, mas eu não mando na vida de ninguém, só faço pedir.

OP - O senhor chegou a pedir para seus filhos virem trabalhar aqui?
Espedito - Eles já nasceram dentro da oficina. Estudavam e trabalhavam. Eu, como nasci no sertão dos Inhamuns pracolá, o cabra estudava a carta de ABC num pedaço de pau. Eu não tinha tempo de aprender.

OP - São quantas horas por dia na oficina?
Espedito - Eu me levanto da cama às quatro e vou dormir às dez da noite. Se tiver a quem vender, tô vendendo. Se não, tô trabalhando.

OP - E esse perfume que sai do couro?
Espedito - Pra mim, é uma saúde. É um cheiro doce e abençoado. É o couro do gado. Você sabe que gado é abençoado, né?

OP - O senhor compra o couro onde?
Espedito - Direto do curtume. Compro em Juazeiro do Norte, Juazeiro da Bahia e Campina Grande. Não gosto de ver o gado sendo morto, mas vivo dele. Os outros exploram e eu termino. A riqueza do sertão é essa mesmo.

OP - O que é Nova Olinda para o senhor?
Espedito - É tudo na minha vida. Cheguei aqui em 1951, tinha entre 8 e 10 anos. Nasci em Campos Sales. Meu pai voltou pro sertão, foi ser vaqueiro lá em Assaré e eu fiquei. Comecei fazendo só sela, gibão, chapéu, equipamento pra vaqueiro. Tinha bastante encomenda. Todo mundo na época tinha que ter um cavalo gordo na roça e uma sela boa que Espedito Seleiro fazia.

OP - E o senhor ainda quer ficar quanto tempo fazendo esse trabalho?
Espedito - Eu acho que enquanto puder trabalhar e tiver um pouco de saúde, fico aqui mesmo. Pra ir embora daqui, também não vou. Já teve quem me oferecesse um prédio com maquinário completo para eu ir pra São Luis. Não vou de jeito nenhum. Acho bom é o cara de São Luis vir aqui pra comprar de mim. Que é pra ajudar a mim e ao pessoal da cidade. Não é bom assim?

OP - E o senhor participou de um desfile?
Espedito - Fui para o desfile da Cavalera (grife de moda), no São Paulo Fashion Week. Fiz as peças para o desfile, eles me convidaram para assistir e eu fui. Também desfilaram com umas roupas minhas na Mangueira.

OP - O senhor sabe que também já uma grife?
Espedito - (Risos) Sei não.

OP - Já vende pro Brasil todo?
Espedito - Até pro mundo inteiro.


FRASE:
"O cearense tem muito o que nos ensinar", cardeal Aloísio Lorscheider, ex-arcebispo de Fortaleza

Fonte: Jornal O Povo

Irauçuba - Nascer Rabecas


No miúdo Juá, território da árida Irauçuba, um erudito - que mal sabe desenhar o nome - arranha o clássico Assum Preto na rabeca cor de vinho. Para ser fiel e risos do cicerone, "tinta vermelha de caneta" Bic. Silvino Veras D´Ávila se apresenta, para quem não é filho do povoado, como o mestre Vino, dos 91 anos, dois casamentos, 21 filhos assumidos, 40 netos e 80 bisnetos. Dali em diante, o chafurdado alpendre-oficina da casa se transforma em palco para forasteiros que chegam de longe no rastro de conhecer o fazedor de violino caboclo. E o enxame se faz. Parentes, vizinhos escorados no batente, passarinho de gaiola, menino curioso, cachorro e até quem se aproveita para pedir um auxílio.

Dizer a verdade, o luthier é hoje a biografia mais conhecida entre os 1.600 habitantes do distrito de Juá e redondezas. E, sem exagero, é mais visitado que a padroeira Nossa Senhora da Conceição (festejada apenas nos dezembros), que o Vila Juá Futebol Clube e o açude São Gabriel. Foi por causa de seu Silvino, arrisca Chagas Galdino - proprietário do clube dançante Forró do Farofa -, que descobriram Juá no mapa do mundo e do Ceará. "Se não fosse a arte de mestre Vino, ninguém acertava com o caminho daqui".

Graças ao dom de transformar pedaço de madeira em rabeca e carpir acordes, seu Vino virou verbete na Internet, homem de entrevistas, objeto de estudo acadêmico e mestre da cultura cearense e do mundo. Título concedido em 2007 pelo governo do Estado. Mas antes, muito antes, ele já era mestre. Popular e erudito. Erudição nordestina, brasileira. Desde os anos 30, quando fez ranhar a primeira rabeca. "Mal feita, mas cantou".

E de lá pra cá, quantas rabecas teriam sido concebidas por mestre Vino? "Hein? Mais de 100", chuta, meio mouco em orelhas grandes. Foi não. Puxando das lembranças, vai buscar em 1935 o entusiasmo de ter conseguido dar vida ao primeiro instrumento e ter virado artesão. "Então, tá pra mais de 100, né?". Ora 100! "Só pra uma professora de Irauçuba vendi 20, ela fez uma orquestra que tem o meu nome (Banda de Música Mestre Vino de Irauçuba)", enche o peito e levanta a vista meio às cegas.

