domingo, 15 de fevereiro de 2009

O Boi é o totem do sertão - A cultura do caracol.

Para onde quer que vá, o cearense leva consigo uma cultura incrustada. Tão repleta de sertão que o singular revala-se esplendor. Não tem esse, segundo as andanças do pesquisador Oswald Barroso, que não carregue um Padre Cícero daqui para qualquer destino e passe invisível no entorno de onde se erigi um altar. Não pelo estereótipo ou rótulo de ferrar preconceito, mas pelo traço marcante e jeito próprio de inventar caminhos. Se é errante, é porque decide ou tem de ser. Mas feito caracol, que traz nele a casa, não se desfaz da teia de memórias que lhe garantem uma identidade e auto-estima. Oswald Barroso fala assim, porque anda pelo Sertão cearense há 30 anos. Catando conversas, vendo o boi brincar e se transfigurar em mito popular e erudito. Numa manhã de janeiro fomos ter dois dedos de prosa que se transformaram em uma conversa quase sem fim. O cenário, antes do O POVO tomar o rumo do Sertão, foi a exposição "Vaqueiros". Tão singular e marcante para a civilização daqui que virou "permanença" no Memorial da Cultura Cearense do Centro Dragão do Mar, em Fortaleza. Leia a seguir trechos desse diálogo.


OSWALD BARROSO
É pesquisador da cultura cearense, escritor, jornalista, dramaturgo, mestre/doutor em Sociologia, pela UFC, e professor da Uece. Foi pesquisador dos projetos: Artesanato, Literatura de Cordel e Festas e Folguedos, do Centro de Referência Cultural da Secretaria Estadual da Cultura (Secult); das exposições Admiráveis Belezas do Ceará e Vaqueiros, do Memorial da Cultura Cearense, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura; da Comédia do Boi, Corpo Místico, Vaqueiros e Caldeirão, todos da Cia. Boca Rica de Teatro.


O POVO - Você anda pelo Ceará colhendo histórias, coisas ...
Oswald Barroso - Desde 1975 ando pelo Ceará e já fiz parte de uns seis projetos de andanças por todos os municípios e muitos distritos cearenses. Comecei a percorrer o Estado há 30 anos. O último trabalho foi o do Caldeirão das Artes, patrocinado pelo Incra. De 26 de dezembro de 2008 a 6 de janeiro deste ano viajamos por Sobral ( Lagoa do Mato), Independência ( Cachoeira do Fogo), Miraíma ( Poço da Onça) e Canindé ( Poeira da Vaca).
OP - Procuravam o quê?
Oswald - Festas de Reis e a ligação desses festejos com a vida nos assentamentos. Em Cachoeira do Fogo, tiraram o reisado completo. Brincaram do Natal ao Dia de Reis (26 de dezembro a 6 de janeiro), percorreram centenas de casas e apresentaram a brincadeira várias vezes durante cada noite. Só em prendas para o banquete de Santos Reis, arrecadaram 54 cabeças entre caprinos e ovinos, fora as galinhas, capões, frutas e outros coisa. Cumpriram a promessa toda e, no último dia, fi zeram um grande banquete com a comunidade e arredores ao som de rabecas e guitarra.
OP - Essa diversidade cultural tem a ver com auto-estima do Ceará?
Oswald - Para provar que o cearense tem uma auto-estima extraordinária e uma identidade fortíssima, basta dizer que pra onde ele vai, ele leva sua cultura. Estou falando do povo cearense, não das elites. Onde o povo cearense vai, leva a imagem do Padre Cícero, coloca um altar e desenvolve algo no entorno. Por exemplo, o seu Antonio Ferreira, da Lagoa do Mato, que é mestre de Boi de Reisado, foi ser operário no Rio de Janeiro. E lá, onde ele ia, fazia o reisado. Sempre encontrava outros cearenses que conheciam a brincadeira e que se juntavam. Pedro Boca Rica, que morou muito tempo em São Paulo e foi operário de fábrica, depois fez a vida tocando nas ruas e rádios. Foi à custa de sua cultura que ele se manteve em São Paulo, fez nome e se sustentou. Inclusive fora do Ceará, o cearense descobre a força de sua cultura.
OP - O que é o cearense?
Oswald - (risos) O cearense é uma "caba da peste". Cabra resistente à peste, a toda a diversidade. Ele é uma espécie de um brasileiro errante que traz sua cultura como um caracol, enrolada no próprio corpo. Onde ele chega deita raízes, ou como diz o Daniel Lins, deita rizomas e expande sua cultura. A cultura cearense está espalhada na Amazônia, em todo canto que ele vai, leva sua cultura. A cultura do cearense tende a ganhar espaço. Ele assimila a cultura do lugar pra onde vai incorporada a dele própria. Quando ele sai do Estado, ele muito mais leva a cultura do que assimila.
OP - Mesmo voltando chiando?
Oswald - Ele volta chiando, mas lá não chia. Ele chia aqui porque quer se mostrar importante, ganhou o mundo e se tornou um sujeito importante. Lá fora ele é identifi cado como cearense. Agora, tudo é relativo ao espaço geográfi co e cultural dessas pessoas. Quando é da classe média ou alta urbana a coisa se modifi ca. São pessoas que já não têm contato com sua cultura, que têm uma cultura cosmopolita, generalizada do mundo, globalizada, midiática. Pessoas que desprezam a cultura cearense. A cultura cearense é tão forte que resiste até a cultura ofi cial do Estado. Essa política que quer trazer para o Ceará paraísos tropicais para estrangeiros.
OP - O cearense conserva ícones?
Oswald - O cearense leva Padre Cícero para onde vai. O ícone mais forte do Ceará é o boi que é essa coisa primordial. Figura da infância, esse totem, esse animal que o cearense se identifi ca. O boi era selvagem, solto na caatinga. Não era o boi amarrado, preso dentro de uma cerca. Era o boi barbatão, solto na caatinga. E o cearense era ao mesmo tempo encarregado de dominar esse boi e cuidar dele. O Ceará é o estado mais sertanejo do Nordeste.
OP - E o Padre Cícero?
Oswald - O Padre Cícero para o povo é um grande organizador social, conselheiro, um orientador. "Meu fi lho, vá pra aquela terra que é minha. Plante batata lá que eu lhe asseguro que se você plantar, você vende. Vai dá certo, faça isso em nome da Mãe das Dores". "Meu fi lho o que você sabe fazer?" "Sei botar um reisado". "Pois vá botar o reisado"... Então Padre Cícero para o povo é isso, esse santo que primeiro acolhia, orientava e punha a mão em cima. Esse negócio de coronel é papo de historiador, sociólogo, pra escrever livro.
OP - Você fala do caçador.
Oswald - É. Essa cultura do caçador faz do cearense, do sertanejo, um sujeito muito violento e machista. Porque o boi era caçado, vivia na mata fechada, na mata virgem e o vaqueiro saia perseguindo esse boi para derrubá-lo, subjugá-lo. Isso marca a sociedade cearense, essa violência. O vaqueiro tem essa relação dúbia com o boi. Ele persegue, subjuga o boi, mas ao mesmo tempo bota o nome do boi, cuida. É uma relação de adversário, ódio e amor. Eu vejo mesmo nesses líderes comunitários, que eles tratam os fi lhos, a mulher, como quem trata um bode, um boi. É um pessoal bruto, uma cultura violenta. Mas engraçado, o Ceará nunca deu grandes cangaceiros, sempre deu grandes beatos.
OP - Pátria de conselheiros .
Oswald - Isso vem da capacidade de imaginar. Você achando tão inóspita, tão adversa a vida aqui, você imagina outros mundos. Esses santuários como Juazeiro do Norte, com uma participação popular, uma arte desenvolvida em torno dele, com uma infl uência no Nordeste inteiro, aquilo é uma coisa extraordinária. O povo cria seus caminhos, suas histórias, seus signifi cados, seus ritos. E não tem só no Juazeiro. Santa Marciana no Camocim, em Senador Pompeu tem aquela Caminhada das Almas em memória dos mortos na seca. Madrinha Dodô, que morreu um dia desses, as pessoas botam a imagem dela junto com outros santos. Morreu um dia desses e as pessoas já tinham santifi cado ela em vida. As pessoas reconhecem essas pessoas boas, que irradiam luz. Acho que é isso, é essa tentativa de criar um reino diferente, um reino encantado. Vê essa vida aqui como desencantamento. Os reis, o rei é esse esplendor que tem no Interior de cada um ou de muitas pessoas que é irrevelado. Mas que se revela numa brincadeira dessa. As pessoas sempre acreditam que um dia vai ser revelada a grandeza delas. Por isso imaginam esses reinos fabulosos. O Juazeiro como uma Nova Jerusalém. Imaginam o São Francisco lá em Canindé. Acreditam que São Francisco está lá, não é São Francisco de Assis, na Itália, é de Canindé.
OP - O Caldeirão é auto-estima?
Oswald - O Caldeirão é um projeto extraordinário de vida, sociedade e religião. Não é que lá fosse virar o paraíso. De lá, haveria no fi nal dos tempos uma ligação com o paraíso. Como o Horto ( em Juazeiro), essa teoria foi transferida pra lá. Os caminhos vão se ligar. Tudo que tem ali, só está escondido o esplendor e se revelará. O povo acredita nisso. Isso tem a ver com as religiões orientais, religiões mágicas, anímicas, politeístas.

