domingo, 15 de março de 2009

Sobral - Sem o becco não se vive


O sol de Sobral não esfria fácil. Nem na sombra, não é lenda. Um mormaço enseba o rosto e a murrinha faz cangalha nos ombros e pia os pés de quem não está acostumado com o abafado que se demora por uma tarde inteira. Sobral não se incomoda de também ser assim. E causa espanto ver que as xicarazinhas de café quente do Café Jaibaras, um dos dois arcos de entrada do Becco do Cotovelo, não param de ser servidas pela simpatia de dona Expedita e seus 30 anos de pés de balcão. É ela que me oferece um preto pegando fogo, enquanto recolhe as vasilhas sobejadas. Balanço o indicador em riste, feito rabo fino de vira-lata sedento, e provo por sugestão do outro repórter um geladíssimo guaraná Del Rio. Ao preço de 60 centavos, cheiro e gosto de tutti frutti e infância, a invenção sobralense é um refresco. Imbatível. Por lá, chega a vender mais do que Coca-Cola.

Estamos no freje de Sobral, no Becco torto (por isso Cotovelo) mais frequentado que se tem notícia na região norte do Ceará. Encruzilhada inevitável por onde passa gente de toda laia: sobralenses ou viajantes, bacanas ou desprovidos, desocupados e compromissados. Seu Expedito Vasconcelos, 65, dono do Café Jaibaras há 30 anos (o estabelecimento já fez 55), dá notícia de Fernando Henrique Cardoso, Adísia Sá, Fernando Collor de Melo, Leonel Brizola, Ciro Gomes, dom Aldo Pagotto, Cid Gomes, Ary Sherlock, Rachel de Queiroz e outros. Já tomaram café servido por dona Expedita e deixaram a prova por escrito.

Para que o Becco nunca deixe de ser perene na memória, quem é "ilustre" e passa por lá é convidado a deixar recado e autógrafo em um livro que se propõem a ser parte da história do lugar em qualquer tempo. Inventado há 15 anos, FHC foi o primeiro a rubricá-lo. Por falar em "celebridades", Expedito Vasconcelos - eleito pela troça como "prefeito do Becco" - avisa que vai inaugurar uma "parede da fama" no Café Jaibaras. "Pés na Hollywood, mãos na Princesa do Norte", faz piada.

Porém a história dos mais de 150 anos do Becco do Cotovelo - seu surgimento é do fim do século XVIII, vai além dos visitantes efêmeros e é tramada por uma vastidão de universos que encarna o espírito de uma autoestima sobralense desmedida. Transborda os limites de seus 100 metros de tamanho e subjetividade.

O beco pode até ter nascido "engembrado", sem alinhamento, com a única serventia de ligar a Rua Velha do Rosário do povoamento da antiga Caiçara - primeiro nome de Sobral - à Rua Nova do Rosário. Mas hoje, entre a atual coronel José Sabóia e a coronel Ernesto Deocleciano há um entreposto etnográfico onde Sobral se refaz "passagem e permanência" segundo o olhar do pesquisador Gilmar de Carvalho (UFC), mestre, doutor e pós-doutor na investigação da diversidade cultural.

Sim, se para lá vão os políticos com o intuito de serem vistos e propagados por Sobral inteira, no Becco os próprios anônimos editam o fluxo das notícias políticas, futebolísticas, cotidianas e das maledicências sobre a vida alheia que dali correm pela cidade dividida - geográfica e socialmente - pelas ribeiras do Acaraú.

O factual ou boato surge de uma hora pra outra em meio à polifonia do burburinho. No pregão zoadento de quem está vendendo bugigangas ou no momento de fazer uma fezinha com seu Danrley, cambista do Becco há 40 anos. De lá, pode passar pelo vão apertado do mestre em consertar relógios de ponteiros Elias Felix Rocha, 87 anos, 66 de Cotovelo e fervilhar na banca de revistas pornôs de Felizardo Alves Figueiredo. Desletrado desde que nasceu há 75 anos, ele repete que reza por noites curtas e fins de semana breves na ânsia de "tornar", madrugador, ao redemoinho do Becco da velha Caiçara. "Sobral não é Sobral sem isso aqui".


CAMBISTA POETA
Danrlei, o cambista mais antigo do Becco do Cotovelo, é na verdade Raimundo Arruda de Sousa. Nem ele sabe por que ganhou esse segundo nome. Perto de fazer 74 anos, 40 frequentando o Becco de domingo a domingo, Danrlei já foi cantor de escola de samba, crooner de pé-de-serra, cordelista e jogador juvenil do Calouros do Ar.

BOCA NO BECCO
"Tá na boca do Becco,
Feliz ou infeliz de quem cair,
Se fala aqui de todo mundo.
E em um segundo
Você pode até crescer ou decrescer.
Cuidado com a escorregadinha.
Qualquer coisinha
Não tem apelo.
Vai cair
No Becco do Cotovelo
Time campeão
Tá na boca do Becco.
Quem ganha a eleição
Tá na boca do Becco.
Quem é ou foi ladrão
Tá na boca do Becco.
Corno, gay ou sapatão
Tá na boca do Becco".
(Danrlei Cambista)

ALGO DÃO
O Becco do Cotovelo foi cenário da instalação/site specific e vídeo "Algo dão", em 2005, da artista paulista Bia Cordovil. Duzentos quilos de algodão hidrófilo deram outro uso ao espaço do epicentro de Sobral. Novelos rolaram do museu Dom José Tupinambá da Frota interferiram no cotidiano do beco. Fale com artista pelo email: biacordovil@yahoo.com.br

DICA DE LIVRO
Cafezinho a R$ 0,50 é a especialidade do Café Jaibaras. Mas lá também, o freguês pode comprar por R$ 30,00 a 3ª edição do livro História de Sobral. Um clássico lançado, em 1952, por dom José Tupinambá da Frota, primeiro bispo da diocese de Sobral. A obra é um documento de 629 páginas sobre a origem da Caiçara e fatos históricos do Ceará.

GUARANY DE SOBRAL
Em uma das paredes do Flora Café, na esquina da Coronel Ernesto Deocleciano, estão expostas camisas rubronegras. Do Flamengo? Nem pensar, quem canta de galo em Sobral é o Guarany. Equipe do baixinho Clodoado, ídolo do time de Luiz Torquato, também proprietário do Flora Café.