Problema que não é motivo de resmungo para quem tem 91 anos e está no limite da estrada que já aponta o destino. Os olhos podem até ter perdido naturalmente "90% da luz", mas as pernas ainda obedecem e as mãos enxergam o martelo, o serrote, o cipilho, o escopo, a faca pra raspar e outros cafiotes separados em sacos plásticos. Cada saquinho, depois do ofício, é pendurado por ele em pregos da parede.

No dia em que estivemos por lá, na manhã quente de uma segunda-feira de fevereiro e moscas de inverno, havia um esqueleto de rabeca exposto no mourão usado como mesa de criação. "Levo um mês pra fazer uma. É mal feita porque não tem maquinário, mas toca bem. Por cem mil réis (cem reais) já vendi muitas pra Fortaleza, Brasília, Sobral, Manaus, Irauçuba e até Portugal", mapeia o reconhecimento levado na bagagem alheia.

O caminho que leva à cidadezinha de Juá aparece no Google Earth. Quem não souber acessar, tome a BR-222 rumo ao sertão. Em Irauçuba, o mundo inteiro indica onde fica o Juá de mestre Vino. São 20 quilômetros de estrada carroçável até chegar à rua José Fernandes Filho, numeral 388 da Funasa. Lá tem uma placa de metal, com o rosto e o nome do rabequeiro. Se chegar no fim da tarde, depois do "expediente" do luthier, procure-o, feliz da vida, se servindo de uns goles de Zinebra e miolo de pote na bodega de seu Tarcísio.


NOTAS

- Mestre Vino diz que já tocou em festa de São Gonçalo, Reisado, Carnaval e até no Circo Filipinho. O que pedir ela acompanha: xote, baião, maracatu, marcha, frevo, bolero, fox, mazurca, mas sua preferência é pela valsa. Nos arrasta-pés onde se danava, "toda mulher bonita era minha namorada".

- A rabeca de mestre Vino leva raiz de juazeiro nas laterais, cumaru e umburana de cheiro na parte da frente e fundo. No que chama de pescoço (braço) emprega pau-d´arco. Segundo ele e o filho Francisco José, madeira já derrubada no mato que não prejudica a natureza.

- No livro Rabecas do Ceará, de Gilmar de Carvalho, estão catalogados 105 rabeqieiros. A maior parte deles está em Tauá (Inhamuns) e Guaraciaba do Norte (Ibiapaba) com 16 e 12, respectivamente.

- Gilmar de Carvalho entrevistou luthier em Irauçuba, Uruoca, Saboeiro, Arneiroz, Varjota, Granja, Aurora, Quiterianópolis, Baixio, Graça, Carnaubal, Viçosa do Ceará, Itapajé, Reriutaba, Boa Viagem, Acopiara, Senador Pompeu, São Benedito, Quixadá, Crateús, Iço, São Benedito, Tianguá, São Luis do Curu, Pedra Branca, Caririaçu, Parambu, Quixeramobim, Umirim, Iracema, Mombaça, Madalena, Miraíma, Quixadá, Itapipoca, Novo Oriente, Sobral, Tabuleiro do Norte, Juazeiro do Norte e Independência.

- A tradição de fazer e tocar rabeca, segundo Gilmar de Carvalho, vem do "kamantché" persa, passa pelas cordas européis e por um "surpreendente e dionisíaco instrumento de aroeira, couro e tripas de carneiro, conhecido por nabim, fabricado e tocado em Crateús".

- A maior parte dos rabequeiros do Ceará tem idade avançada. Mas algumas iniciativas tentam passar a tradição. No município de Itapajé, há programa de iniciação musical com rabeca; em Nova Olinda, a ONG Casa Grande é a multiplicadora. Em Juazeiro do Norte, há experimentação da luteria. E bandas como Dona Zefinha (Itapipoca) usam o instrumento.

Fonte: Jornal O Povo

Santana do Cariri - A batalha dos coronéis


Hoje é calma e orgulho, mas já foram batalhas de morte. Homens no tempo dos mosquetões em punho e pólvora socada no cano da arma. Fardões contra o gibão. Rastro de sangue, crueldade, dor e medo. População saqueada e afugentada pelas investidas dos bandos de cangaceiros a cavalo com suas espingardas e facões, gritando para matar ou morrer. Do outro lado, entrincheiradas, tropas de capangas firmando rifles, facas, punhais e o que pudessem usar para proteger seus patrões e a cidade. Dentro de uma motivação particular de somente dois senhores. Pavor em dias de "fogo" (era como chamavam os ataques) que datam apenas de 1920.