DEMITRI TÚLIO, da Redação


CARETA FEITA DE COURO DE BODE A máscara é adereço tradicional na Festa dos Caretas do município de Jardim, no Cariri. A brincadeira acontece na Semana Santa.

Fonte: Jornal O Povo

Cabeças-chatas que brilham, divertem e inventam. Lógica, humor, criação.



Um certo pendor para criatividade e para o estudo. Diz-se do cearense ser um vocacionado para as Ciências Exatas. Bons matemáticos, físicos, projetistas de aviões, engenheiros navais de primeira, ases na medicina de ponta, brilhantes que vencem concursos estudantis dentro e fora do Brasil. Some-se a isso humor, ironia, improviso, a tirada sacana, a arte de fazer graça ou rir de si mesmo. As duas virtudes juntas são o dom da criação, a inventividade. É quando a lógica segue ao lado do incerto e cria o novo, produtivo e competitivo. É dessa junção que sai o novo rumo. Foi de uma cabeça chata que o mundo pôde enfi m confi rmar como viável a alternativa do combustível vegetal. O planeta refém do combustível fóssil não sabia como sementes, folhas e grãos, que masserados se convertiam em óleo, poderiam mover engrenagens e fazer uma máquina sair do lugar. Ainda era 1977, século passado, e o inventor cearense Expedito Parente, então um jovem promissor com menos de 40 anos, fez a descoberta transformadora. Isso num tempo do Ceará atolado num estigma miserável de seca e fome, como se aqui só tivesse penúria. Três anos depois, o invento foi aberto a todos. Tranqüilo e bem humorado, o cientista hoje tem a patente do biodiesel, uma energia limpa já em franca produção no Brasil. De 4.630 barris entre março e dezembro de 2005, a produção saltou para 5.776.196 barris até outubro de 2008. São recordes após recordes desde então. A tecnologia é cobiçada pelos principais países e um dos principais trunfos da atual economia brasileira. Modestamente, Parente também criou o bioquerosene e a vaca mecânica. Já poderia estar descansando, mas que nada. Para breve, ainda promete um outro feito surpreendente, ainda em estudos, que por enquanto não pode revelar. Nesse ritmo desbravador, usando a lógica para chegar ao desconhecido, o Ceará segue sua empreitada também fazendo nanociência. Oficialmente, já desde 2001. O nano é um pedaço bilionésimo de um metro. É quase a menor parte antes do invisível. É uma área de atuação multidisciplinar, não um ramo específi co dos cientistas. Na Física, onde está mais próspera no Ceará, estuda-se a funcionalização em nanotubos de carbono e também em gracenos (partes ainda menores rasgadas desses nanotubos). "Isso tem propriedades condutoras, com perspectivas boas para a eletrônica usando o carbono e não mais o silício. No futuro, teremos transistores menores", explica o doutor em Física Antônio Gomes de Sousa Filho, da Universidade Federal do Ceará (UFC). Há projetos também em Farmacologia, Química, Engenharia Química. "O que a gente faz aqui está no nível do que se faz no país inteiro", garante. Há perspectivas diversas a partir da ciência do Ceará. Na arte de fazer navios, o estaleiro cearense disse e fez como construir embarcações de médio e grande porte com a técnica do casco montado de cabeça para baixo. Parece pouca coisa, mas o tempo de feitura de um navio cai à metade. O casco já é desvirado dentro d´água após a solda. Até então, ninguém ousara isso. A qualidade da indústria naval cearense é reconhecida mundialmente, inclusive na confecção de frota bélica para a Marinha brasileira e de países africanos. Há pouco mais de um mês, um navio-patrulha completo foi entregue à Marinha da Namíbia. No calendário dos grandes feitos da ciência local, dia 2 de outubro deste 2009 a menina Vitória Shéryda Sousa dos Santos completará 10 anos. O detalhe: ela foi a primeira bebê de proveta nascida no Estado. De lá para cá, entre as técnicas da inseminação artificial e da fertilização in vitro, só numa das três clínicas locais já foram mais de mil novos cearenses. Se antes precisavam de 100 mil espermatozóides para o processo de fecundação, hoje, segundo os médicos Evangelista Torquato e Fábio Eugênio, autores da façanha, pode-se retirar e trabalhar com apenas um. Com resultado satisfatório. "Antes, pela nossa cultura machista, a mulher vinha sozinha à clínica. Hoje, o marido acompanha na consulta". Evoluímos, continuamos aprendendo. Para onde iremos, em qual oceano digital navegaremos, é a formação atual que dirá. A educação tecnológica avança com a mecatrônica, a telemática, a computação, mas também forma novos gestores ambientais. O mundo técnico e virtual se aproxima do real, do que ainda pode ser resgatado dele. Até 2010, o Instituto Federal do Ceará (nova denominação para o Centro Federal de Educação Tecnológica) terá 12 unidades no Estado e mais 10 unidades de extensão satelizando o ensino em todas as regiões cearenses. No total, previsão de 21 mil alunos aprendendo o que fazer com nosso futuro e a se relacionar com o meio. Em breve, o Ceará também terá a maior rede de inclusão digital do governo federal, através de centros espalhados por rincões. Lugares onde nem se esperava progresso terão laboratório de informática, bibliotecas multimídia e até ensino por videoconferência. Para o reitor do Instituto Federal, Cláudio Ricardo Gomes de Lima, "se o Ceará não foi tão aquinhoado com alguns recursos naturais como em outras regiões, nosso grande patrimônio é a inteligência. É nossa moeda intangível". Iremos além.