TEORIA DA RELATIVIDADE
Foi pelo Sol de Sobral que se comprovou a Teoria da Relatividade. Dia 29 de maio próximo, será o 90º ano em que a cidade foi visitada por uma expedição científica, dos pesquisadores Charles Davidson e Andrew Crommelin, a mando de Albert Einstein. Com fotos de um eclipse naquela data, registraram a reflexão da luz nas proximidades do sol. Sobral tem o Museu do Eclipse para registrar a importância que a cidade teve para o novo entendimento do universo.

FRASE
"O problema concebido pelo meu cérebro, incumbiu-se de resolvê-lo o luminoso céu do Brasil." (Albert Einstein, cientista, após comprovar a Teoria da Relatividade a partir de Sobral-Ceará)

Fonte: Jornal O Povo

domingo, 8 de março de 2009

Histórias e causos do Barão de Aquiraz


Localizado no distrito de Genezaré, em Assaré, o casarão do Barão de Aquiraz sofre com a falta de conservação. Construção de meados do século XIX, a casa foi erguida por mão de obra escrava, com material extraído da própria região. Hoje se encontra desabitada e sem uso, mas, para os moradores daquela localidade, é um verdadeiro baú de histórias fantásticas. Por vezes, é o Barão que surge como figura cruel, cometendo atos de perversidade com os escravos; em outros momentos, é o fantasma, que indica onde estão escondidas as botijas que deixou; além de histórias de quem se aventurou a ir até lá ou passar uma noite sob o teto da velha casa.


Detalhes do casarão do Barão de Aquiraz, em Assaré: cenário das histórias do município e de contos do imaginário da região (Foto: Thiago Gaspar)






Envolto em lendas, o casarão do Barão de Aquiraz sofre com falta de conservação

Gonçalo Baptista Vieira (1819 - 1896) foi um homem marcado pelas contradições do tempo em que viveu. Grande senhor de terras, foi uma das lideranças políticas do Ceará monarquista; opositor da república, era simpatizante dos abolicionistas; investiu em ferrovias que cortavam o Estado; e recebeu de Dom Pedro II o título de Barão de Aquiraz.

Mais de 100 anos após a sua morte, o Barão de Aquiraz é uma figura pouco conhecida na História do Ceará. Em Assaré, município onde manteve uma fazenda, é lembrado como um personagem bem distinta daquela que os historiadores esboçam. De líder político e empreendedor, o Barão se converteu em personagem fantástico no imaginário do povo.

Apesar da falta de conservação e do desgaste natural, o casarão da fazenda que pertenceu ao Barão de Aquiraz, na localidade de Infincado, alimenta as histórias em torno de seu antigo dono. Histórias de assombração, de fortunas enterradas, protegidas por artifícios mágicos, além de “causos” a respeito da própria crueldade do velho Barão. Na cidade, a casa grande do Barão de Aquiraz e os causos são bastante conhecidos. No entanto, um número muito pequeno teve a oportunidade de vê-la de perto. “Ela fica muito longe. A estrada pra lá é ruim, além de não ter nada. É só mato”, conta o comerciante João Palácio.

O real e o fantástico

A localidade de Infincado fica em Genezaré, distrito de Assaré, distante 24 km da sede do município. O terreno acidentado, da estrada carroçável, estende o tempo de viagem, chegando a duas horas de carro. Quando se chega em Genezaré, é preciso atravessar a área povoada, com casas, praça e capela própria. Segue-se outros 10 km até chegar ao casarão.

Casa e personagem são protagonistas e coadjuvantes de histórias fantásticas. O cenário é mesmo, mas mudam os tempos - indo de causos de quando o Barão de Aquiraz era vivo ao tempo presente, quando este sobrevive como vestígio.

Douglas Nogueira e Erisberto Gonçalves, da Associação de Jovens de Genezaré, pesquisaram sobre a história da casa e colecionaram causos. No campo da história, os dois jovens falam de um rico senhor de terras, que em seu auge financeiro, teve propriedades em Campo Sales, Potengi, Araripe e para além dos limites do Estado, em Pernambuco e no Piauí. Construído em meados do século XIX (não há uma data precisa de sua fundação), o casarão é robusto, com 72 portas, com paredes largas e estruturas em cedro. Foi erguida pelos escravos da propriedade, que moldavam as telhas nas próprias pernas.

No campo do imaginário, mantido por narrativas que passam de geração à geração, o lugar foi palco de cenas de crueldade. “Os moradores mais antigos de Genezaré contam que o Barão era um homem muito perverso. Certa vez teria feito um escravo carregar uma pedra enorme, de um córrego há quilômetros da casa. Quando ele chegou lá, caiu morto, com a pedra por cima”, conta Douglas Nogueira.

O temperamento cruel do fazendeiro reaparece quando se conta dos escravos que mandou matar. “Era um casal de negros, que tinham um caso. O Barão, que era apaixonado por ela, ficou louco quando soube e pôs fim a vida deles. Depois disso, o povo conta, que ele passou a ser assombrado pela alma dos escravos. Ouvia correntes sendo arrastadas, as redes da casa eram sacudidas. Ainda hoje tem quem diga que você ouve essas correntes à noite”, narra Erisberto Gonçalves.

Curioso a descrição da crueldade do Barão para com seus escravos. A história o registrou como simpatizante do abolicionismo. Em março de 1883, antes da abolição da escravidão no Ceará, o proprietário teria dado a carta de liberdade para seus cativos.

O descompasso entre a história oficial e aquela que a tradição oral mantém viva. Não há necessidade de comprovação, mas do funcionamento de uma narrativa, que acaba por reproduzir o imaginário e os valores de uma comunidade.