Agora tudo é apenas gente pacata, lugar sombreado, silencioso, paz e beleza ao sopé ocidental da Chapada do Araripe. A espada contra a bala da chamada Guerra dos Coronéis é um conto muito recente da história de Santana do Cariri. Os livros e a oralidade ainda começam a recontar essa passagem. Foram quase dez anos de luta armada. A disputa do senhorio local para ter a posse da Intendência do município - ainda nem havia prefeitura.

Mesmo a guerra pode ser contada como um grande momento da história de uma gente. De um tempo seguinte que ajudou a desenvolver o lugar e o sentimento de pertença. Diz-se que o major Manoel Alexandre Gomes, que mandava feito coronel, queria a todo custo ser intendente de Santana. Tinha como aliado de batalhas um irmão do temido Lampião. Valia tudo para destituir do cargo o coronel Felinto da Cruz Neves, que morava na Casa Grande, no centro da cidade, e era homem respeitado.

Parecia não ser só ambição e poder político o interesse pela coisa. Falam que tudo começou por pequenas rixas, desentendimentos entre o pessoal do major Manoel, que morava no sítio Ipiranga, e gente de Santana protegida do coronel Felinto. E contam também de uma mesquinhez. A peleja teria sido lançada ainda mais cedo, em 1911. Quando o governador do Ceará visitou o casarão recém-inaugurado, que saíra dali fascinado de um banquete, regado a vinho português e carne de faisão no prato principal. A notícia de que ninguém da região daria tamanha acolhida se espalhou e teria gerado ódio e ciúme nas fuças do major. Foi a gota.

Depois disso, morreram muitos. O historiador Raimundo Sandro Cidrão, morador de Santana, relata que até o último fogo, em janeiro de 1927, esquartejavam, degolavam, acuavam. Grávidas davam à luz no terror, o "couro das costas" era arrancado, o crânio partido a marreta, carne humana dada aos cães, valas comuns para os adversários ou mesmo para os amigos mortos não mais reconhecidos depois da carnificina. Até imagens sacras eram crivadas de balas.

Manoel nunca assumiu o poder de Santana. Porém, quando tudo já parecia acalmado da guerra dos dois, mandou matar Felinto traiçoeiramente. Na tarde de 29 de março de 1936, dia de eleições municipais, quando o coronel tentaria sua sexta indicação ao comando da cidade. O mandante do crime saiu fugido, desistiu da matança e foi morar em Juazeiro do Norte, onde morreu anos depois de morte natural. Mas lá imperava "a lei do mais forte", o poder na marra. E tudo isso foi só há algumas décadas.

Ao passar por Santana do Cariri hoje, não dá para imaginar a cidade sob aquela brutalidade. O casarão neoclássico do coronel Felinto Cruz é o principal símbolo daquele tempo, preservado e transformado num museu que agora descreve parte desse passado. Santana nem era povoada até meados do século XVIII. Era terra de andança dos buxixés, índios nômades que se abancavam perto do rio Cariús. Já foi Santana do Brejo Grande, Santana do Araripe, Santana do Cariry (antes com y no final), Santanópole e voltou ao nome Santana do Cariri.

Há uma história ainda mais anterior, de alguns milhões de anos. A região também já foi vale de dinos e pterossauros, lagartos, peixes e crocodilos. Lá está a maior jazida fossilífera do Brasil, de 100 milhões de anos. Muitos desses fósseis foram arrancados e traficados por vários anos. Hoje o que se destaca é a bandinha de música, o casario, a festa de Nossa Senhora Santana, o estudo científico no Geopark do Araripe, o maneiro-pau, a dança de São Gonçalo, a lembrança dos engenhos de alfenins, rapaduras e batidas, o Pontal de Santa Cruz. Uma riqueza agora partilhada sem atritos de morte nem crimes.

Notinhas - Santana do Cariri

- Luiz Tomaz Sobrinho mora quase ao lado do Pontal de Santa Cruz. Fez um pomar, embelezou com pedras pintadas e quer plantar caju lá. A casa é simples, mas chama atenção a cerca de 50 metros dela uma grande estátua do Padre Cícero. De aproximadamente um metro. Ornada com flores e velas. Só para ele, a mulher e a enteada adorarem o Padim. Se Luiz se vale da fé para brotar seu roçado e pedir saúde. "Já fui desenganado, iam cortar minha perna por causa de uma espinhada. Tô bonzinho". E o lugar mais bonito.

- A lenda é que a cruz do Pontal foi botada lá para afastar demônios. A mando do papa. Foi inaugurada justamente no 1º de janeiro de 1901, passagem para o século XX. Há uma cruz de madeira, pequena, já derrubada por raios e recolocada, e uma maior, de ferro, oito metros de altura. Vista para uma paisagem deslumbrante de todo o alto da chapada.

- Ao lado da cruz está a igrejinha de São Bom Jesus das Oliveiras. Singela. É tradição da Igreja Católica montar templos nas colinas para lembrar a pregação de Cristo no horto, antes de sua agonia e ressurreição.

FRASE
"Eu sô fio do Nordeste, não nego meu naturá", Patativa do Assaré, poeta popular

Fonte; Jornal O Povo

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