Claudio Ribeiro, da Redação.


DA CAJUÍNA. O caju, fruto típico do Ceará, é comum no sertão e no litoral. Acauy vem do tupi-guarani e significa anos. Segundo o padre Ágio Augusto, no livro O cajueiro - vida, uso e estórias, os índios costumavam contar a idade tomando como base a safra da fruta.


TUDO COM TAPIOCA. A goma, um dos derivados da farinha de mandioca, é herança do índio do Siará Grande. É dele a "receita" da tapioca. Na culinária cearense a farinha vai ainda na peixada da água grande, com a carne de sol e feito paçoca.

Fontes; Jornal O Povo e Google Imagens

A liberdade aconteceu ali - À sombra do tamarineiro



Pioneirismo. Na praça principal de Redenção, no maciço de Baturité, a 66 quilômetros de Fortaleza, o modesto monumento Rosal da Liberdade indica um dos mais importantes momentos da história do Brasil. Ali, no dia 1º de janeiro de 1883, à sombra de um tamarineiro, aconteceu a grande festa cívica que tornaria Redenção a primeira cidade do Brasil a libertar seus escravos. A poucos metros do Rosal da Liberdade, ao lado da praça, um prédio tombado pelo município abriga a Escola de Ensino Fundamental Padre Saraiva Leal. No local, a placa explica que, no lugar, se reuniam os abolicionistas dos movimentos Sociedade Libertadora do Aracapense e Sociedade Redentora Aracapense. Isso porque, antes, Redenção se chamava Acarape. Naquela época o movimento abolicionista tomava conta do Brasil, mas foi Redenção a primeira cidade a libertar seus escravos com a ajuda de ilustres abolicionistas, como José Liberato Barroso, general Antônio Tibúrcio, padre Guerra, Justiniano de Serpa, José do Patrocínio e João Cordeiro, que presenciarem, naquele 1º de janeiro, a alforria dos 116 escravos da Vila do Acarape. Mais alguns passos adiante e já se está na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Imaculada, onde é guardada como relíquia a pia batismal de irmã Clemência de Oliveira. Filha do município, ela está em processo de beatificação pelo Vaticano. Em Redenção, por onde se anda, o cheiro é de história. Não no sentido de coisa velha, ultrapassada. Mas na perspectiva de que se construa o futuro sem os erros cometidos no passado. Mais agora, com a instalação prevista, para início de 2010, da Universidade Federal de Integração LusoAfro-Brasileira (Unilab). A chegada do equipamento na região acontecerá justamente pelo simbolismo de ser a primeira cidade brasileira a abolir a escravatura. Entre os jovens, mais até do que o aspecto histórico, a chegada da Unilab representa principalmente a possibilidade da cidade ganhar mais importância e atrair a modernidade com a oferta de ensino superior na região e contribuir de forma estratégica para o fortalecimento da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Já se fala com otimismo da revitalização do comércio, da chegada de shoppings e de novos empreendimentos para atender a demanda dos 5 mil estudantes previstos quando a universidade vir a funcionar. Enquanto o projeto não se efetiva - não foi definido ainda o terreno onde a Unilab será instalada - a população de Redenção se alimenta da história e das tradições que formaram seu povo. Não só a praça principal serve de referência para o fortalecimento dessa cultura rica em simbologias. Pertencente a antiga província de Baturité, quando ainda se chamava Acarape, a cidade teve como seus primeiros habitantes os índios tapuias, que vieram de Jaguaribe para habitar as margens do rio Pacoti, que corta a região, formando-se então uma pequena comunidade que vivia da pesca e agricultura. Depois começaram a chegar alguns negros africanos que desembarcaram no Mucuripe e se espalhavam por muitos municípios do Ceará. Conta a história que este foi o primeiro núcleo de povoação para o surgimento do município. Parte disso pode ser contado no Museu Senzala Negro Liberto, instalado na Fazenda Engenho Livramento, de 1750. Ainda hoje o lugar abriga a fábrica de cachaça Douradinha. Nas instalações, os visitantes conhecem desde o processo de fabricação rudimentar do produto as instalações da casa grande preservada desde o século XVIII. Mas também revisitam o cativeiro degradante dos escravos com todas as características originais da época escravocrata, para que nunca mais a humanidade seja submetida a tal situação. Por tudo isso, em Redenção, seu povo pode se orgulhar. Afi nal, a liberdade aconteceu ali.