Caso emblemático é o de uma narrativa sobre a morte do Barão de Aquiraz. É Douglas Nogueira quem a reproduz: “quando ele morreu, o corpo saiu da sede da fazendo, em cortejo, com familiares e escravos da propriedade. No meio do caminho, a família encontrou dois escravos, que pediram para carregar a rede, sob ordem do cemitério. Eles partiram na frente e a família os perdeu de vista, quando encontrou foi só a rede e as madeiras. Nenhum sinal do corpo ou dos homens que iam carregando ele”. A história contradiz o que ficou registrado nos documentos do morto. Falecido em 1896, já não existiam escravos à época; e o Barão de Aquiraz morreu em sua propriedade na Capital, precisamente onde hoje se encontra o Cine São Luiz.

Outras histórias dão conta de aparições do fantasma do Barão, que indicaria onde estão escondidas botijas, dentro e fora da casa. Estas seriam protegidas por uma cobra, que ameaça devorar quem escavar no lugar errado.

Restauro

O estado físico da casa inspira preocupação. Ainda que careça do refinamento de outras construções da época, o casarão de Infincado ajuda a reconstituir o cotidiano de outros tempos. Basta observar o quarto usado como oficina de tear, o suporte para candeias e o piso, de terra batida em alguns cômodos, de tijolos, em outros.

De acordo com Marcos Salmo, secretário de Cultura de Assaré, a prefeitura tem planos para restaurar a casa. “Já tivemos conversas com a Secretaria da Cultura do Estado, para agendar um visita e fazer o levantamento técnico da construção”, explica.

A idéia é que este trabalho seja feito em Abril. “Inicialmente, vamos fazer um levantamento para fazer tombamento por lei municipal e, posteriormente, trabalhar na captação de recurso para fazer restauro”, detalha o secretário do município. Salmo garante que os cuidados com patrimônio material e imaterial são prioridades da secretaria.

Dellano Rios
Enviado a Assaré

Fonte: Jornal Diário do Nordeste

ARTE BRUTA DO CARIRI - Mostra do imaginário popular


Mateu, personagem do reisado, é presença de destaque diante da alegria que transmite (Foto: Elizângela Santos)


Figura do príncipe Ribamar, o poético insano, também está na exposição. Uma homenagem a um personagem quase que totalmente esquecido

São flandeiros, uma arte quase em extinção na região do Cariri, e os xilógrafos de Juazeiro que ganham espaço

Juazeiro do Norte. A arte pura do Cariri em exposição. Com o título “Genuinamente arte, arte bruta do Cariri”, estão expostos diversos trabalhos de artistas da região no Centro Cultural Banco do Nordeste, neste município. São artistas pouco divulgados, mas que agora têm um olhar lançado sobre a arte determinantemente de uma região que envolve um contexto amplo de criatividade artística. Durante a exposição, a homenagem especial é voltada para o príncipe Ribamar da Beira Fresca. Um visionário, considerado louco, ou um louco visionário. José Gomes Menezes se intitulou dessa maneira, poético como ele. Já teve sua forma de ver o mundo descrita pelo ator juazeirense, José Wilker.

O professor Titus Riedl, um dos organizadores da exposição, diz que a meta é levar ao público, até abril, um trabalho de artistas que estão fora da rota do mercado, em que outros artistas da região já estão inseridos. São flandeiros, uma arte quase em extinção na região, e os xilógrafos de Juazeiro que ganham espaço. Um espaço de anjos, floristas, escultores. O Mateu, um personagem do reisado, é uma presença importante e imponente diante da alegria que transmite.

Uma festa tradicional em Juazeiro e que ainda sobrevive ao tempo. Nas áreas das periferias da cidade há quem resgate a tradição de render a fé a São Lázaro, protetor dos cães. São servidas refeições, num grande festejo, a esses animais. Todos se servem num grande banquete preparado especificamente para os mais abandonados. São os vira-latas que têm vez principalmente. Ao meio-dia o almoço é servido, não só para os cães, mas gente também faz parte da comilança.

O personagem de Príncipe apaixonado por Gioconda, de Da Vinci, rodou as ruas de Juazeiro à espera de sua amada, que iria atravessar o Atlântico. Construiu o aeroporto, firmou tratado de paz, com projetos infindáveis, fez nascer das suas imaginações esquizofrênica fábricas de desentortar bananas ou até de fumaça. O homem, de profissão carpinteiro, surtou após a perda da irmã e da mãe. Bem vestido como ele só, o ar solene, e a foto da amada, o noivo prometia a chegada do amor à sua terra. Sempre brincavam com ele, era motivo de risos e chacotas.

De tanto atormentarem e cobrarem a chegada da noiva Gioconda, sempre levada nas mãos, para mostrar ao público a cara de sua futura esposa, o Príncipe Ribamar, sempre altivo, com sua pasta cheia de projetos e diplomas, cartas imaginárias e dinheiro falso, decidiu que ela não viria mais de navio. Uma viagem demorada demais. Seria mesmo de avião.

Ele tinha todos os comprovantes da viagem. Mas, como chegar a Juazeiro sem um aeroporto. Isso não era problema para Ribamar, com roupas cheias de medalhas, guarda-chuva branco, que sempre aparecia de lugar nenhum e partia para nenhum lugar, como bem descreve Wilker, que conheceu pessoalmente o homem insano e poético que percorria as ruas da terra do “Padim” nos anos 50 e 60. Juntou equipe que passou a trabalhar de forma acelerada para o pouso imaginário. E foi no mesmo local onde hoje está construído o Aeroporto Orlando Bezerra de Menezes. Por justiça, diz o ator José Wilker em seu texto, o mais poético e que traduz a personagem de Beira Fresca, o nome do aeroporto deveria ser Príncipe Ribamar da Beira Fresca.

Titus Riedl classifica o Príncipe Ribamar como o personagem mais rico de Juazeiro. Está no esquecimento. O visitante assíduo do Banco do Brasil chegou até a ser homenageado com nome de rua. “Não deixou marcas e nem é lembrado, por isso a homenagem poética da exposição”, diz ele.

O trabalho pode ser uma forma de também chamar a atenção para o abandono social de pessoas que sofrem de algum problema mental, que não têm um acompanhamento.

Elizângela Santos
Repórter

Fonte: Jornal Diário do Nordeste

HISTÓRIA E CULTURA - Vale do Jaguaribe em artigos.