LUIZ HENRIQUE CAMPOS, da Redação

Fonte: Jornal O Povo

Do provincialismo ao universalismo - O complexo de Jaburu



DEMITRI TULIO - Da redação

Após carta enviada pelo economista Cláudio Ferreira Lima, autor de A Construção do Ceará - temas de história econômica, decido por onde começar o texto. Aceito a provocação do pesquisador e me demoro, olhos ruminantes, na leitura de Retratos do Brasil - ensaio sobre a tristeza do brasileiro, de Paulo Prado; e da deliciosa crônica Brasil brasileiro, de Paulo Mendes Campos. De coisas em comum nos dois textos uma citação, da autoria de Capistrano de Abreu, concebe o ponto de partida. "O jaburu é a ave que para mim simboliza a nossa terra. Tem estatura avantajada, pernas grossas, asas fornidas e passa os dias com uma perna cruzada na outra, triste, triste d´aquela austera e vil tristeza". O trecho, que é parte de uma missiva enviada no século passado por Capistrano ao historiador luso-brasileiro João Lúcio d´Azevedo, entrou na crônica de Paulo Mendes Campos como exemplo de um malogro superado pioneiramente pelo povo paulista. "Para Capistrano, o jaburu simbolizara o Brasil; São Paulo foi o primeiro a superar a tristonha fase jaburu", ressalta o cronista mineiro. "E o Ceará, será que já deixou de ser jaburu?", instiga Cláudio Ferreira Lima. As hipóteses ou respostas de "sim" ou "não" deixo para o leitor formular e discutir com quem está ao seu lado. Enquanto isso, chego ao texto Precisa-se de Ceará - resultado de conferência entabulada por Gilberto Freyre no ano de 1944, em Fortaleza. Aqui, o estudioso da brasilidade ressaltou que o País necessitava do provincianismo e do universalismo do cearense. Para Gilberto Freyre, "nenhum brasileiro é mais cosmopolita (que o cearense). As anedotas chegaram a exagerar esse pendor do cearense; a caricatura chegou a fazer dele um cigano ou judeu brasileiro; a lenda chega a salpicar de cearenses ricos ou a caminho de riqueza, não só Nova York e Londres, como no próprio Oriente". Há mesmo essa errância, talvez por causa das secas ou espírito de arriscar mundo afora. A seca que, na visão de Rodolfo Teófi lo, historicamente sempre foi maldição menor frente "a inépcia e má vontade dos homens que dirigem a Nação e a falta de patriotismo de nós cearenses. Não amamos nossa terra como deveríamos amar. Sacrificamos o bem público aos interesses da politicagem". A alfi netada, de uma contemporaneidade perene, fora endereçada ao escritor e deputado geral José de Alencar. Rodolfo, que repetia que era cearense porque queria, não poupou o momento jaburu do idealizador do primeiro cearense - Moacir. "Em 1877, Fortaleza estava cheia de retirantes e o presidente da Província, desembargador Estelita, pedia socorros ao Governo Geral. Funcionava o parlamento e um de nossos representantes, Alencar, com o prestígio de seu nome, afi rmava à Nação que havia exagero nas notícias transmitidas pelo governo do Ceará sobre a seca, `pois os invernos em sua terra começavam em junho'.", ironizava Rodolfo no ensaio A seca de 1915. Ele, farmacêutico que enfrentou no braço batalhas a exemplo da epidemia de varíola (1877), de matar mil pessoas por dia em Fortaleza, diagnosticou que o cearense tinha sido dotado de uma "resistência orgânica assombrosa para que pudesse enfrentar as secas" e ainda sobreviver à tirania das politicagens nefastas. A essa resistência, segundo Cláudio Ferreira Lima, também se pode chamar de auto-estima. Sentimento contrário a inércia que obriga até hoje o cearense a buscar ser feliz e abandonar a caduca e incômoda imagem de povo subjugado, de mão sempre estendida. Para o economista, no Ceará precisa-se cada vez mais da sobralidade dos sobralenses, do empreendedorismo dos caririenses e da irreverência do fortalezense. A construção do Ceará, expõe Ferreira Lima em seu livro, está ligada desde sua origem à resistência e formas de reinventar o cotidiano da tribo, da vila, da capitania, da província e do Estado. Foi assim quando o Ceará foi relegado a loteamento de Pernambuco, quando Portugal decretou a Guerra dos Bárbaros, quando se introduziu a pecuária e se inventou as charqueadas. Quando se viveu a era do algodão, quando o Conselheiro concebeu Canudos e quando se lutou pela Confederação do Equador... "São muitas as idas e vindas nessa construção histórica. Tivemos um Virgílio Távora, idealizador do primeiro planejamento do Estado, do início da industrialização, e um Governo das Mudanças que virou exemplo de auto-estima e estudo no Massachusetts Institute of Thecnhology (Judith Tendler)", conta o economista. É certo, avalia Ferreira Lima, que o Ceará ainda convive com um paradoxo histórico da desigualdade social e que a população menos favorecida na maioria das vezes caminha a reboque dos interresses das elites de seus tempos. Condicionante que mexe com a auto-estima de qualquer povo. Somos, para afago do ego nacional, a terceira capital mais importante em influência urbana do País (IBGE-2007). Mas, a exemplo da administração colonial -quando havia concentração na distribuição de bens (terras), ainda continuamos tendo de ajustar a divisão da nossa felicidade interna bruta. (Colaborou Thiago Cafardo)

"Sou cearense porque quero"
Rodolfo Teófilo, farmacêutico.

Fonte: Jornal O Povo

A auto-estima do cearense



O simbólico, o imaterial, o ambiente também dão conta da auto-estima cearense. Um exemplo é o trabalho de Carlus Campos, na capa desta edição, o primeiro fragmento de um painel que se constrói ao longo de todo projeto gráfico da série, que vai até 15/4.

Porque somos Cearenses - O espelho de Capistrano

A auto-estima do Ceará estaria ligada aos processos que deram na formação do que a história chama atualmente de povo cearense? Afinal, apenas alimentamos estereótipos perenes ao tempo ou, verdadeiramente, possuímos uma diversidade cultural que nos faz ter auto-estima? Sem pretensões de respostas definitivas e certezas absolutas, visitemos João Capistrano Honório de Abreu. Começamos a conversa com ele - esse cearense de Maranguape (1853-1927), mestiço, e um dos mais importantes "intérpretes" da origem do Brasil, a exemplo de Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freire, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes e Mário de Andrade. Segundo o historiador Arno Wehling, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Capistrano de Abreu foi um dos pesquisadores que mais lucidamente esquadrinhou o "caráter nacional brasileiro" ou o conjunto de características que defi niam o brasileiro do século XIX. Quatrocentos anos de desenvolvimento histórico, anotou o cearense, deram num traço "distinto de outros tipos nacionais e daqueles que lhe deram origem". Arno Wehling, em um texto da revista Trajetos/2004, publicação do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Ceará (UFC), explica que Capistrano concebeu o caráter nacional forjado de forma "significativa, mas não exclusiva pela ação da natureza e da raça através da aglomeração de populações distintas. A sociedade colonial assim formada reagia, por sua vez, contra aqueles condicionamentos, tornando-se, no Brasil, a principal modeladora do caráter nacional". O jeito de enxergar do cearense se opunha ou se alinhava, na época, às idéias de outros pensadores sobre a origem do brasileiro, nacionalidade e consciência provincial. Eram tempos de intelectuais como o escritor carioca Sílvio Romero, que admitia a mestiçagem e atribuía maior infl uência à presença do negro. Dos românticos - feito José de Alencar - que puxavam brasa para os índios e os lusófilos, a exemplo de Pereira Barreto, que tinham certeza do DNA dominante dos portugueses. Havia também aqueles que apostavam no equilíbrio entre o nativo, o português e o preto. Com Sílvio Romero, Capistrano de Abreu travou uma polêmica pública. Foi em 1876, através das páginas do jornal O Globo. Romero defendia que o que havia de negativo no caráter brasileiro e, conseqüentemente o atraso do País, tinha origem na natureza e na raça. Particularmente não por causa da mescla com o tupi, sobretudo devido a herança genética do sangue do africano primitivo. "Logo o que notardes de diverso entre o brasileiro e seu ascendente europeu, atribuí-lo em sua máxima parte ao preto. Chegamos, pois, a uma fórmula que podemos exprimir assim: brasileiro=português+negro", transcreveu e ironizou Capistrano de Abreu. Para o cearense, que também morou em Recife e depois no Rio de Janeiro, a hipótese de Sílvio Romero era fraca de argumentação. A mistura das raças era um caráter a se considerar, mas de forma secundária, pois, positivistamente falando, era "difícil explicar estes fatos pelo cruzamento com o preto". De acordo com o historiador carioca Arno Wehling, Capistrano de Abreu, ao contrário de Romero, entendia que a sociedade da época da colônia brasileira, "esmagada pela rarefação, pelas difi culdades de comunicação, pelo transplante precário das instituições portuguesas, ou seja, por uma combinação de fatores naturais, tornara-se atrofiada, incapaz de ação social vigorosa". Uma sociedade com traço de "indolência", mas, segundo Capistrano, também capaz de demonstração de reação. Sinal disso, na época da colônia, era a presença dos colégios jesuítas, da introdução da cultura de criar gado no sertão e da resistência contra o invasor francês, holandês e o próprio português. Para o historiador Robério Américo Souza, da Universidade Federal Fluminense (UFF), o cearense Capistrano de Abreu, ao se lançar na investigação sobre o destino do povo brasileiro ocupando o sertão, "almejava não apenas a satisfação de uma problemática histórica. Mais que tudo, buscava subsídios, fontes, para compreender a si mesmo, sertanejo, caboclo matuto, de origem modesta e rude. Sua investigação era, então, movida por interesse pessoal, mas nem por isso menos legítima" e carente de paixão. Pelo legado histórico deixado por Capistrano de Abreu, arriscamos escrever que o maranguapense é um dos precursores na inquietação e investigação de caminhos que também são elucidativos na pesquisa sobre a formação da auto-estima cearense e do multifacetado povo brasileiro. Capistrano, segundo a historiada Rebeca Gontijo, da UFF, iniciou o projeto de escrever sobre a história do Brasil quando ainda estava no Ceará. Lugar onde garimpou material sobre os cotidianos da província, as secas grandes e o modo arrastado de como a capitania foi povoada no período colonial. O Siará Grande que ficou à mercê da vontade do donatário Antonio Cardoso de Barros de vir colonizá-lo. Caspistrano de Abreu não escreveu uma narrativa completa sobre a História do Brasil, obra tão esperada pela intelectualidade dos oitocentos. Mas deixou capítulos preciosos de uma história que, segundo o método dele, se faz em espiral. Em artigo da revista Trajetos, Rebeca Gontijo explica que para o cearense "sempre faltava um documento, tornando-se necessário retornar periodicamente ao mesmo ponto, a fim de tentar corrigi-lo. Daí a impossibilidade de contentar-se com qualquer conclusão". Para além dos documentos e conclusões, anote-se ainda os imaginários coletivos, a diversidade (cultural) cearense e as fronteiras móveis da história que são empurradas pela dinâmica dos cotidianos de cada tempo. Experimentamos a idade do couro, concebemos o Caldeirão, estamos aprendendo a conviver com as secas e quem sabe - caminhamos para a reinvenção da roda movida a energias limpas e cidades digitais.

EDITORIAL - O que será que será

DEMITRI TÚLIO da Redação.

Uma construção? Um conceito? Um estado de espírito? Estamos falando da auto-estima do cearense, algo imponderável, pouco pesquisado, mas que não dá para não discutir. Será que ela reside no pioneirismo(?), que atravessa a história e vai da libertação do escravos à invenção do biodiesel? São muitas as questões. E nós vamos atrás das respostas. Produzimos até um projeto -AutoEstima Cearense - saído da cabeça do diretor de Projetos Especiais do O POVO, jornalista Cliff Vilar, que prevê uma série de ações ao longo primeiro semestre de 2009. A idéia é se debruçar sobre a temática até então pouco explorada. "As informações que dispunhamos eram empíricas", diz Cliff. O primeiro passo foi a contratação de uma pesquisa, que ficou a cargo do Instituto Gerp de Pesquisa Estratégica. O objetivo: levantar aspectos ligados à auto-estima do cearense, que pudessem subsidiar o desenvolvimento de uma campanha publicitária, associada a uma marca forte, enaltecendo a essência do povo cearense. A pesquisa quantitativa, com entrevistas por telefone e pessoalmente, foi realizada de 15 de outubro a 24 de novembro de 2008 em um universo de 865 pessoas, distribuídas por todo o Estado, com margem de erro de 3,40 pontos percentuais. O resultado apontou que o cearense, apesar de todas as adversidades, é um povo de elevada auto-estima. De posse dos resultados da pesquisa, foi montada uma estratégia visando a propagar esse sentimento entre os cearenses através de diversas ações, procurando enxergar o Ceará como um todo. Uma das ações é publicar de três cadernos especiais nos meses de fevereiro, março e abril, destacando os vários aspectos que envolvem essa temática, a gênese, o conceito, as pessoas, o patrimônio material e imaterial, as histórias que são defi nidoras do espírito cearense. O primeiro especial é o que lhe chega agora às mãos. Nos próximos meses, como parte das ações previstas pelo projeto, estão o lançamento de um site e da eleição de uma marca que identifi cará esse espírito "cearensês". Além disso, para o debate está prevista uma série de debates na TV O POVO, assim como um concurso de redação. Como diz Cliff Villar, a intenção é envolver faculdades, entidades empresariais, sindicatos, associações..., na busca de fortalecer essa tal da auto-estima do cearense.

Fonte: Jornal O Povo

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Um mar de histórias



Memórias de Celsa Gomes. Ela mora no meio da rua dos Tabajaras, herdada do jangadeiro Tatá, seu primeiro marido. Aos 83 anos, muito bem conservados, Celsa é uma sábia contadora de histórias

Quando Jacaré, Manuel Preto, Tatá e Mestre Jerônimo se aventuraram, em 1941, da praia do Peixe ao Rio de Janeiro, a bordo da jangada São Pedro, sem bússola, para reivindicar a situação dos pescadores junto a Getúlio Vargas, ela tinha apenas 16 anos. Somente 10 anos depois, viria conhecer e casar-se com Raimundo Correia Lima, o conhecido Tatá. Ela é Celsa Gomes Soares. "Eu era Lima, do Tatá, mas agora é só Gomes Soares". Aos 83 anos, mora na Praia de Iracema, na mesma casa herdada do finado Tatá, falecido em 1971, atropelado. "Quando a gente se casou, eu tinha 26 anos e ele 64. Ele tinha idade de ser meu avô. Ele me pediu para depois que morresse eu não vender a casa." E assim ela fez.

No meio da rua dos Tabajaras, a casa se destaca entre lojas de artesanato, restaurantes e algumas poucas residências que ainda restam. Cheia de plantas, decorada com quadros antigos e fotografias na parede, a casa é um grande corredor. Hoje, a história se inverteu, vive com o segundo esposo bem mais jovem que ela, José Brasiliano Soares, desde 1975.