Pôr-do-sol: Paisagem relembra a época de ouro da região, quando a economia estava solidificada com o comércio de cera de carnaúba (Foto: Melquíades Júnior)

Historiadores da Fac. de Filosofia Dom Aureliano Matos lançam ´Vale do Jaguaribe - histórias e culturas´

Limoeiro do Norte. Um dia, guiados pelo Rio Jaguaribe, os invasores colonizadores encontraram os índios, as onças, e fincaram os pés no Vale do Jaguaribe, o primeiro ponto da ocupação no Ceará. Séculos depois da “descoberta”, impulsionados pela curiosidade e a impertinente busca de conhecimento, historiadores por formação encontram papéis velhos, mofados, empoeirados, mas também elementos vivos da memória, das histórias e tradições locais. Numa prova de que a história é passado, mas presente; particípio, mas gerúndio, aguça-se a sensibilidade e estuda-se a própria realidade, já que presente prevê o futuro.

Retratos da realidade do Vale do Jaguaribe e, ao mesmo tempo, recortes universais da humanidade estão grafados em “Vale do Jaguaribe – histórias e culturas”. Não é só um apanhado de artigos acadêmicos, mas a chama da resistência, no Interior, do registro do conhecimento. Apesar de o Cariri ser, emblematicamente, o que primeiro vem à mente de um leigo quando o assunto é Interior deste Estado da Nação, foi na região jaguaribana que teve início a incursão “civilizatória” propriamente dita no Ceará.

Início para uns e fim para outros – os naturais donos, diga-se, já que os índios foram expulsos e dizimados justo no período de sua grande resistência à colonização, na famosa Guerra dos Bárbaros. O Jaguaribe (do tupi: Rio das Onças), virado em mar de sangue, ficou sem onça, índio e até sem água – não fosse perenizado pelos açudes ainda seria “o maior rio seco do mundo”.

Mas outros povos assumiram o lugar, e a partir de quando se fez registro escrito, de vida ou de morte, têm-se aí o alvo dos graduandos do curso de História da Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos, unidade descentralizada da Universidade Estadual do Ceará (Uece), em Limoeiro do Norte. Eles são os autores do livro.

Sertão e cidade

Se for considerado do ponto de vista histórico e social, o livro é sobre o Vale do Jaguaribe, mas geograficamente do que se fala é o Baixo Jaguaribe, especialmente Limoeiro do Norte – locos de dez dos 16 artigos que compõem o livro, que está dividido em quatro partes: Sertão, cultura e trabalho; Cidade, cultura, poder e religiosidade; Campo e cidade – as doenças não têm fronteiras; e Escravidão e ciganos - um olhar histórico-antropológico. Quem já cortou o Ceará de norte a sul e viu que, no meio do caminho tem carnaubal, talvez não saiba que, no meio do curso da história, entre os séculos XIX e XX, o extrativismo desse vegetal colocou a região jaguaribana no mercado internacional. O Ciclo da Cera de Carnaúba, de que fala o professor Olivenor Chaves, organizador do livro. Já dizia padre Antônio Thomaz que “tudo, na carnaubeira, é prestante e amigo. Nenhuma árvore é mais dadivosa e fecunda”, bem sabiam disso que os ribeirinhos de várzea do Jaguaribe faziam riqueza do pó da cera e da palha. No município de Palhano, uma família artesã inteira aproveita a noite enluarada para os serões de trança de palha de carnaúba, a feitura de bolsas e chapéus. O antigo proprietário de carnaubais em Russas, Elias Bento, conta que ganhou tanto dinheiro “que guardava dentro de uma mala, sabe? Comprei casa na cidade pra meus oito filhos. Vamos dizer que eu era rico... A natureza já dava pronta, nem precisava a gente pedir inverno, era como se Deus dissesse: esse povo mora num canto seco, num vão ter o que comer no verão, então-se, eu vou dar a carnaubeira para eles sobreviver, a natureza é muito sábia, tudo que Deus faz é certo, sabia?”, conta.

Obra

Para saber ou lembrar, “Vale do Jaguaribe – histórias e culturas” é uma obra acadêmica destinada à comunidade jaguaribana e aos interessados em conhecer o período de colonização da região. O livro é um encontro de olhares do povo jaguaribano, que escreve e lê, com suas próprias histórias.

De um lado, exercício da pesquisa; de outro, reparo da memória da formação das elites locais e as relações de poder sobre as camadas populares da pirâmide social.

Melquíades Júnior
Colaborador

MESTRE DA CULTURA
Histórias renascem com as relações sociais



Mestre da cultura: Louceria Lúcia Pequeno, destaque no cenário cultural de Limoeiro (Foto: Melquíades Júnior)

Limoeiro do Norte. A publicação de “Vale do Jaguaribe – histórias e culturas” tem um significado novo na historiografia da região jaguaribana, em que pese a predominância de apanhados de memorialistas em outras publicações. Dessa vez são 16 trabalhos científicos, ainda que uma condensação de monografias, e mesmo que tais trabalhos ainda pareçam carecer de dados, mais tempo, mais informações em trabalhos que transcendem à pesquisa histórica, almejam a Sociologia, a Antropologia.

Das relações sociais e econômicas entre famílias de artesãos são feitas as comunidades, as histórias. Curiosidades temperam as relações sociais dos atores jaguaribanos, como as famosas louceiras do Córrego de Areia, em Limoeiro, pesquisadas pela professora doutora Francisca Mendes: “Merece destacar que, aos olhos das louceiras, a lagoa (local de extração do barro) é muito mais do que a extensão de uma terra cheia de escavações. Ela revela caminhos por onde as outras passaram, uma vez que identificam quem esteve antes no local, que quantidade de barro levou e quanto tempo faz, a partir dos sinais deixados nas escavações. Algumas louceiras cobrem os lugares escavados para que as outras não percebam que ali tem um barro de boa qualidade”.

Outras curiosidades a se encontrar no livro: “um escravo de nome Tibúrcio, com idade de deseceis annos, cor mulato, filho de uma escrava minha por nome Joaquina... o alforrio... desde já gosar de sua liberdade... somente impondo a condição de me acompanhar até o fim da minha vida...”. É o trecho de uma carta de alforria na Vila do Espírito Santo, em Morada Nova. Vê-se que o documento pouco valia de quebra de algemas na relação senhor-escravo. Um dos pontos a se destacar da publicação são as centenas de referências bibliográficas.