Celsa fala com a boca, as mãos e os olhos. Sorri e se emociona. Sua história de vida desenha um retrato vivo da Praia de Iracema, embora tenha nascido no sertão, em Salva Vidas. "Fica a três léguas de Quixeramobim", mapeia. Veio para Fortaleza em 1946, durante a seca, trabalhar na casa da família Gentil. Foi ser cozinheira. A mansão estava localizada à beira da praia. Hoje, a casa é o sindicato dos engenheiros particulares e fica logo no final do beco, em frente onde Celsa mora atualmente.

No dedo anelar da mão esquerda, a aliança de ouro ainda marca as lembranças vividas naquele bairro. As histórias na memória relembram o primeiro encontro com o jangadeiro. "Toda noitinha, ele passava para a praia aqui pelo beco. Tinha muita gente que trabalhava lá comigo. Ele passou uma vez e puxou assunto. Perguntou se a gente gostava de ir à praia. Logo se engraçou comigo. Eu já era noiva quando conheci o Tatá. Me apaixonei, desfiz o noivado e casei. Ele era mais velho e tinha mais juízo.(risos). Eu fui a 4º esposa dele".

O batom vermelho nos lábios se destacava sobre a pele negra e combinava com o vestido longo que usava. "Paulinha que mandou pra mim da França. Ela manda é muito, tenho um vestido de seda chinesa. Às vezes, manda as fazendas bonitas também. Esse aqui tem mais de 10 anos."

Paulinha e Sadi foram os filhos que ainda teve com Tatá, já passando das seis décadas de vida. O caçula, que tem o nome do pai, Raimundo Correia Lima Júnior, na boca da mãe, ganha o apelido de Sadi. Com menos de um ano de diferença, Paula Maria Lima Martin é, carinhosamente, Paulinha. "Minha filha conheceu o francês tomando banho de mar. Aqui, na Praia do Lido (atualmente praia em frente ao restaurante Tia Nair). Eu não queria que ela se casasse. Ela tinha 18 anos e ele era 20 anos mais velho. Casaram. Foi lindo o casório, lá na Catedral. Mora lá, com ele, até hoje. Paul Pierre." E a história se repetiu.

Sadi também foi embora, com 21 anos. Encontrou uma australiana, lá em Belém do Pará. "Tão linda ela. Os olhos verdes da cor do mar. Lá na Austrália já teve cinco filhos. Cada um com uma mulher diferente". Atualmente, vive com a chilena Cinthya. "E tá esperando mais uma menina, agora pra dezembro". Sadi é músico e não seguiu o desejo da mãe de ser marinheiro, mas atendeu aos anseios do pai, ficando longe do mar. Ele não queria que o filho seguisse a sina de pescador.

Já foi à França três vezes visitar a filha, mas a última foi em 1983. "Hoje em dia eu não vou mais, não. Esses aviões tudo doido, caindo". Prefere ficar por ali, nas imediações da sua Praia de Iracema. Antigamente, adorava caminhar no calçadão da Beira Mar. Ia até o Ideal, cedinho. Agora, se aproxima do mar somente quando José a leva. "A gente senta, come uma pipoca, toma uma água de coco. Antigamente, tinham as piscininhas aqui na frente. A gente tomava banho. Era bom. Agora tá tudo poluído, tudo sujo." Passear na Beira Mar, tem que ir de carro. O joelho não permite mais a caminhada e o esforço físico.

Aos olhos de Celsa, o tempo andou mexendo na arquitetura do bairro e na sua rua. "Com o tempo, está tudo diferente. Nem dá mais pra ver o mar daqui. Os engenheiros fizeram uma puxada ali em cima. Tampou a minha visão", reclama. A reforma do calçadão da Praia de Iracema tem causado alguns incômodos. Antes, os atletas usavam o espaço para o esporte, "agora, eles vêm fazer cooper aqui, no calçamento. Passam em frente de casa, em vez de ser lá pela praia, pelo calçadão", conta incomodada Celsa.

Ainda com um pé no sertão, passa as manhãs escutando o Reouvindo o Nordeste, programa da Rádio Universitária. Luiz Gonzaga é a trilha sonora predileta para cozinhar seu peixe frito com leite de coco. "Na casa onde eu trabalhava a gente só comia comida boa. Aí eu me acostumei... (risos). Garoupa, Pargo. Adoro!"

Ela reclama do barulho noturno da Praia de Iracema, da sua vista do mar que se foi, mas também sonha em reformar a casa. Na televisão, assiste de tudo. "Só não gosto muito de novela imoral. Eu tenho vontade de escrever uma carta para o (Luciano) Huck. Ele ajeita casa, né!?" Extremamente ativa no lar, agua as plantas, varre a casa, e lava o terraço. Disposição não falta para as atividades domésticas. "Só não lavo roupa".

Na rua, todo mundo conhece Celsa. Na comemoração dos 80 anos, ganhou uma grande festa. A casa de forró mais conhecida da cidade fica na mesma rua de sua residência. "Paulinha tava aqui para organizar a festa. Eu lembro que fiquei cansada de tanto ir buscar gente no aeroporto. Teve a ajuda da cônsul francesa. A Fernanda, amiga da minha filha. Elas se juntaram e fizeram as batucadas lá no Pirata. A gente é muito amiga do Júlio. Paulinha, quando vem da França com as amigas, ninguém paga nada", conta orgulhosa.

Sobre o bairro, fala afetuosa. Nem ela, nem José querem deixar a Praia de Iracema. Ir para a França? Nem pensar. Aqui ela tem José, "lá, tenho medo de me botarem na casa dos velhos". O companheiro é técnico fiscal de obra da prefeitura, passa o dia trabalhando fora. Católica, Celsa diz ter medo de morrer sozinha em casa. "Uma vez eu caí e não conseguia me levantar. Eu tava sozinha. Tentei me levantar na cadeira e ela virava pra cima de mim. Até que eu tive a idéia de ir até a cama e consegui me levantar. Eu peço é muito pra nossa senhora não deixar eu morrer só aqui em casa".

Os planos para o futuro dependem da vontade de Deus. Somente por um motivo, sairia do bairro. Nem só o dedo do homem é capaz de provocar mudanças na Praia de Iracema. "Eu peço a Deus que essa onda não venha. Vai acabar com tudo, com as casas da gente. E se não sair, morre todo mundo também". Conta Celsa que a onda terá mais de 50 metros e que ela virá até 2013. "Os pastores é tudo rezando na beira da praia. O governo tem que saber e avisar a gente. Eu sei que já tá despregando uns gelos por acolá. Eu até já sonhei, todo mundo correndo. Vai ficar só as cabeças dos morros".