É preciso concordar com o professor e deputado federal Ariosto Holanda, que escreve o prefácio da obra: o livro representa um significado histórico em si, o encurtamento da distância entre a faculdade e os níveis médio e fundamental de ensino, além da oportunidade de olhar o presente tendo como referência o passado. Ainda diz Ariosto que o material “não deixa de ser um tratado antropológico da região”. Mais do que isso, é uma demonstração de que transbordam em potencial para as ciências humanas os pesquisadores da história – com Geografia, Letras e Pedagogia formam os únicos cursos da área de humanas.

Fundação

Com 40 anos da fundação, a Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos, que não tem curso de Filosofia, carece de cursos como Ciências Sociais e Filosofia; e bacharelado, não somente cursos em licenciatura – motivos para fuga de “cérebros” da região, que não querem enveredar pelo trabalho docente. “Este livro nasceu de um desejo, compartilhado com os bolsistas do Programa de Educação Tutorial (PET) do curso de História da Fafidam, de reunir os resultados das pesquisas desenvolvidas por bolsistas no referido programa, as quais resultaram em suas monografias de final de curso de graduação em história”.

E completa: “a motivação era darmos visibilidade ao conhecimento histórico produzido por nossos alunos, de modo que uma gama variada de público pudesse ter acesso a cada uma das pesquisas selecionadas para compor essa coletânea”, explica José Olivenor Sousa Chaves, professor doutor do curso de História e organizador do livro, em parceria com os alunos do curso de História da Fafidam.

SAIBA MAIS

Trechos


A seguir, alguns dos trechos da obra, para situar o leitor nos aspectos abordados no livro

Farinhada


´Muito importantes até as décadas de 1970, as casas de farinha representam o lugar da memória, o espaço da saudade, embora ainda seja possível se encontrar em funcionamento, pelo Baixo Jaguaribe´

Ocupação

´A ocupação civilizatória no Vale do Jaguaribe teve início no século XVII, em decorrência da criação de gado, a partir de duas rotas de penetração: uma, vinda de Pernambuco pelo baixo curso do Rio Jaguaribe, e outra, procedente da Bahia, vinda pelo alto curso do rio´

Resgate

´Trabalho de amor num terreiro de umbanda em Limoeiro: ´põe-se em um pirex as fotos das duas pessoas, escreve-se os nomes completos nas velas e as coloca sobre as fotos. Depois é derramado mel dentro do pirex, para inundar de doçura a relação que se pretende levar a efeito. Ao final, borrifa-se perfume´
Fonte: Jornal Diário do Nordeste

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Peregrino das cores


Preta Velha do Maracatu, Franco Braga, 46, guarda a sabedoria do maracatu. Figurinista, ele busca o luxo e o brilho para a apagada Domingos Olímpio.

Franco Braga caminha quase diariamente pelas lojas do Centro da cidade. Seus pés são guiados pelos olhos. Eles garimpam o comércio à procura de objetos decorativos, novidades no mercado. “Você tem que sair peneirando. É quase uma peregrinação. Passo o dia todo vendo o que tem numa loja, o que não tem na outra, diferente de São Paulo que em uma loja só você compra tudo. Eu passo todo dia no Centro, mesmo sem comprar. Sei que um dia eu vou precisar e aí eu já sei onde tem. Fora os que me ligam para saber onde comprar determinado material”.

Preta Velha do Maracatu, guardadora da sabedoria e responsável por repassar aos demais a tradição, Franco Braga, 46, funciona como um coringa do Maracatu Vozes d’África. Além de incorporar a hierárquica personagem na avenida, ao lado do Preto Velho, ele assina o modelo de todas as fantasias dos 320 participantes do grupo, que desfila no próximo domingo, às 21 horas. Na concentração, momentos antes de desfilar, ele veste todos, arremata um ponto, ajusta um adereço. Só depois, cuida de sua roupa.

Este ano, o seu maracatu vem com o tema da libertação dos escravos. Personagens como Princesa Isabel, Castro Alves, Zumbi, Chico da Matilde, mais conhecido como Dragão do Mar, estarão na avenida. No desfile, mesmo as personalidades menos “gloriosas” precisam de luxo. As vestes do Dragão do Mar são simples, muito diferente da Princesa Isabel. “Mas ambos podem ser luxuosos. Só não podem ser desproporcionais para não descaracterizar”. Todas as roupas do desfile foram pensadas, desenhadas e tiradas o modelo por Franco. Depois, ele supervisiona o trabalho de oito costureiras. Mas nem todas são do Vozes d’África. Parte delas está com outros maracatus, aos quais está prestando serviço. A casa nesse período vira uma loucura e exige de Franco um jogo de cintura similar ao seu talento. No clima acirrado de disputa entre as agremiações, Franco convive de forma “harmônica” com inimigos de amigos. A casa, localizada no centro, possui três entradas como estratégia de sobrevivência. “Para não ter perigo do povo se encontrar e ter briga. Um entra por ali, fica na sala, outro vai num vão diferente. A gente vai levando. O importante é respeitar profissionalmente cada um, mesmo que seja de opinião diferente”, revela o segredo de tanto carisma.

Franco sobrevive do trabalho manual há mais de 20 anos. “Sempre fui artesão. Eu assistia ao desfile jovem e tinha medo da cara preta. Esse medo de criança... Mas aí o medo passa a ser uma admiração”. Até chegar ao rosto de falso negrume, Franco desfilou na ala de índios, depois com os negros, até chegar à Preta Velha, posto assumido há seis anos e cativado com orgulho. “A partir do momento em que você veste a roupa, você tem que viver a personagem. Você vira uma velha e tem que agir como uma velha. Você veste a roupa e incorpora, ela vem, chega. Na concentração, você já vive o personagem. Na avenida, você vive a emoção”.

Desde quando entrou para o Vozes D’África, somente ano passado ele não participou do desfile. Em 2008, passou o Carnaval em São Paulo, mas dormiu no hotel agarrado com um litro de uísque. Havia fechado contrato com a escola de samba paulista Nenê de Vila Matilde, cujo enredo era Câmara Cascudo. Se aqui no Ceará, os dias que antecedem o desfile são loucos pela demora da liberação da verba municipal, em São Paulo a sensação é a mesma, mas justamente pelo motivo contrário. “É muita fantasia. É muito dinheiro. O acordo era de deixar as fantasias prontas na avenida. Eu passei uma semana sem dormir para terminar. Tanto que eu não desfilei. O samba troando na avenida, e eu dormindo no hotel, com o meu uísque”.

Em Fortaleza, não haveria perigo de repetir o fato. Vozes d’África está no sangue. Apesar de constatar que o glamour do Carnaval de São Paulo supera em muito ao da Domingos Olímpio, ele preferiu voltar para a sua terra Natal. “Eu fiquei muito triste lá em São Paulo. Assistia na televisão, via o samba em São Paulo e no Rio de Janeiro; o frevo no Recife; o axé na Bahia. Quando iam falar do maracatu de Fortaleza, mostravam a arquibancada caída”.

Com a vida entregue ao maracatu, Franco divide seus trabalhos com a atividade de decorador de festas. Do batizado ao casamento, do São João ao Réveillon, ele faz artefatos e deixa a festa ao desejo do cliente. “São artes diferentes, mas quem faz uma decoração de carnaval está preparado para qualquer coisa”. A diferença, no entanto, não fica apenas no estilo da decoração. No carnaval, ele vive e protagoniza a festa; nas demais comemorações, ele não participa. É um profissional. Após entregar o trabalho, debanda para casa. “Eu já estive por dentro dos muros altos da Aldeota, onde acontecem as maiores festas, onde rola o dinheiro, onde só entram as criaturas convidadas. Penetra não tem vez. Nessas, eu não assisto à festa. Entrego e dou o tchau. É a mesma coisa que eu fiz em São Paulo... Entreguei na avenida e fui dormir”, compara.

Paixão festeira mesmo só na Domingos Olímpio e nas demais apresentações feitas, esporadicamente, ao longo do ano. Nas andanças, o Vozes d’África já atravessou o oceano atlântico e esteve na França por três vezes, quando participa de festivais de folclore. “Lá tá o mundo todo te assistindo. O maracatu é uma coisa esperada. A gente fica por último para segurar o público. Só não é valorizado aqui, no povo do Ceará. A gente também se apresenta nas escolas. Você tem que levar a cultura para o povo. Você carrega nas costas e não tem preço que pague”.

Fonte: Jornal O Povo

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A doença do carnaval.



Na proa do Maracatu Nação Baobab, Raimundo Praxedes, 61, começou no Carnaval atrás do balcão - literalmente. A paixão surgiu quando ainda trabalhava numa loja que vendia serpentinas e máscaras. De lá para cá, a doença só fez piorar.

A doença foi arrasadora. Raimundo Praxedes tinha 24 anos, a saúde em dia, pernas e braços fortes, cabeça no lugar. Mesmo assim, foi tiro e queda. Trabalhava na loja do tio, no Montese. Era 1972, não lembra direito. O Bazar das Novidades comercializava artigos que, em fevereiro, iam parar na avenida, enfeitando os corpos suados dos brincantes. A loja foi o cenário do mal que veio rasteiro. Primeiro fez-se curiosidade. Depois, comichão. Até que finalmente levou Praxedes embora.

“Todo mundo que brincava Carnaval me convidava pra dançar. Eles iam comprar alguma coisa e me chamavam. Eu ia pro corso pra olhar o material que a gente vendia, que a gente fazia. A minha história de Carnaval começa aí.” Praxedes era contínuo. Passava os dias cotejando entradas e saídas, conferindo gastos, estabelecendo limites para as compras. Era um tipo de burocrata da folia. Ganhava dinheiro com a festa, mas não se interessava por ela. De tanto convidarem, uma hora ele cedeu. Foi assistir a um desfile de Carnaval. Na avenida, viu o colorido de máscaras, plumas, paetês, confetes, serpentinas. Os mesmos apetrechos que ele contabilizava. “Depois montei minha própria escola de samba.” Assim, operação lógica, de espectador a líder de escola de samba. Como dois e dois só pode ser quatro, Praxedes abraçou a doença. Passou a viver dela.

Logo no começo, antes de montar escola própria, Praxedes foi incumbido de tarefa aparentemente simples: criar um maracatu pra desfilar dentro da escola Girassol. Como se fosse uma ala de baianas. As idéias pipocaram na cuca do carnavalesco incipiente, e a luzinha piscou no alto dela: farei um maracatu diferente. O grande diferencial: ele vai ser alegre. “O maracatu não é essa batida fúnebre. É alegre, porque é do negro. É contagiante. É pra cima. O negro passava o dia inteiro na chibata, mas de noite ele tava lá tocando os tambores. Batiam nem que seja numa tábua, invocando os caboclinhos deles, sobrevivendo, fugindo. Como fez o Zumbi dos palmares.”

Nessa época, o maracatu de Fortaleza era algo estranhíssimo. Tinha as figuras dos orixás, as porta-estandartes, uma ala de africanos, outra de baianas. E índios. Não os tapebas, tremembés, pitaguarys ou jenipapo-kanindé, mas sioux, os famosos indígenas dizimados por colonizadores vindos da Inglaterra há alguns séculos. Não aqui, obviamente. Nos distantes Estados Unidos da América. Eles vestiam calças e camisas de couro cheias de uma franja que estalava no ar a cada passo de maracatu. Eram bonitos de se ver, mas totalmente alienados da cultura local. Praxedes manteve africanos, orixás e porta-estandartes, mas sacou fora os gringos. Em seu lugar, pôs índios da casa. “Há um estudo afro dentro do meu maracatu que torna ele diferente de tudo aqui em Fortaleza.”

A cura é o maracatu
Num dia qualquer de 1994, Isidoro Santos, um figurinista de Carnaval respeitadíssimo na cidade, bateu à porta de Praxedes. Por recomendação médica, tinha que fundar um maracatu. Praxedes achou a conversa estranha. Nenhum médico receitaria maracatu. Mesmo um falso médico evitaria dar tanta bandeira sugerindo ao paciente que fundasse um bloco de maracatu e fosse desfilar no Carnaval. Mas Isidoro Santos já era parceiro antigo. Por muito tempo, havia executado as criações do amigo. Praxedes tinha a idéia, Isidoro a tornava realidade. “Nem no Rio de Janeiro tinha um figurinista como ele. Eu não queria fundar o maracatu, mas sabia que era pra melhora dele. E assim nasceu o maracatu Baobab.” Ele sabia das complicações de saúde de Isidoro. Sabia de sua doença por Carnaval. Atendeu o pedido prontamente.