Fonte: Jornal O Povo

terça-feira, 30 de setembro de 2008

O livreiro de Stalin

A história de Manoel Raposo Coelho. Livreiro, militante comunista, editor, poeta, compositor, intelectual, escritor e boêmio, Manoel Raposo é um dos últimos símbolos de uma Fortaleza vermelha


Jáder de Carvalho durante noite de autógrafos na Praça do Ferreira: 850 livros vendidos. Ao lado Manoel Raposo em sua casa (Foto: Fco Fontenele)

A noite corria mansa quando Manoel Coelho Raposo pisou na Praça do Ferreira na segunda-feira, 22. Penteou, com os dedos, os cabelos brancos desfeitos pelo vento que passeava sem rumo em volta dele. Metido numa calça cinza, uma camisa esverdeada e um cinto que juntava as peças, atando-as ao corpo franzino e sumido, rodeava o lugar com os olhos.

- A guarita ficava bem aqui, disse encaminhando-se para o lado esquerdo da praça, com passos rápidos e miúdos. - Não havia este calçadão. A (rua) Guilherme Rocha atravessava a praça e do outro lado da rua ficava o Abrigo Central. As mãos indicam o lugar grudado na lembrança.

A guarita era uma livraria ambulante que Manoel Raposo arrastava pelas ruas do Centro vendendo livros, pelo meio da década de 50. Dessa guarita, com energia improvisada de uma bateria de carro, Manoel Raposo foi o responsável pelas noites de autógrafos mais ruidosas que a cidade viu naquela época. E não viu mais. O jornalista Jáder de Carvalho protagonizou uma dessas noitadas. Vendeu 850 livros no dia do lançamento do Sua Magestade, o juiz. A guarita cresceu. Manoel Coelho Raposo se tornou um dos maiores livreiros do Ceará, numa época em que não havia esse negócio de franquias e redes. As nove livrarias Feira do Livro - no Ceará e Rio Grande do Norte - fizeram dele um respeitado distribuidor da literatura marxista e nacionalista do País. Era do balcão da Feira que saíam os livros da histórica editora Vitória, do Partido Comunista do Brasil (PCB); da Fulgor e Obelisco; da Editora Civilização Brasileira, do Ênio da Silveira; da Brasiliense, do Caio Prado Júnior; da Zahar Editora, responsável por trazer ao Brasil os marxistas norte-americanos.
Essa história começou a ser escrita quando um garoto de uns 17 para 18 anos saiu do Crato, corrido da casa do tio Pedro Felício, que o havia empregado numa loja de vender ferragens. Manoelzinho serrava ferro; contrito, também ajudava na missa - era um cruzadinho - e escrevia versos. Um belo dia, viu uma movimentação de gente que se encaminhava à praça Siqueira Campos em passeata. Foi junto. Descobriu que ali se travava uma luta, na base da palavra, pela Semana Inglesa. Os operários do Crato defendiam folga do trabalho aos sábados. De cima de um caixote que servia de palanque, o garoto não contou as pipocas. Foi lá e fez discurso. Na velocidade com que as conversas correm, Pedro Felício não gostou das idéias comunistas que estavam assolando a cabeça do rapazote. Expulsou-o de casa e o despediu. "Vá pra Rússia, seu subversivo, comunista", ouviu o menino desnorteado. "Aquilo me marcou profundamente", diz. No auge do desespero, entrou numa igreja e rezou. Quando saiu de lá, tinha Fortaleza nos planos. Pouco tempo depois se despedia de Deus.

No banco da praça

A lua estava amarelada naquela segunda-feira em que Manoel Raposo esquadrinhava a Praça do Ferreira. Do lado contrário ao da guarita, mais para a banda da lanchonete Leão do Sul, ficava o banco dos comunistas. - Era aqui onde se encontravam o Pedro Jerônimo, o Josafá Linhares, o lendário Papão, que virou personagem do Graciliano Ramos no livro Memórias do Cárcere, o Aluízio Gurgel e a turma de O Democrata, Maria Pontes, Morais Né, Odalves Lima, enumera um por um. Põe no rosto um sorriso entusiasmado de retorno no tempo. A Praça do Ferreira era o umbigo de uma Fortaleza avermelhada. Nesta cidade, que exalava idéias por todos os lados, com uma juventude que até pelo aumento no preço do ingresso de cinema fazia passeata e ato público, Manoel Raposo se tornou funcionário da empresa J. Lopes e foi estudar no Colégio Fênix Caxeiral.
Por essa época, o militante comunista Pedro Jerônimo entregou-lhe um livro que precisava ser lido sem demora: A Vida de São Luiz. Manoel estranhou um comunista envolvido com vida de santo. No miolo, porém, estava A Vida de Carlos Prestes. Numa outra ocasião, foi recrutado para a União da Juventude Comunista. O convite veio de um jovem alto e bem aparentado. Chamava-se Beni Veras. Deixar de ser empacotador para trabalhar em O Democrata (jornal do partido comunista) foi questão de dias. "Me decidi pelo partido comunista", fala com ar grave. Decisão que vai carregar para sempre.
Quando saiu de O Democrata, pediu 100 mil réis ao pai para começar o próprio negócio. Comprou o livro A vida de Luís Carlos Prestes. Vendeu, comprou dois. Foi assim que a guarita nasceu e, depois, a Feira do Livro. O comunismo sempre junto. Ficou amigo de Luís Carlos Prestes, Oscar Niemeyer. Tornou-se um militante sem precedentes na história da esquerda cearense. Era uma junção de livreiro, escritor, poeta, intelectual, editor, compositor, boêmio e, acima de qualquer intempérie histórica, stalinista. Como editor pôs na rua livros de cearenses como Moreira Campos e Jáder de Carvalho. Editou a revista O Saco, símbolo de uma das mais comentadas revistas de cultura na década de 70, em Fortaleza, com repercussão nacional; mais tarde publicou O Popular. Escreveu 22 livros entre poesia, economia política e teoria marxista. Como comunista pagou um preço elevado. Em 1964, Manoel Coelho Raposo teve todo o estoque de livros considerados "nocivos" à sociedade brasileira e confiscados pelos militares. Foi preso. A rede de livrarias cambaleou, e ele teve de pedir concordata. Dois anos depois, havia honrado todos os compromissos, mas redesenhou a estrutura da empresa, agora de menor porte.
Como stalinista, a situação ganhou ares de loucura, para uns, e de extrema coerência, para outros. O ano de 1956 ficou marcado pelo famoso discurso feito por Kruschev no XX Congresso do Partido Comunista Único Socialista (PCUS), conhecido por trazer a público "os crimes de Stálin". Manoel Raposo nunca aceitou as denúncias que promoveram um processo de desestanilização da esquerda mundial, dividiram os comunistas de uma ponta a outra do ocidente e criaram o revisionismo. "Chorei ao ouvir aquilo. Kruschev foi um traidor. Ele manchou para sempre o nome de um dos maiores gênios da humanidade. O homem que venceu a miséria do Nazismo. Sim, porque não foram os americanos que venceram a guerra contra Hitler, foi Stálin. Daquele dia em diante decidi lutar para defender Stálin."
E disso Manoel Coelho Raposo nunca arredou o pé. Crê fielmente que o futuro da humanidade é o sistema comunista. Com ele, a sociedade veria o fim da luta entre as classes proletária e burguesa e os trabalhadores dominariam os meios de produção. No comando, estaria um partido único, capaz de mostrar o caminho que libertará o homem do seu maior inimigo, a cegueira do capitalismo. Nem o termo stalinismo, usado com toda a carga pejorativa, o fez mudar de idéia. Para contrapor-se ao que chama de "traidores da Revolução", deu para escrever livros que honram o nome de Stálin e todos os meios usados por ele para sustentar a Revolução de 17 de outubro: da limpeza dos dissidentes da cúpula do partido, passando pelo banimento dos contra-revolucionários, à morte dos que resistiram à coletivização da agricultura na Rússia. "Desculpe a expressão, minha filha, mas não se faz revolução com beijinhos e tudo o que Stálin fez era necessário para a construção do comunismo."
O livreiro pôs no comunismo toda a sua vida. Aos 75 anos, completados em abril passado, mora no Centro, nos altos do prédio onde funciona a pequena Forgráfica Editora. Atualmente trava um luta contra o tempo e um enfizema pulmonar, que faz do ato de respirar uma batalha. Na pequena sala da editora, Manoel rumina memórias, rodeado de livros, dele e de outros autores, blocos de recibos empilhados, poeira, três ventiladores e uma bandeira do comandante Che Guevara, que observa tudo.
Do homem apaixonado pela boêmia, Manoel Raposo não fala muito. Cerca-se de uma discrição velada. Aqui, acolá escapa um "fumei muito, bebi como diabo". A história do menino pobre de Crateús, filho do cego Genuíno e de Toinha, sai nesses dias no livro Caminhos Paralelos - Um Homem do Mundo que está pronto para ser lançado logo após passar o período das eleições, no pátio do Theatro José de Alencar. Nele, Manoel Raposo se transforma numa espécie de Homero que recorre às musas e conta sua vida em forma de poesia épica. O livro traz ainda um trecho de Hera, romance autobiográfico interrompido - "por compreender que não é o romance o meu ofício" -, e de outros poemas escritos em várias fases da vida.
- Por hoje chega, né? Sentado num dos bancos da Praça do Ferreira, ele é apenas letra, palavra, poema, memória. Levantou-se firme e antes de ir embora relembra: "Vivi muitas coisas aqui. É tudo passado".
"Por hoje chega"
Fui, primeira vez, à casa de Seu Raposo em junho passado para entrevistá-lo. Ele estava no meio de uma crise, mesmo assim, resolveu me receber. Começamos a conversa com o acordo de que faríamos um pedaço da entrevista naquele dia e terminaríamos logo que ele se sentisse melhor. Mal começamos, ele puxou livros, leu poemas e contou, sôfrego, histórias da infância em Crateús, a chegada ao Crato, a vinda para Fortaleza. Enfileirou os feitos. Nessas idas e vindas da memória, quase sem perceber, estava diante de um homem que defendia Stálin com a fé de um cristão numa arena romana.
O esquema jornalístico de pergunta à espera de uma resposta já tinha ido embora fazia tempo. Antes de encerrar, convidou-me para ver com ele "uma pérola do comunismo, o verdadeiro cinema no tempo do camarada Stálin": o filme era A Balada do Soldado, de Grigori Chukhrai. Combinei de voltar dois dias depois para concluir a conversa. Quando liguei, seu Raposo estava internado. Lá ficou quase um mês. "Entre a vida e a morte", como ele relatou depois. Quando voltou para casa sofreu horrores com a reação alérgica à medicação.
Quase três meses se passaram e voltamos a nos encontrar. Logo após os cumprimentos, ele disse: vou ler para você a poesia que fiz quando saí da crise. Declamou o poema Amor e poesia, impresso, datado e assinado. De novo, a entrevista escorria entre os dedos. O homem que parece saído do romance célebre de Miguel de Cervantes escapole e dita ele os rumos da conversa. Onde paramos naquele dia mesmo? Quando chegamos em 1976, ele disse: "Por hoje chega, vamos marcar outro dia". Foi assim nos outros encontros. Agora, com mais liberdade eu mesma pedia os trechos dos livros para ler. Abria os pacotes para tirar de lá as publicações, batia a poeira.
Os temas que envolviam a vida familiar e a fama de boêmio romântico, estilo Castro Alves, não eram bem vindos. Só muito de leve, cedeu um pouco e declinou o nome de alguns amores. Ouvi algumas composições paridas no meio de profundas crises existenciais e amorosas. Para compreender o universo do Seu Raposo, saí ouvindo vários personagens que conviveram com ele na militância, na poesia, na literatura, na boemia e decidi contar a história dividida em três matérias. A primeira, publicada hoje, um relato sobre ele. Amanhã, o intelectual editor que abriu caminhos para gerações de jornalistas, escritores e boêmios; na quarta-feira, a construção do militante de esquerda e suas práticas políticas. É claro que Seu Raposo é muito maior do que tudo isso, mas a série de matérias é, pelo menos, um começo.

Depoimentos


"O velho Manoel Raposo é o último dos moicanos. Ele foi de uma geração de homens inteligentes que renunciaram à vida burguesa. Raposo se desfez de tudo para se dedicar à vida voltada para a luta do povo. Ele tem um sentimento de responsabilidade com o povo e é o último representante desse sentimento. Dedicou toda a sua vida, com toda a determinação ao que ele acreditava. Ele é um stalinista, fui trotskista, tivemos muitas divergências, mas trabalhamos muito juntos. Eu chamo isso de coerência e ele pagou caro. Foi um empresário bem sucedido, foi um dos maiores empreendedores que o Ceará teve e colocou todas as suas posses a serviço do que ele acreditava. Ele é um dos desses homens que viveram a vida plenamente".
Francisco Auto Filho, secretário da Cultura do Estado do Ceará


"Eu acho que Manoel Raposo é uma das grandes personalidades vivas do Ceará. Pela trajetória marcante na política e na cultura. Ele tem uma importância imensa para toda uma geração de escritores e jornalistas cearenses. Foi ele quem editou a revista O Saco e lançou todo um grupo de jovens autores, artistas plásticos. A vida inteira o Raposo fez isso. Sempre foi guiado pela utopia. Foi a utopia que determinou esse humanista. Pagou um preço altíssimo, mas até hoje guarda consigo essa coerência".
Rosemberg Cariry, cineasta


"O Raposo é um homem do povo. Nunca foi sofisticado. É um intelectual e vai ser isso a vida inteira. Mesmo sendo um empresário, um homem de dinheiro, por conta do seu posicionamento político, sempre foi um homem simples. Ele agrupava as pessoas, não tinha uma liderança agressiva. Conseguiu ter dinheiro, tinha muito dinheiro e usava isso para fazer coisas bacanas na cidade. Já tive umas brigas com ele, mas ele é uma pessoa singular: um intelectual, um comerciante que gostava de ser um produtor cultural, de fazer o que ele acreditava".
Seigbert Franklin, artista plástico

Fonte: Jornal O Povo

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