Mas antes da fundação do Nação Baobab por recomendação médica, Praxedes viajou. Pesquisava outros maracatus. Percorreu Norte e Nordeste, mas foi em Recife que deu de cara com um maracatu diferente. Lá, a modalidade tinha um enraizamento na cultura afro que Fortaleza nunca vira. Os blocos saíam dos terreiros e passavam por um longo ritual de oferendas e pedidos de bons agouros. Em seguida, outra etapa iniciava-se, a de agradecimentos. Estava tudo escrito no grande livro da matriz africana. Era só fuçar, cavar, cheirar e aprender. O maracatu era profundo. Espaço algum sobrava. A doença havia tomado Praxedes por inteiro. Mesmo assim, ele casou quatro vezes, fez sete filhos. “Cansei de pagar pensão”. Numa das investidas, conheceu a ex-companheira Eulina Moura, a primeira rainha mulher do maracatu de Fortaleza. “Todo mundo na cidade disse que eu estava gostando de um travesti que desfilava em maracatu.” Tudo porque era tradição ver homens vestidos de mulher desfilarem como rainhas na avenida. Mas Eulina era diferente. Era mulher de verdade.

No ano seguinte ao de sua fundação, o maracatu Nação Baobab ganhou o primeiro desfile organizado pela prefeitura da capital cearense. Era 1995. Na Bela Vista, casa do bloco e sede da empresa de realização de eventos de Praxedes, houve festa. No terreiro do bairro Jardim Jatobá, também. Porque é lá que acontecem a concentração espiritual do maracatu, “a matança de animais de duas e de quatro pernas, o arreamento da farofa e do sangue, os agradecimentos aos orixás”. Na Domingos Olímpio, as novidades levadas pelo Baobab garantiram o topo da classificação. Entre elas, uma loa genuína, alas de africanos e cenografia refinada. Era uma mistura do tradicional e do moderno. Destaque algum precisava suster na cabeça quilos de frutas de verdade. Levava as réplicas de mentirinha, feitas de plástico e bem mais leves, que lhe permitiam dançar por mais tempo e com mais graça.

“O maracatu é uma doença. Se entrou, você fica fascinado pela história. Você fica doido.” Neste ano, pela primeira vez, o Nação Baobab sai com loa própria, composta por Praxedes numa das recentes viagens. Mesmo assim, a opinião da família não muda: carnaval é coisa de louco. Da leva de filhos, nenhum integra o maracatu. Os filhos são outros. Vêm da comunidade da Bela Vista. No próximo domingo, “a gente quer montar uma coisa bonita e se orgulhar do desfile. A rainha vai ser rainha, ela passa três meses costurando o vestido dela pra ser a melhor rainha da avenida. Você vai ser um rei, mas durante uma hora tu vai ser um rei de verdade. Meu rei é um rei de verdade. E o cara mora ali, num barraco em terreno invadido.” Na Domingos Olímpio, porém, Praxedes vira curandeiro: para qualquer doença, receita maracatu. Tira o peso das costas dos seus destaques. Faz da fruta artificial um encantamento. O feitiço dura 40 minutos, o tempo exato do desfile.

Fonte: Jornal O Povo

domingo, 15 de fevereiro de 2009

3 visões sobre a cearensidade



MAIS OU MENOS DIVINO - TARCÍSIO MATOS, Escritor

Não creio seja o cearense um povo morredor. Não é qualquer furinho (ou mesmo a morte) que faz o cabra "embiocar" no fundo duma rede e amargar tristeza de querer sumir. Não digo que seja o mais confi ante em si. Apenas é diferente ao encarar o quem vem contra. Se sofrer fosse poetar, cearense figuraria como sujeito do poema de Fernando Pessoa, que diz: "O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fi ngir que é dor/ A dor que deveras sente". Engole a seco o revés e, em vez de lamentar, arrota irreverência. Nem aí pro azar. A gente se abre da situação. "Nós sofre, mas nós goza". Chova, faça sol; de barriga cheia ou colada ao espinhaço; na praia ou no sertão; seja alvinegro ou tricolor, cearense (é coisa de Deus) dá o maior valor à vidinha que tem, é solidário. A dor une, iguala todo mundo. Ri, ri de si mesmo, faz rir. Achamento de graça e fazimento de pouco é terapia. Seria cômico, não fosse trágico. Quantifi cando, tem auto-estima mais ou menos. Mas, exibe tantos atributos positivos que engana os bestas. Aí pensa, sobre a vida: ruim com ela, pior sem ela. Cearense sente o gosto em tudo, principalmente se de bem com a vida: bem empregado, de comer garantido, menino na escola... Ora, quem não quer do bom e do melhor? Entanto, se só tem tu, vai tu mesmo. Fazemos humor mesmo sem graça, mesmo sendo sem graça. É mais saudável fazer o outro chorar de rir. Há mercado promissor pro humor. Ganhamos notoriedade. O povo de fora sai daqui com a imagem de que somos todos Anysio, que confiamos à beça no taco, que problema aqui é piada, em cada esquina tem um jumento e alegria troando, que água é produto de luxo. A caricatura disfarça, mas, tanto melhor. Saber suportar, sem reclamar, é virtude. Se dor é bênção, rir consciente da difi culdade é garantir vaga nos tablados do Alto.
Tarcísio Matos é jornalista, compositor e colunista do O POVO

O CEARENSE TEM AUTO-ESTIMA... Cláudia Leitão, professora

O que leva uma coletividade ou uma nação a desenvolver o sentimento de auto-estima? Por que determinados grupos sociais parecem possuir um maior apreço por si próprios que outros? Haveria uma relação entre sentimento de auto-estima e desenvolvimento? E mais. No caso do Brasil ou do Ceará poderíamos ainda perguntar: como reaver em comunidades excluídas e ex-colônias submetidas à domesticação de suas culturas, sua capacidade de mobilização? como resgatar a auto-estima de comunidades a quem foram solapados os sentimentos de pertença e o acesso às suas próprias expressões culturais? Quando refl etimos sobre as relações entre cultura e desenvolvimento e suas repercussões na auto-estima de comunidades e nações, deveríamos, primeiramente, levar em conta o que delas foi descartado e excluído. Para isso, precisaríamos superar traumas relativos aos nossos próprios processos históricos. Como nos diz Mia Couto, o colonialismo não morreu com o advento das independências; mudou de turno e de executores. Durante décadas buscamos culpados para as nossas infelicidades e incompetências. Inicialmente culpamos os colonizadores. Em seguida, construímos imagens românticas do que fomos antes deles. Mas os colonizadores se foram e as novas formas de colonialismo se dão entre nós. Essas formas são naturalmente geridas entre ex-colonizadores e ex-colonizados. Como nos diz o intelectual moçambicano: "Vamos ficando cada vez mais a sós com a nossa própria responsabilidade histórica de criar uma outra História". Ao mantermos o mesmo modelo mental dos colonizados, perdemos nossa capacidade de pensar, criar e imaginar, limitando-nos a repercutir pensamentos alheios, cujas consequências são fatais para nossa auto-estima; ora resultam num ufanismo ou messianismo ingênuos, sempre em busca de novos colonizadores, ora em uma profunda inação diante do presente. Alternamos os seguintes discursos: "somos maravilhosos e talentosos, só necessitamos ser descobertos!"; "Somos incapazes, somos vítimas, nada podemos fazer". Esse comportamento pendular é historicamente reforçado, no campo da cultura, pelo Estado, através de ações populistas e, no campo da economia, pelas instituições responsáveis pela criação de projetos de desenvolvimento tão inadaptados e distantes de nós. Penso que, para falarmos sobre a auto-estima dos cearenses, necessitaríamos refletir necessariamente sobre nossas políticas governamentais (lamentavelmente nem sempre públicas) e seu papel na ampliação dos significados do desenvolvimento, a partir da formulação de políticas culturais. Afinal de contas, o que esperamos para dar vazão aos nossos próprios processos criativos? Já não poderíamos ter produzido uma nova matriz de desenvolvimento capaz de incluir nossas expressões culturais, nossos valores e nossos comportamentos nas redes comunicacionais que estabelecemos e nas diversas expressões de solidariedade que construímos? E, para respondermos, enfim, se os cearenses possuem ou não auto-estima, deveríamos, antes de tudo, perguntar, especialmente, às nossas elites: quem somos nós? O que excluímos de nós e o que nos falta? Por sermos o que somos, o que poderíamos ser?
Cláudia Leitão é pesquisadora do Mestrado em Políticas Públicas e Sociedade da Uece e consultora na área da cultura

O POVO DO SÉCULO XXI - ADOLFO MARINHO, Engenheiro

A percepção nacional da natureza do cearense é, para nós, um forte motivo de orgulho. Somos admirados como um povo trabalhador, afeito a superar vicissitudes e que sabe compensar a falta da luz do saber com talento e a habilidade. O cearense sente-se vaidoso quando se identifi ca com os inúmeros irmãos que se tornaram celebridades: Dragão do Mar, José de Alencar, Rachel de Queiroz, Clóvis Beviláqua, Chico Anísio, entre muitos outros. Uma série de fatos históricos, porém, foi construindo o estigma da miséria, que desmerece o Ceará e constrange o cearense. Desde o descobrimento ao fi nal dos anos 80 do século passado, na história do Ceará prevaleceu a trilogia maldita. A consensual inviabilidade climática que condenava o Estado à miséria eterna. A resignação mística que servia de conforto para milhões de fl agelados pelas secas. A mendicância institucional, praticada pelos políticos, que privilegiava o clientelismo e provocava o desatino na gestão pública. O Projeto de Mudanças, liderado por Tasso, promoveu a reabilitação institucional do Estado, saneando as finanças e moralizando a administração. Com isto pode obter financiamentos de agentes internacionais para a implantação da infra-estrutura e iniciar a transformação do Ceará, de exportador de flagelados para endereço de investimentos. Após 20 anos agrada perceber que o Ceará é tratado com respeito e interesse, Brasil afora, e até no exterior. Melhoraram as condições sociais e elevou-se a auto-estima do cearense. Entretanto, ainda estamos distantes do desenvolvimento desejado, fase em que o cidadão será capaz de prover, por si, suas necessidades e será livre para decidir sobre seu destino. A inserção competitiva do Ceará na economia nacional e no mercado mundial, condição básica para alcançarmos o desenvolvimento pretendido, exige o reconhecimento do Ceará, como vocacionado para a Civilização do Século 21. Por isto revelou-se desinteressante para exploração predatória de invasores e colonizadores, e mostra-se impróprio para diversas atividades econômicas predominantes no Brasil de hoje. Nossas condições climáticas, outrora consideradas adversas, na nova ordem econômica constituem vantagens competitivas. Sol e ventos em larga escala e extensa faixa litorânea abrem invejáveis perspectivas para geração de energia limpa e renovável, para o turismo o ano inteiro e para maior produtividade e qualidade em agronegócios de culturas nobres. Acontece que a Civilização do Século XXI, também é a Era do Conhecimento, e conhecimento é fator imprescindível para a exploração do nosso privilegiado potencial natural e para o desenvolvimento do design, da nanotecnologia, da biotecnologia, da indústria cultural, da tecnologia da informação e comunicação. Ou seja, para gerar o novo espaço das oportunidades de trabalho. Pena é que neste campo vêem-se apenas iniciativas esparsas. Falta um projeto para o Ceará realizar sua vocação e afi rmar-se na Civilização do Século XXI. Aí a auto-estima do cearense estará nas alturas.
Adolfo Marinho é diretor da Faculdade Integrada da Grande Fortaleza, ex-deputado federal e ex-secretário do Desenvolvimento Urbano do Ceará (1994-1998)

Fonte: Jornal O Povo

Um canal de divulgação da politica, esporte, cultura e história do Ceará e do Nordeste.

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